ENCANTO DA LUZ
One Man's Art
NORA ROBERTS


Um pequeno raio de luz no corao de um homem podia ampliar seus horizontes como ele nunca sonhou...
Grant Campbell havia se isolado do mundo, vivendo sozinho em um farol... at que uma tempestade levou a encantadora Genvive Grandeau  sua porta. Grant no era
um homem acostumado a ceder espao a outras pessoas em sua vida. Poderia a fascinante artista apagar as sombras de seu passado e convenc-lo de que o amor deles
era uma luz para o futuro?
Esse  o quarto volume, indito, da srie Os MacGregors, saga de famlia que consagrou como um dos grandes gnios do romance contemporneo e a tornou um fenmeno
do mercado editorial em todo o mundo.

Digitalizao: Rita C.
Reviso: Cris Paiva


Um

Gennie soube que encontrara o lugar certo no momento em que passou pelas construes de madeira desbotada. O vilarejo, de maneira prtica e precisa, chamado Windy 
Point, finalmente capturou suas expectativas pessoais de um local na costa do Maine onde pudesse se estabelecer por um tempo. Ela achara algumas das outras paradas 
pitorescas ao longo da costa irregular, perfeitas para um carto postal. Talvez a perfeio tivesse sido o problema.
Quando se decidira por essas frias de trabalho, tinha como objetivo principal explorar um aspecto diferente de seu talento. At tomar essa resoluo, sempre mistificara, 
confiando em suas prprias tendncias em relao a iluses; dessa vez, sua deciso era consciente. Seria realista, independentemente do quanto fosse difcil. Mas 
o fato era que seu porta-malas estava carregado de impresses de pedras, mar e terra em telas e blocos de desenhos. Porm...
Havia alguma coisa a mais em Windy Point. Ou talvez alguma coisa a menos. No existia exuberncia ou margens suaves ali. Era uma rea campestre rude. No havia rvores 
cobertas de folhas, mas alguns abetos atrofiados, nodosos e destrudos pelo clima. A estrada tinha muitos buracos e o solo era irregular.
O vilarejo em si no se encontrava exatamente dilapidado, mas possua um ar antigo com todas as suas saudades e dores. Sal e vento haviam desgastado as construes, 
removendo a tinta, marcando as janelas. O resultado no era uma imagem limpa, mas sim robusta.
Gennie viu uma beleza funcional. O lugar no possua construes frvolas. Cada uma servia a seu propsito... lojas de miudezas, correio, farmcia. As poucas casas 
ao longo da avenida principal continham a implacvel praticidade da Nova Inglaterra, em seus formatos vigorosos e tamanhos meticulosos. Poderia haver flores, adicionando 
uma alegria surpreendente, e cores vivas contra as tbuas firmes, mas ela notou que quase todas as casas tinham um caminho de plantas bem cuidadas nos fundos ou 
na lateral. As petnias podiam crescer de maneira um pouco indisciplinada, mas as cenouras eram bem podadas.
Com a janela do carro abaixada, ela podia sentir o aroma do vilarejo. O cheiro de peixe simplesmente predominava.
Primeiro, Gennie foi dirigindo sempre em frente, querendo captar de forma plena a atmosfera da avenida principal. Parou no ptio ao lado de uma igreja, onde os marcos 
de granito eram muito austeros, e o gramado alto e selvagem, ento virou o carro para continuar a observar enquanto dirigia. No era uma cidade grande, e a avenida 
era estreita, mas possua senso de amplitude. Ali, certamente, voc no colidiria com seu vizinho l, a menos que quisesse. Satisfeita, Gennie estacionou na frente 
da loja de miudezas, imaginando que aquele seria o ponto de encontro social de Windy Point.
Havia um homem l dentro, sentado em uma velha cadeira de balano. Ele no a olhou, embora ela soubesse que ele a vira passar dirigindo e voltando. Continuou a balanar-se 
na cadeira enquanto consertava uma armadilha para lagostas. Tinha o rosto bronzeado tpico das pessoas do litoral, olhos reservados, cabelos ralos e mos calejadas 
e fortes. Gennie prometeu a si mesma que o desenharia exatamente assim. Ela saiu do carro, retornou para pegar a bolsa, e se aproximou do homem.
- Ol.
Ele assentiu com um gesto de cabea, s mos ocupadas com as ripas de madeira da armadilha.
- Precisa de alguma ajuda?
- Sim. - Ela sorriu, gostando da fala arrastada que, de alguma maneira, implicava energia. - Talvez possa me informar onde posso alugar um quarto ou um chal por 
algumas semanas.
O dono da loja continuou se balanando enquanto a estudava com olhos perspicazes. Ela era da cidade grande, concluiu ele, no com total desdm. E do sul. Apesar 
de ser um homem que respeitava o sul de Boston, imaginava-a como algum que pertencia s regies midas abaixo da linha de Mason-Dixon. Ela estava arrumada e era 
bastante bonita, embora a tonalidade bronzeada da pele e os olhos claros lhe dessem substancialmente a aparncia de estrangeira. O que levava ao ponto inicial, pois, 
se algum fosse muito para o sul de Portland, o local j podia ser considerado estrangeiro.
Enquanto ele se balanava na cadeira e ponderava, Gennie esperou pacientemente, os cabelos negros e volumosos erguendo-se dos ombros e esvoaando com a brisa salgada. 
Sua experincia na Nova Inglaterra durante os ltimos meses a ensinara que, apesar de a maioria do povo ser gentil e amigvel, em geral, possua um ritmo lento.
Ela no parecia turista, pensou ele... Era mais como uma daquelas princesas dos contos de fadas que sua neta lia em livros ilustrados. O rosto delicado chegava a 
um ponto sutil no queixo, e a curva das mas nas faces lhe dava um ar de arrogncia. Entretanto, ela sorriu, amenizando a expresso, e os olhos eram da cor do mar.
- No recebemos muitos turistas no vero - disse ele demoradamente. - Todos j foram embora, de qualquer forma.
Ele no perguntaria, Gennie sabia. Mas ela podia ser expansiva quando lhe interessava.
- No acho que me qualifico como turista, sr...
- Fairfield... Joshua Fairfield.
- Genvive Grandeau. - Ela ofereceu-lhe a mo, que ele achou satisfatoriamente firme em sua mo rude de trabalhador. - Sou artista. Eu gostaria de passar um tempo 
aqui, pintando.
Uma artista, pensou ele. No que desgostasse de quadros, mas no tinha certeza se confiava nas pessoas que os produziam. Desenhar era um bom hobby, mas como trabalho... 
Contudo, a moa tinha um bom sorriso e no demonstrava fraqueza.
- Talvez haja um chal a trs quilmetros daqui. A viva Lawrence ainda no o vendeu. - A cadeira rangeu quando ele se moveu para frente e para trs. - E possvel 
que ela o alugue por algum tempo.
- Parece bom. Onde eu posso encontr-la?
- Atravesse a avenida. No correio. - Ele se balanou por mais alguns segundos. - Diga a ela que encaminhei voc.
Gennie deu-lhe um sorriso rpido.
- Obrigada, sr. Fairfield.
O correio no era muito mais do que um balco e quatro paredes. Uma das paredes possua aberturas, onde uma mulher, num vestido de algodo escuro, separava a correspondncia 
com habilidade. Ela at mesmo parecia ser a viva Lawrence, pensou Gennie satisfeita, notando a trana circular na parte de trs da cabea da mulher.
- Com licena.
A mulher se virou, deu um sorriso rpido para Gennie antes de se aproximar do balco.
- Posso ajud-la?
- Espero que sim. Sra. Lawrence?
- Sim.
- O sr. Fairfield disse-me que talvez a senhora tivesse um chal para alugar.
A pequena boca foi franzida... o nico sinal de movimento facial.
- Tenho um chal para vender.
- Sim, ele explicou isso. - Gennie tentou sorrir de novo. Queria ficar na cidade, e encontrar um lugar a trs quilmetros do centro seria timo. - Pensei que talvez 
a senhora pudesse considerar alug-lo por algumas semanas. Posso lhe dar referncias, se quiser.
A sra. Lawrence estudou Gennie com olhos frios. E sua anlise era tudo o que necessitava como referncia.
- Por quanto tempo?
- Um ms, seis semanas.
Ela olhou para as mos de Gennie. Havia um anel de ouro de desenho intrincado, mas estava no dedo errado.
- Voc est sozinha?
- Sim. - Gennie sorriu de novo. - Eu no sou casada, sra. Lawrence. Estou viajando pela Nova Inglaterra h diversos meses, pintando. Gostaria de passar um tempo 
aqui em Windy Point.
- Pintando? - A viva lanou-lhe um longo olhar.
- Sim. 
A sra. Lawrence decidiu que gostava da aparncia de Gennie... e que ela era uma jovem que no seguia a vida com um objetivo. E um fato era um fato. Um chal vazio 
era uma coisa intil.
- O lugar est limpo e o encanamento funcionando. O telhado foi consertado dois anos atrs, mas o aquecedor  temperamental. H dois quartos, mas um deles est vazio.
Aquilo era doloroso para ela, percebeu Gennie, apesar da voz da viva estar firme e os olhos secos. Ela estava pensando em todos os anos que vivera l.
- No h vizinhos por perto, e o telefone foi retirado do local. Voc pode mandar instalar uma linha, se desejar.
- Parece perfeito, sra. Lawrence.
Alguma coisa no tom de Gennie fez a mulher pigarrear. Como se tivesse recebido compaixo e compreenso silenciosa. Aps um momento, deu um valor para o ms de aluguel 
muito mais razovel do que Gennie esperava. E como lhe era tpico, ela no hesitou, seguiu seus instintos.
- Vou ficar com o chal.
A primeira expresso de surpresa apareceu no rosto da viva.
- Sem ver o lugar?
- No preciso v-lo. - Com uma praticidade veloz que a sra. Lawrence admirou, Gennie tirou o talo de cheques da bolsa e escreveu o valor. - Talvez a senhora possa 
me dizer o que precisarei em relao a roupas de cama, toalhas e loua.
A sra. Lawrence pegou o cheque e o estudou.
- Genevive... - murmurou ela.
- Genvive - corrigiu Gennie, usando a pronncia francesa com fluncia. - Em homenagem  minha av. - Ela sorriu novamente, suavizando o semblante aristocrtico. 
- Todos me chamam de Gennie.
Uma hora depois, Gennie estava com as chaves do chal dentro da bolsa, duas caixas de provises no assento traseiro do carro, e tinha em mos as instrues de como 
chegar l. Havia percebido, embora fossem discretos, os olhares desconfiados das pessoas do vilarejo, e tentara no rir do olhar obviamente provocativo de um adolescente 
mirrado que tinha entrado na loja de miudezas quando ela estava escolhendo algumas louas.
J estava anoitecendo no momento em que ficou pronta para partir. As nuvens estavam baixas e pouco amigveis agora, e o vento ficara mais forte. Isso apenas aumentava 
o senso de aventura. Gennie pegou a estrada estreita e cheia de curvas que levava ao mar com uma excitao interna que prenunciava algo de novo no horizonte.
Seu amor por aventuras era uma coisa natural. Seu tatarav tinha sido um pirata... um malandro de praia assumido. O navio dele era rpido e forte, e ele sempre conseguira 
o que queria, sem jamais desanimar. Um dos tesouros de Gennie era o dirio de bordo dele. Phillippe Grandeau havia registrado suas contravenes com estilo e um 
senso de ironia a que Gennie nunca fora capaz de resistir. Talvez tivesse herdado uma forte caracterstica de praticidade dos aristocratas do lado de sua me, mas 
era honesta o bastante para saber que teria navegado com o pirata Phillippe e adorado cada minuto daquilo.
Enquanto seguia pela estrada curvilnea, ela absorvia o cenrio, to diferente de sua nativa Nova Orleans, que poderia ser outro planeta. Neste mundo rochoso exposto 
ao vento,  necessrio estar alerta o tempo inteiro. Erros no seriam facilmente perdoados ali.
Todavia, ela viu mais do que terra firme e pedras. Integridade. Sentia isso na terra que rivalizava continuamente com o mar. Uma terra que sabia que perdia centmetros 
a cada minuto, sculo aps sculo, mas no iria ceder. Apesar das sombras que a noite trazia, Gennie parou, impelida a colocar algumas de suas impresses no papel.
Havia uma pequena baa a alguns metros da estrada, bastante agitada agora que a tempestade se aproximava. Quando Gennie pegou seu bloco de desenho e um lpis, sentiu 
o cheiro de peixe morto e algas. O fato no a fez torcer o nariz, uma vez que entendia que aquilo fazia parte da estranha atrao que chamava os homens para o mar.
Naquele ponto, o solo era fino, e as pedras, lisas. Perto da estrada, havia diversas amoreiras carregadas abundantemente com as ltimas frutas do vero. Ela podia 
escutar o vento... um som distintamente feminino... suspirando e gemendo. No podia ver o mar ainda, mas sentia o seu aroma, assim como o gosto salgado que se espalhava.
Gennie no precisava dar satisfaes a ningum, no tinha um horrio para cumprir. Havia muito tempo, podia contar com sua liberdade, mas a solido era uma outra 
coisa. E conseguia senti-la, perto da pequena baa exposta ao vento, ao longo da estrada estreita e difcil. E agarrou-se  solido.
Quando estivesse de volta a Nova Orleans, uma cidade que amava, e absorvesse um daqueles dias cheios de vapor, que exalavam o cheiro do rio e da humanidade, poderia 
se lembrar de ter passado uma hora em um local solitrio e frio, onde talvez ela fosse a nica alma viva por quilmetros.
Relaxada, mas sentindo uma onda de excitao pulsando  flor da pele, ela desenhou, bem mais detalhadamente do que pretendera quando parar l. A falta de rudos 
humanos a agradava. Sim, definitivamente iria gostar de Windy Point e do pequeno chal.
Terminando, jogou o bloco de desenho dentro do carro. Estava quase escuro agora, caso contrrio, teria ficado mais tempo, passeando perto da beira da gua. Longos 
dias de pintura se estendiam  sua frente... e quem sabia o que mais o ms poderia trazer? Com um sorriso, virou a chave na ignio.
O motor no pegou. Ela tentou mais uma vez. E foi recompensada com um suspeito som metlico. O carro lhe dera algum trabalho em Bath, mas o mecnico de l. havia 
apertado alguns parafusos e consertado. Desde ento, o carro vinha andando como se fosse novo. Pensando na estrada irregular, Gennie concluiu que o que tinha sido 
apertado poderia ter facilmente afrouxado. Com um suspiro de irritao, saiu do carro e abriu o capo.
Mesmo se tivesse as ferramentas apropriadas, o que, com certeza, no eram a chave de fendas e a lanterna que levava no porta-luvas, dificilmente saberia o que fazer 
com elas. Fechando o capo de novo, olhou para os dois lados da estrada. Deserta. O nico som era o do vento. Estava quase escuro, e, pelos seus clculos, ela estava 
no meio do caminho entre a cidade e o chal. Se voltasse a p, algum poderia lhe dar uma carona, mas, se fosse adiante, provavelmente chegaria ao chal dentro de 
15 minutos. Dando de ombros, pegou a lanterna no porta-luvas, e fez o que em geral fazia. Seguiu em frente.
Precisou de luz quase imediatamente. A estrada no era melhor para andar do que para dirigir, mas deveria ter cuidado e continuar, a menos que quisesse acabar perdida, 
ou mergulhada na baa. Os sulcos eram mais profundos agora, as pedras eram altas naquele ponto, fazendo-a perguntar-se com que freqncia algum percorria mesmo 
aquele caminho.
A noite caiu rapidamente, mas no em silncio. O vento forte batia em seus cabelos, assobiando baixinho em tom de lamento. Agora havia um pouco de neblina a seus 
ps, e ela esperava que diminusse pelo menos at que estivesse dentro do chal. Ento, esqueceu-se da neblina quando a tempestade chegou, com toda fria.
Sob outras circunstncias, Gennie no teria se importado com a chuva, mas mesmo seu senso de aventura estava desaparecendo na escurido assustadora, onde sua lanterna 
produzia um brilho pattico atravs da chuva pesada. Aborrecimento foi sua primeira reao, enquanto continuava andando com dificuldade ao longo da estrada, os tnis 
totalmente encharcados. Gradualmente, o aborrecimento se transformou em desconforto.
Um flash de luz iluminou um grupo de pedras e arbustos atrofiados, lanando sombras assustadoras. Mesmo uma mulher que possusse a coragem de um andarilho se sentiria 
amedrontada naquela situao. Gennie teve vises de duendes malvados saindo do meio da escurido. Cantarolando de forma desafinada para espantar o pnico, concentrou-se 
no feixe de luz da lanterna.
Estou to molhada, disse a si mesma, tirando os cabelos ensopados dos olhos. Isso no vai me matar. Ela deu uma outra olhada para a lateral da estrada. No era uma 
escurido como a do campo, concluiu. E onde estava o chal? Certamente, j tinha andado mais de um quilmetro e meio at agora. Desanimada, girou a lanterna em um 
crculo. Um trovo estourou sobre sua cabea enquanto a chuva batia em seu rosto. Seria necessrio um pequeno milagre para encontrar um chal desabitado e escuro 
apenas com o fraco brilho de uma lanterna domstica.
Tola, criticou a si mesma, enquanto cruzava os braos apertados sobre o peito e tentava pensar. Era sempre tolice seguir em direo ao desconhecido quando voc tinha 
uma escolha. Entretanto, ela sempre fazia isso. Parecia no haver outra sada, seno voltar para o carro e esperar a tempestade passar. A perspectiva de passar a 
noite, toda molhada, dentro de um carro no era agradvel, mas no podia ficar vagando, perdida no meio da tempestade. E havia um pacote de bolachas no carro, lembrou-se, 
enquanto continuava mexendo a lanterna de um lado para o outro, ainda na esperana de avistar alguma coisa. Com um suspiro, deu uma ltima olhada para o fim da estrada.
Ento viu. Gennie piscou para tirar a chuva dos olhos e olhou de novo. Uma luz. Certamente era uma luz l em cima. Uma luz significava abrigo, calor, companhia. 
Sem hesitar, Gennie seguiu em frente.
Precisou andar mais de um quilmetro outra vez, enquanto a tempestade e a estrada pioravam. Os raios brilhavam no cu, emitindo uma luz misteriosa e arroxeada, fazendo 
o cu escurecer mais ainda quando desapareciam. Para evitar tropear, ela foi forada a andar devagar e manter os olhos no cho. Comeou a ter certeza de que nunca 
mais ficaria seca ou aquecida de novo. A luz  distncia continuava firme e real, ajudando-a a resistir a ficar olhando por sobre o ombro com muita freqncia.
Podia ouvir o barulho do mar agora, batendo violentamente contra pedras e areia. Em um determinado momento, com a luz de um raio, ela pensou ter visto a crista de 
ondas furiosas, brancas e turbulentas a distncia. Mesmo a chuva possua o aroma do mar agora... um cheiro furioso e vingativo. Ela no poderia se permitir ter medo, 
embora seu corao estivesse batendo descompassado por uma caminhada de mais de trs quilmetros. Se admitisse que estava apavorada, cederia  vontade de correr 
e acabaria em um penhasco, um canal ou num abismo insondvel.
A sensao de deslocamento era to intensa, que poderia simplesmente ter se sentado na estrada e chorado, no fosse pelo firme feixe de luz enviando a promessa de 
segurana.
Quando Gennie viu a silhueta da construo atrs da cortina de chuva, quase riu alto. Um farol... uma daquelas estruturas vigorosas que provavam que os homens possuam 
algum senso de altrusmo. A luz direcionada no tinha vindo das altas lentes giratrias, mas de uma janela. Gennie no questionou, e acelerou o passo o mximo que 
podia ousar. Havia algum l... um velho enrugado, talvez, um antigo marinheiro. Ele teria uma garrafa de rum e falaria de modo rude e hostil. Quando um novo raio 
brilhou contra o cu, Gennie percebeu que j o adorava.
A estrutura lhe pareceu grande... um smbolo de segurana para algum perdida no meio da tempestade. Parecia incrivelmente branca sob a luz da lanterna quando ela 
procurou na base por uma porta. A janela que estava iluminada ficava no alto, no terceiro piso do lado pelo qual Gennie se aproximou.
Ela achou uma porta de madeira rstica e bateu. A violncia da tempestade engoliu o som e o dispersou. Mais perto do pnico do que queria admitir, Gennie bateu de 
novo. Podia ter andado tanto, chegado to perto, e no ser ouvida? O senhor idoso estava l, pensou enquanto batia  porta, provavelmente assobiando e cortando lenha, 
talvez passando a noite afogando saudades em uma garrafa.
Desesperada, Gennie encostou-se contra a porta, sentindo a madeira molhada no rosto, assim como na lateral do punho, enquanto continuava batendo. Quando a porta 
se abriu, seu corpo foi lanado para frente, fazendo-a perder o equilbrio. Seus braos foram amparados com fora no momento em que ela caiu.
- Graas a Deus! - exclamou ela. - Tive medo que voc no me ouvisse. - Com uma das mos, tirou os cabelos do rosto e olhou para o homem que considerava seu salvador.
Ele no era velho. Nem enrugado. Em vez disso, era jovem e magro, mas o rosto estreito e bronzeado de ngulos fortes podia ser de um homem que fazia alguma atividade 
martima... na mesma linha do tatarav de Gennie. Os cabelos eram pretos e espessos como os dela, com aquele efeito desalinhado que um homem conseguia se ficasse 
parado no convs de um navio. A boca era carnuda e incrivelmente sensual, o nariz, um pouco aristocrtico no rosto rstico. Os olhos eram de um castanho muito profundo 
sob sobrancelhas escuras. Olhos que no eram amigveis, achou Gennie, nem mesmo curiosos. Expressavam puro aborrecimento.
- Como voc chegou aqui?
No eram as boas-vindas que ela esperava, mas a viagem atravs da tempestade a tinha deixado um pouco confusa.
- Vim andando - disse ela.
- Andando? - repetiu ele. - Assim? De onde?
- Alguns quilmetros para trs... meu carro enguiou. - Ela comeou a tremer, ou de frio, ou por reao nervosa. Ele ainda no a liberara, e Gennie no tinha se 
recuperado o bastante para exigir isso.
- O que voc estava fazendo dirigindo numa noite como essa?
- Eu... eu aluguei o chal da sra. Lawrence. Meu carro enguiou, ento devo ter perdido a entrada no escuro. Eu vi a sua luz. - Ela respirou fundo e percebeu abruptamente 
que suas pernas estavam tremendo. - Posso me sentar?
Ele a olhou por mais um minuto, ento, com um murmrio de resmungo, empurrou-a na direo de um sof. Gennie sentou-se, inclinou a cabea para trs e tentou se recompor.
E o que deveria fazer com ela?, perguntou-se Grant, enquanto a estudava. No momento, a mulher parecia que desmaiaria se respirasse mais fundo. Os cabelos estavam 
emplastrados na cabea, levemente encaracolados e pretos como a noite. O rosto no era fino ou delicado, mas lindo ao estilo da realeza medieval... ossos longos, 
feies acentuadas. Uma princesa celta ou gaulesa com um pequeno corpo atltico, que ele podia ver claramente, uma vez que as roupas estavam coladas a ele.
Grant pensou que o rosto e o corpo poderiam ser bastante atraentes em outras circunstncias, mas o que mais o impressionara, quando ela o fitara, havia sido os olhos. 
Verdes da cor do mar, enormes, e levemente amendoados. Olhos de sereia, pensou. Por um segundo, ou talvez por meio segundo, Grant imaginou se ela poderia ser uma 
criatura mstica que fora jogada na praia durante a tempestade.
A voz dela era suave e fluente, e embora ele reconhecesse o sotaque do sul, parecia quase uma lngua estrangeira, considerando a cadncia do litoral do Maine a que 
estava acostumado. No era um homem que gostava de ter uma magnlia desabrochada na porta de sua casa. Quando ela abriu os olhos e o fitou, Grant desejou fervorosamente 
que nunca tivesse aberto a porta.
- Desculpe-me - comeou Gennie. - No fui muito coerente, fui? No fiquei l fora por mais de uma hora, mas pareceram dias. Sou Gennie.
 Grant enfiou os polegares nos bolsos da cala jeans e franziu o cenho para ela.
- Campbell, Grant Campbell.
Uma vez que ele no disse mais nada e continuou com o cenho franzido, Gennie fez o melhor que pde para recomear:
- Senhor Campbell, no posso lhe dizer o quanto fiquei aliviada quando vi a sua luz.
Ele a olhou por mais um momento, pensando brevemente que ela lhe parecia familiar.
- A sada para o chal de Lawrence fica quase dois quilmetros para trs.
Gennie arqueou uma sobrancelha com o tom. Ele realmente esperava que ela sasse na tempestade de novo e andasse, at achar o chal? Tinha orgulho de ser calma e 
bem-humorada para uma artista, mas estava molhada e com frio, e o semblante pouco amistoso de Grant a irritou.
- Olhe, eu vou pagar por uma xcara de caf e o uso deste... - ela deu um tapinha no sof e uma leve nuvem de poeira levantou no ar -, desta coisa pela noite.
- Eu no recebo hspedes.
- E voc provavelmente chutaria um cachorro doente que aparecesse no seu caminho - acrescentou ela no mesmo tom. - Mas no vou sair de novo esta noite, sr. Campbell, 
e eu tambm no o aconselharia a tentar me pr para fora.
Aquilo o divertiu, embora o humor no fosse revelado em sua expresso. Nem ele corrigiu a suposio de que pretendera mand-la de volta para a tempestade. A declarao 
tinha tentado simplesmente revelar seu desprazer e o fato de que no aceitaria dinheiro. Se no tivesse ficado aborrecido, poderia ter apreciado o fato que, apesar 
de ensopada e levemente plida, ela no perdia a pose.
Sem uma palavra, ele atravessou a sala e abaixou-se para inspecionar um gabinete de madeira entalhada. Gennie olhou para frente, ouvindo o que lhe pareceu ser o 
som de lquido em um copo.
- Voc precisa mais de um usque do que de um caf no momento - disse Grant, colocando o copo embaixo do nariz dela.
- Obrigada - murmurou Gennie no tom gelado que as mulheres sulistas eram campes. Ela no deu um golinho delicado, mas virou o lquido de uma s vez, permitindo 
que o calor trouxesse seu corpo de volta ao normal. Ento, devolveu o copo vazio para ale.
Grant olhou para o fundo do copo e quase sorriu.
- Quer mais um?
- No, obrigada - replicou ela, de modo frio e arrogante.
Eu devia ser colocado no meu lugar, pensou ele com ironia. Princesa contra campons. Considerando suas opes, Grant comeou a andar de um lado para o outro. Atravs 
das paredes espessas do farol, a chuva e o vento podiam ser ouvidos. Mesmo o curto percurso at a casa de Lawrence seria selvagem e terrvel, se no perigoso. Seria 
mais fcil deix-la dormir onde estava do que lev-la de carro at o chal. Com um murmrio que era mais de cuidado do que de desgosto, ele virou-se.
- Bem, venha - ordenou ele sem olhar para trs. - Voc no pode ficar sentada a tremendo a noite inteira.
Gennie considerou... considerou seriamente... jogar sua bolsa nele.
A escadaria a encantou. Ela quase comentou isso antes de deter-se. Era circular e de ferro, e muito, muito longa. Grant parou no segundo piso, o que Gennie calculou 
que era uns bons seis metros acima do primeiro. Ele movia-se como um gato no escuro, enquanto ela segurava no corrimo e esperava que ele alcanasse o interruptor 
de luz.
Uma iluminao fraca e muitas sombras foram lanadas sobre o piso de madeira. Ele passou por uma porta  direita, onde, ela descobriu, era o quarto de Grant... pequeno, 
no particularmente organizado, mas com uma cama de lato antiga pela qual Gennie se apaixonou imediatamente. Grant foi at uma velha cmoda, que poderia ficar linda 
se reformada. Murmurando qualquer coisa para si mesmo, vasculhou e achou um robe atoalhado azul-claro.
- O banheiro fica do outro lado do corredor - disse ele, colocando o robe nos braos de Gennie antes de deix-la sozinha.
- Muito obrigada - murmurou ela, ouvindo os passos dele j na escada. Com o queixo erguido e os olhos brilhando, ela atravessou o corredor e descobriu-se encantada 
mais uma vez.
O banheiro era de porcelana branca, com peas fixas de lato, as quais ele obviamente polia. O cmodo era um pouco maior do que um closet, mas, em algum ponto de 
sua histria, tinha sido revestido de cedro e laqueado. Havia uma pia alta e um pequeno espelho. A luz ficava acima dela, acionada por uma cordinha.
Tirando as roupas molhadas, Gennie entrou na banheira e fechou a cortina circular. Em um instante, tinha gua quente caindo do chuveiro e aquecendo-lhe o corpo. 
Achou que o paraso no podia ser mais doce, mesmo que fosse guardado pelo demnio.
Na cozinha, Grant fez um bule de caf fresco. Ento, pensando melhor, abriu uma lata de sopa. Supunha que deveria aliment-la. Ali, na parte de trs da torre, o 
som do mar era mais alto. Era um som com o qual estava acostumado... no tanto que deixasse de ouvi-lo, mas geralmente o antecipava. Se o mar estava cruel e ameaador 
como naquela noite, Grant tomava conhecimento, e ento ia cuidar de seus negcios.
E teria cuidado de seus negcios se no tivesse encontrado uma mulher ensopada do lado de fora de sua porta. Agora, calculava que teria de fazer hora extra naquela 
noite para compensar o tempo que ela estava lhe custando. Superando a primeira onda de irritao, Grant admitiu que no tinha sada. Daria a ela a hospitalidade 
bsica de uma refeio quente e um teto sobre a cabea, e isso seria tudo.
Um sorriso iluminou brevemente suas feies quando se lembrou da maneira como ela o olhara no momento em que se sentara pingando no sof. A moa no era ingnua, 
pensou. Grant tinha pouca pacincia com mulheres ingnuas. Quando queria companhia, escolhia pessoas que falavam o que pensavam e estavam dispostas a defender seu 
ponto de vista. De certa forma, era por isso que havia sado de sua rotina auto-imposta.
Fazia menos de uma semana desde seu retorno de Hyannis Port, onde dera em casamento a sua irm, Shelby, a Alan MacGregor. E descobrira, desconfortavelmente, que 
a cerimnia o tornara sentimental. No tinha sido difcil para os MacGregors convenc-lo a ficar por mais alguns dias. Gostara deles, do tempestuoso velho Daniel 
em particular, e Grant no era um homem que se apegava as pessoas facilmente. Desde criana se protegia, mas os MacGregors formavam um grupo irresistvel. E de alguma 
maneira, ele se sentira enfraquecido pelo casamento cm si.
Entregar sua irm ao noivo, algo que seria tarefa de seu pai, se estivesse vivo, lhe causara um misto de tanto prazer e dor que Grant ficara grato por ter a distrao 
de alguns dias entre os MacGregors antes de retornar a Windy Point... mesmo tendo sido provocado pela intromisso no muito sutil de Daniel em sua vida pessoal. 
Ele se divertira a ponto de aceitar um convite aberto para retornar. Uma visita que tinha a inteno de fazer, embora tal deciso surpreendesse a ele mesmo.
Por agora, havia trabalho a ser feito, mas resignou-se, decidindo aps rpida reflexo que uma pequena interrupo no causaria danos irreparveis. Contanto que 
fosse de fato pequena. A moa podia passar a noite no quarto de hspedes, ento partiria pela manh. Grant estava quase de bom humor no momento em que a sopa comeou 
a ferver.
Ele a ouviu entrar na cozinha, embora o barulho da chuva continuasse alto. Virou-se, preparado para fazer um comentrio moderadamente amigvel, quando a viso dela 
em seu robe o desconcertou por completo.
Nossa, ela era linda! Linda demais para sua paz interior. O robe era grande no pequeno corpo, embora ela tivesse enrolado as mangas at quase os cotovelos. O azul-claro 
do tecido atoalhado acentuava-lhe o tom dourado da pele. Ela penteara os cabelos para trs, deixando o rosto limpo, exceto por alguns cachinhos que saam perto das 
tmporas. Com os olhos verdes-claros e clios escuros, fitou-o de um jeito que a deixava mais do que nunca parecida com a sereia que Grant imaginava que ela fosse.
- Sente-se - ordenou ele, tremendamente irritado pela onda de desejo nada bem-vinda. - Voc pode tomar uma sopa.
Gennie parou por um instante, os olhos percorrendo as costas largas dele, antes de se sentar  mesa de madeira rstica.
- Bem, obrigada. - A resposta de Grant foi um murmrio ininteligvel, enquanto colocava o prato de sopa diante dela. Gennie pegou a colher, determinada a no deixar 
o orgulho interferir em sua fome. Apesar de surpresa, no falou nada quando ele se sentou  sua frente, com o prprio prato de sopa.
A cozinha era pequena, bem iluminada, e muito, muito silenciosa. Os nicos sons vinham do vento e da gua incansveis do lado de fora das paredes espessas. No comeo, 
Gennie comeu com os olhos fixando teimosamente o prato, mas quando a fome insuportvel passou, comeou a olhar o cmodo ao redor. Pequeno, com certeza, mas sem espao 
desperdiado. Armrios de carvalho bruto rodeavam as paredes, dando um espao generoso 1 para mantimentos e utenslios. Os balces tambm eram -de madeira, porm 
lixados e polidos. Ela notou a presena das modernas convenincias de uma cafeteira e uma torradeira.
Ele parecia cuidar mais daquele cmodo do que do resto da casa. No havia pratos na pia, nem farelos ou sujeira. E os nicos aromas eram os da sopa e do caf. Os 
eletrodomsticos eram velhos e um pouco desgastados, no entanto, no estavam sujos.
Com a fome saciada, Gennie percebeu que sua raiva tambm passara. Tinha, afinal de contas, invadido a privacidade dele. Nem todo mundo oferecia hospitalidade a uma 
estranha com sorrisos e braos abertos. Grant no fora simptico, mas no lhe fechara a porta. Alm disso, lhe dera uma roupa seca e comida, acrescentou ela, tentando 
superar o orgulho.
Franzindo o cenho de leve, passou os olhos pela toalha da mesa, at pous-los nas mos dele! Meu Deus, pensou abalada, que mos maravilhosas! Os pulsos eram estreitos, 
parecendo conter uma fora graciosa e muita habilidade. As costas das mos eram profundamente bronzeadas, longas e magras, assim como os dedos. As unhas eram curtas 
e retas. Msculas foi a primeira palavra que lhe veio  mente, seguida de delicadas. Gennie podia visualizar aquelas mos segurando uma flauta com a mesma facilidade 
que podia v-las empunhando uma espada.
Por um momento, esqueceu o resto do homem, to fascinada ficara pelas mos e tambm pela prpria reao a elas. Sentiu a emoo, mas no a reprimiu. Tinha certeza 
de que qualquer mulher que reparasse naquelas mos romnticas e maravilhosas automaticamente imaginaria como seria a sensao delas em sua pele. Mos impacientes, 
hbeis. O tipo de mos que tanto podiam rasgar as roupas de uma mulher, quanto tir-las gentilmente antes que ela tivesse idia do que estava acontecendo.
Quando Gennie reconheceu o sentimento de excitao que lhe percorria a coluna, conteve-se. O que estava pensando? Nem mesmo sua imaginao podia seguir naquela direo. 
Um pouco zonza pela sensao que se recusava a desaparecer, ergueu os olhos para o rosto dele.
Grant a estava observando. De maneira fria, como um cientista observava um espcime em estudo. No momento em que ela parar de comer to subitamente, ele vira os 
olhos verdes irem para as suas mos e permanecerem ali, com os clios baixos, a fim de esconder-lhe a expresso. Grant tinha esperado, sabendo que, mais cedo ou 
mais tarde, ela olharia para cima. Esperara raiva ou simples educao formal. O semblante de choque no rosto de Gennie o intrigou. Mas foi sua vulnerabilidade que 
o fez desej-la quase com desespero. Mesmo quando ela entrara na casa, molhada e perdida, no tinha parecido indefesa. Perguntou-se o que ela faria se ele apenas 
se levantasse, ajudasse-a a fazer o mesmo e a levasse para sua cama. Perguntou-se o que estava lhe acontecendo.
Eles se entreolharam, cada um abalado por sentimentos indesejados, enquanto a chuva e o vento batiam contra as paredes, separando-os de qualquer coisa civilizada. 
Grant pensou novamente que ela parecia uma sereia. Gennie pensou que ele a lembrava de um ancestral da idade da pedra.
Os ps da cadeira de Grant arranharam no cho quando ele a afastou da mesa. Gennie congelou.
- H espao no segundo piso com uma cama. - Os olhos dele estavam duros e escuros, com uma raiva contida... o estmago se contorcendo com o desejo reprimido.
Gennie descobriu que as palmas de suas mos estavam midas de nervoso e ficou furiosa. Melhor ficar furiosa com ele.
- O sof aqui embaixo est timo - murmurou ela com frieza.
Ele deu de ombros.
- Fique  vontade. - Sem mais uma palavra, ele saiu andando. Gennie esperou at ouvir-lhe os passos na escada antes de pressionar uma das mos sobre o estmago. 
Da prxima vez que visse uma luz no escuro, disse a si mesma, correria na direo oposta.



Dois

Grant detestava ser interrompido. Tolerava ser amaldioado, ameaado ou desprezado, mas nunca tolerara interrupes. Nunca lhe importara particularmente ser admirado, 
contanto que fosse deixado em paz para fazer o que escolhesse. Tinha crescido vendo seu pai perseguir a boa vontade dos outros... um aspecto necessrio  carreira 
de um senador que escolhera se candidatar ao posto mais alto no pas.
Mesmo quando criana, Grant sabia que seu pai era um homem que provocava sentimentos extremos. Era amado por alguns, temido ou, at mesmo, odiado por outros, e, 
numa campanha poltica, podia inspirar muita lealdade. Tinha sido um homem que abandonava as prprias necessidades para fazer favores a amigos ou a estranhos. Seus 
ideais eram altos, a memria aguada, e a facilidade com as palavras, uma caracterstica admirvel. O senador Robert Campbell fora um homem que sentia que seu dever 
era tornar-se acessvel ao povo. At o momento em que algum o atingira com trs balas.
Grant no havia apenas culpado o homem que segurara a arma, ou a carreira poltica, como sua irm fizera.De seu prprio jeito, Grant culpara o pai. Robert Campbell 
entregara-se para o mundo, e isso o matara. Talvez por esse motivo, Grant no se entregava a ningum.
Ele no considerava o farol um refugio. Era simplesmente o seu lugar. Apreciava a distncia dos outros que o lugar lhe proporcionava, e saboreava a crueldade e a 
harmonia dos elementos da natureza. A solido ali era necessria para o seu trabalho e para si mesmo. Necessitava de horas, mesmo de dias de isolamento. Pensamentos 
no interrompidos eram algo que considerava um direito seu. Ningum, absolutamente ningum, tinha permisso de interferir nisso.
Na noite anterior, estava trabalhando em seu projeto atual quando a chegada inesperada de Gennie o forara a parar. Grant era perfeitamente capaz de ignorar uma 
batida  porta, mas, uma vez que sua linha de raciocnio fora interrompida, tinha atendido... com vontade de estrangular o intruso. Gennie podia se considerar sortuda 
por ele ter sido apenas um pouco rude. Em certa ocasio, uma turista tivera a infelicidade de enfrentar a ira de Grant, e ameaara jog-lo no oceano.
Uma vez que Grant levou quase uma hora para voltar a se concentrar no trabalho, depois de ter deixado Gennie na cozinha, ficou acordado a maior parte da noite. Interrupes, 
intruses. Eram coisas intolerveis. Pensara assim na noite anterior, e agora, quando o sol penetrava pela janela e batera nos ps da cama, pensava novamente.
Grogue por ter dormido no mximo quatro horas, Grant ouviu uma voz vindo pelo vo da escada. Ela estava cantando uma msica agradvel, do tipo que voc ouvia todas 
as vezes que ligava o rdio... algo que Grant fazia todos os dias de sua vida, to religiosamente quanto ligava a televiso e lia uma dzia de jornais. Ela cantava 
bem, uma voz baixa e afinada que transformava as frases romnticas em alguma coisa sedutora. Porm, ela j tinha interrompido seu trabalho na noite anterior, e agora 
estava interrompendo seu sono.
Com um travesseiro sobre a cabea, ele podia bloquear o som. Mas descobriu que no era capaz de bloquear sua reao quilo. Era muito mais fcil no escuro, com o 
lenol quente sobre o peito, imagin-la. Praguejando, Grant jogou o travesseiro de lado e saiu da cama para vestir uma bermuda. Meio dormindo, meio excitado, desceu 
a escada.
A manta de l que ela usara na noite anterior j estava dobrada sobre o sof. Irritado, Grant seguiu a voz de Gennie que vinha da cozinha.
Ela ainda estava de robe, descala, com os cabelos soltos batendo no meio das costas. Ele gostaria de toc-los para ver se as mechas avermelhadas que pareciam brilhar 
nos cabelos negros eram reais ou apenas um truque da luz.
O bacon estalava numa frigideira sobre o fogo, e o cheiro de caf era como o paraso.
- O que voc est fazendo?
Gennie virou-se segurando um garfo em uma das mos, enquanto a outra foi para o corao em reflexo ao susto. Apesar do sof desconfortvel, tinha acordado bem-humorada... 
e faminta. O sol estava brilhando, gaivotas cantavam, e a geladeira encontrava-se generosamente estocada. Havia decidido que Grant Campbell merecia uma outra chance. 
Portanto, fora para a cozinha, prometendo a si mesma que seria amigvel a qualquer custo.
Ele estava parado diante dela agora, seminu e obviamente zangado, os cabelos desalinhados e uma barba despontando no maxilar. Gennie deu-lhe um sorriso determinado. 
- Estou preparando o caf da manh. Achei que era o mnimo que eu podia fazer, em agradecimento por uma noite de abrigo.
Mais uma vez, Grant teve a sensao de que havia algo familiar nela. E franziu o cenho.
- No gosto que ningum mexa nas minhas coisas.
Gennie abriu a boca, ento voltou a fech-la antes que falasse alguma coisa perversa.
- A nica coisa que quebrei foram ovos - disse ela suavemente, enquanto indicava a vasilha onde pretendia bater os ovos. - Por que voc no faz um favor a ns dois? 
Pegue uma xcara de caf, sente-se e cale-se. - Com uma inclinao quase imperceptvel da cabea, ela lhe deu as costas.
As sobrancelhas de Grant se arquearam, mais de admirao do que de surpresa. Nem todo mundo podia mand-lo calar-se num tom de voz derretido e obter sucesso. Teve 
a impresso de que no era a primeira pessoa para quem ela dava ordens. Com algo perigosamente perto de um sorriso, ele pegou uma caneca e fez exatamente o que ela 
falou.
Gennie no cantou mais enquanto terminava de preparar a refeio, mas ele teve a impresso que ela teria mostrado mau humor se no quisesse que Grant pensasse que 
no a afetava. Na verdade, ele tinha certeza de que havia um murmrio de palavras raivosas dentro da cabea dela.
Logo que deu um gole no caf, Grant despertou completamente, assim como sentiu fome. Pela primeira vez, estava sentado na pequena cozinha, enquanto uma mulher lhe 
preparava o caf da manh. Nada que quisesse transformar em hbito, pensou observando-a. Mas at que no era uma experincia desagradvel.
Ainda em silncio, Gennie colocou os pratos na mesa, seguidos pela travessa de ovos com bacon.
- Por que voc estava indo para o velho chal de Lawrence? - perguntou ele, servindo-se.
Gennie o fitou com olhos estreitos. Ento, agora teremos uma conversa educada, pensou e quase cerrou os dentes. 
- Aluguei o chal - respondeu brevemente, pondo sal nos ovos.
- Pensei que o chal da viva Lawrence estivesse  venda.
- Est.
- Voc est um pouco atrasada para alugar um chal na praia.  baixa temporada - comentou Grant, saboreando os ovos.
Gennie deu de ombros, enquanto se concentrava na refeio.
- No sou turista.
- No? - Ele lhe lanou um olhar longo e firme, que ela achou tanto hbil quanto intrusivo. - Louisiana, certo? Nova Orleans, Baton Rouge?
- Nova Orleans. - Gennie esqueceu a irritao apenas o bastante para estud-lo. - Voc tambm no  daqui?
- No - replicou ele, sem adicionar mais nada.
Oh, no, pensou Gennie. Ele no ia iniciar uma conversa e depois parar quando lhe conviesse!
- Por que um farol? - persistiu ela. - No est funcionando, est? Foi a luz da janela que segui ontem  noite, no o farol.
- A Guarda Costeira cuida desse trecho com radar. Esta estao no  usada h dez anos. Voc ficou sem gasolina? - perguntou ele, antes que ela se desse conta que 
Grant no respondera  sua pergunta.
- No. Parei no acostamento da estrada por alguns minutos. Ento, quando tentei ligar o carro de novo, ele apenas fez rudos estranhos e no pegou mais. - Ela mordeu 
uma fatia de bacon. - Acho que precisarei chamar um guincho na cidade.
Grant fez um som que podia ser uma risada.
- Talvez consiga um guincho em Bayside, mas no vai achar um em Windy Point. Vou dar uma olhada no seu carro - disse ele quando terminou o caf. - Se eu no conseguir 
resolver, voc pode chamar Buck Gates na cidade para ir l e fazer o carro pegar. Ela o estudou por quase trinta segundos.
- Obrigada... murmurou Gennie cautelosamente. Grant levantou-se e levou seu prato para a pia.
- V se vestir - ordenou. - Tenho trabalho a fazer. - Pela segunda vez, deixou Gennie sozinha na cozinha.
Por uma nica vez, pensou ela, pondo o seu prato em cima do dele, gostaria de dar a ltima palavra. Apertando o cinto do robe de Grant, saiu da cozinha. Sim, iria 
se vestir, disse a si mesma. E faria isso com rapidez, antes que ele pudesse mudar de idia. Rude ou no, ela aceitaria a oferta de ajuda. Depois disso, Grant Campbell 
podia ir para o inferno se quisesse.
No havia sinal dele no segundo andar quando ela entrou no banheiro para se vestir. Gennie tirou o robe e pendurou-o num gancho atrs da porta. Suas roupas estavam 
secas, e pensou que poderia ignorar o fato de que os tnis ainda estavam frios e midos. Com sorte, chegaria ao chal dentro de uma hora. Isso lhe daria o resto 
da tarde para desenhar. A idia levantou-lhe o nimo quando voltou para o andar de baixo. Novamente, no havia sinal de Grant. Aps uma pequena luta com a porta 
pesada, Gennie saiu da casa.
Estava to claro que ela quase perdeu o flego. A tempestade que visitara o lugar na noite anterior apenas limpara o tempo. Os lugares na Terra onde o ar realmente 
tinha vida eram, ela sabia, e aquele era um deles. O ci estava azul e sem nuvens, com o sol brilhando maravilhosamente. Havia um gramado na lateral do farol, to 
selvagem quanto as flores espalhadas sobre ele. Diversas plantas oscilavam com a brisa do fim do vero; no entanto, o sol estava quente.
Ela podia ver a estrada pela qual viajara na noite anterior, mas ficou surpresa pela casa de fazenda de trs andares a poucos metros de distncia. Pela camada de 
poeira nas janelas e o gramado na altura da cintura, era bvio que estava deserta, mas no dilapidada. A casa devia ter pertencido a uma famlia, quando o farol 
ainda estava em funcionamento, concluiu Gennie. Teria havido um jardim, e talvez algumas galinhas. E noites em que o vento uivava e as ondas batiam com fora, com 
o dono em seu posto no farol, enquanto a famlia ficava sentada e ouvia os sons da natureza.
A pintura branca estava gasta, mas as persianas continuavam l. Ela achou que a propriedade estava esperando para ser habitada novamente.
Havia uma pequena picape perto da base da ladeira, que ela presumiu ser de Grant. Porque ele no estava em lugar algum  vista, Gennie rodeou a lateral do farol, 
respondendo ao chamado do mar.
Dessa vez, realmente perdeu o flego. Podia ver quilmetros da linha costeira irregular, sobre as minsculas ilhas, e o horizonte  distncia. Havia barcos na gua, 
pequenos barcos slidos de pescadores de lagostas. Sabia que no veria artesanato de cromo ou de mogno ali. Aquele era um lugar de propsito, no de prazer ocioso. 
Fora, durabilidade. Foi isso que sentiu quando olhou para a gua azul esverdeada com suas ondas brancas espumantes batendo contra as pedras.
Algas flutuavam na superfcie, se reunindo e se espalhando com o movimento da gua. Tudo ali tinha o jeito do mar. As pedras eram alisadas por ele, e a cordilheira 
de pedras erguia-se, mostrando cores que iam do cinza ao verde, com alguns tons alaranjados. Conchas enfeitavam a areia, jogadas para fora do mar para serem pisadas 
por ps descuidados. O cheiro de sal e peixe era forte. Ela podia ouvir o toque dos sinos, o movimento distante dos barcos de lagosta, e os gritos desolados das 
gaivotas. No havia nada, nenhum som, nenhuma viso, nenhum aroma, que viesse de algum outro lugar que no o mar infinito.
Gennie sentiu isso... o chamado que havia atrado homens e mulheres desde o comeo dos tempos. Era possvel que a humanidade tivesse verdadeiramente nascido ali, 
e talvez por esse motivo, as pessoas fossem to facilmente levadas de volta quele lugar. Ela se sentou no peitoril acima da estreita praia de pedras e perdeu-se 
em divagaes. Perigo, desafio, paz. Sentiu tudo isso e um grande contentamento a dominou.
No ouviu Grant se aproximando. Estava muito concentrada no mar para senti-lo atrs de si, embora ele a estivesse observando havia algum tempo. Ela parecia pertencer 
quele lugar, pensou ele, e poderia t-la amaldioado por isso. Aquele terreno era dele, o pequeno pedao de terra isolada que pairava sobre o mar.
No podia alegar que possua o oceano, nem mesmo quando este subia ao meio-dia para lamber a margem de sua terra, mas aquela fatia de pedras e grama selvagem lhe 
pertencia, exclusivamente. Gennie no tinha o direito de parecer pertencer ao lugar... de faz-lo questionar-se se a rocha seria apenas sua outra vez.
O vento colava as roupas dela ao corpo, como a chuva fizera na noite anterior, acentuando o corpo atltico e esbelto, com suas curvas femininas. Os cabelos soltos 
danavam freneticamente, enquanto o sol lanava aqueles toques de fogo nos fios pretos que ele tanto desejava tocar. Antes de perceber o que estava fazendo, Grant 
segurou-lhe o brao e virou-a para encar-lo.
No havia surpresa no rosto dela quando o olhou, mas excitao... e uma excitao que ele sabia que vinha do mar.
- Ontem  noite, fiquei me perguntando por que algum escolheria viver aqui. - Ela tirou os cabelos dos olhos. - Agora, pergunto-me como algum vive em qualquer 
outro lugar. - Gennie apontou para um pequeno barco de pesca no fim do per. - E seu?
Grant continuou olhando-a, percebendo de repente que quase a puxara para seus braos e a beijara... Chegara to perto disso que quase podia sentir o gosto dela em 
sua boca. Com um esforo, virou a cabea na direo que ela apontava.
- Sim,  meu.
- Estou impedindo voc de trabalhar. - Pela primeira vez, Gennie lhe deu o simples presente de um sorriso sincero. - Suponho que voc teria acordado mais cedo se 
eu no o tivesse atrapalhado.
Com um murmrio ininteligvel de resposta, Grant comeou a conduzi-la para a picape. Suspirando, Gennie desistiu de sua promessa matinal de ser amigvel.
- Sr. Campbell, precisa ser sempre to desagradvel? 
Grant parou apenas o bastante para lanar-lhe um olhar... um que Gennie jurava que continha uma ironia divertida. 
- Sim.
- Voc faz isso muito bem - disse ela quando ele comeou a conduzi-la para frente de novo.
- Tenho anos de prtica. - Ele a liberou quando chegaram  picape, ento abriu a prpria porta e entrou. Sem comentrios, Gennie abriu a outra porta e acomodou-se 
no assento de passageiro.
O motor foi ligado, e o barulho que lembrava cidades e trnsito a fez pensar que aquilo era um sacrilgio. Olhou para trs quando ele pegou a estrada curvilnea 
e soube instantaneamente que pintaria... tinha de pintar aquele cenrio. Quase declarou sua inteno em voz alta, mas ento viu o perfil emburrado de Grant.
Problema dele, pensou Gennie. Ela pintaria enquanto ele estivesse pegando lagostas ou o que quer que fizesse no mar. Grant nem mesmo precisaria saber. Ela se sentou 
ereta, cruzou as mos no colo e ficou calada.
Grant dirigiu pouco mais de um quilmetro quando comeou a se sentir culpado. A estrada estava pssima e,  noite, teria parecido pior, com tantos sulcos e pedras. 
Qualquer um que percorresse aquele caminho a p se sentiria exausto, miservel. Qualquer um que no conhecesse o caminho teria ficado apavorado, tambm. E ele no 
mostrara a menor simpatia ou preocupao. Ainda franzindo o cenho, deu uma olhada rpida para ela. Gennie no parecia frgil, mas ele nunca teria acreditado que 
caminhara tanto por aquela estrada escura e ruim com toda aquela chuva.
Ele comeou a formar na mente um pedido de desculpas que a deixaria atnita no momento em que ela ergueu o queixo.
- A est o meu carro - murmurou ela com a voz distante e educada de novo... at mesmo submissa dessa vez. Grant engoliu o pedido de desculpas.
Ele virou o volante em direo ao carro, inclinando o corpo sobre Gennie mais do que o necessrio. Nenhum dos dois comentou nada quando ele desligou o motor e desceu. 
Grant abriu o capo do veculo, enquanto Gennie ficou parada com as mos nos bolsos da cala jeans.
Ele falava sozinho, notou ela, enquanto mexia em alguma coisa dentro do capo. Gennie sups que era uma coisa natural para algum que vivia isolado na beira de um 
penhasco. Mas, de qualquer forma, pensou com um sorriso, s vezes tambm se pegava conversando consigo mesma no altamente populoso Vieux Carr.
Grant voltou para a picape, e pegou uma caixa de ferramentas da caamba. Vasculhou l dentro, escolheu chaves de fenda de tamanhos diferentes e voltou para o capo 
do carro. Comprimindo os lbios, Gennie aproximou-se para espiar por sobre o ombro de Grant. Ele parecia saber qual era o defeito, concluiu. E algumas chaves de 
fenda no pareciam to complicadas. Se ela apenas pudesse... Inclinando-se para mais perto, automaticamente descansou a mo nas costas dele para manter o equilbrio.
Grant no teve a inteno, mas ao virar-se, o brao roou-lhe o seio com o movimento. O que podia facilmente acontecer com estranhos em um elevador sem que ningum 
notasse. Todavia, ambos sentiram o poder do contato, e a forte onda de desejo.
Gennie teria recuado se no tivesse de repente se flagrado fitando aqueles olhos escuros e impacientes... sentido a respirao quente e acelerada contra seus lbios. 
Mais um centmetro, pensou, apenas mais um centmetro e aquela boca sensual cobriria a sua. A mo dela deslizara para o ombro largo, e sem perceber, seus dedos tinham 
exercido presso ali.
Grant sentiu a presso, mas no era nada comparado ao arrepio que sentiu na nuca, na base da coluna e no meio do estmago. Pegar o que estava ao seu alcance poderia 
tanto aliviar a presso, quanto fazer tudo entrar em combusto. No momento, no tinha certeza de qual dos resultados preferia.
- O que voc est fazendo? - perguntou ele, mas dessa vez o tom de voz no continha raiva.
Hipnotizada, Gennie continuou fitando-lhe os olhos. Podia ver a si mesma neles, pensou de forma entorpecida. Quando se perdera ali?
- O qu?
Eles ainda estavam apoiados contra o carro, Gennie com a mo sobre o ombro dele, Grant com uma das mos no parafuso e a outra na chave de fenda. Precisava apenas 
mudar de posio para uni-los. E quase o fez, antes de lembrar-se de quanto ela parecera pertencer  sua terra no momento que admirava o mar.
Toque nesta mulher, Campbell, e ter problemas. O tipo de problema que um homem no consegue afastar apenas entoando uma cano.
- Perguntei o que voc estava fazendo... - murmurou ele no mesmo tom tranqilo, porm o olhar foi para a boca de Gennie.
- Fazendo? - O que ela estava fazendo? - Eu... ah... eu queria ver como voc conserta isso, de modo que... - O olhar de Grant prendeu o seu novamente, dispersando 
qualquer pensamento coerente.
- De modo que... - repetiu ele, gostando do fato de que podia confundi-la.
- De modo que... - A respirao dele sussurrava em seus lbios. Sem perceber, ela umedeceu-os com a lngua para provar o gosto. - De modo que, se acontecer de novo, 
eu possa consertar.
Grant sorriu... devagar, deliberadamente. De maneira insolente? Gennie no tinha certeza, mas seu corao estava batendo com violncia contra o peito. O sorriso 
dele, qualquer que fosse a inteno do mesmo, adicionava um charme perverso e irresistvel ao rosto bonito. Ela pensou que era um sorriso que um brbaro poderia 
dar  sua mulher antes de jog-la sobre o ombro e lev-la para uma caverna escura. Com a mesma lentido, ele virou-se e comeou a trabalhar com a chave de fendas 
novamente.
Gennie deu um passo atrs e respirou fundo. Aquilo tinha chegado perto... muito perto. Do qu, no sabia ao certo, mas de algum lugar que nenhuma mulher inteligente 
consideraria seguro. Ela pigarreou.
- Voc acha que pode consertar?
- Hmmm.
Gennie entendeu aquilo como uma afirmativa. Ento, aproximou-se, dessa vez ficando na lateral do capo.
- Um mecnico consertou o carro algumas semanas atrs.
- Acho que voc vai precisar de vlvulas novas em breve. Se eu fosse voc, pediria para Buck Gates dar uma olhada.
- Ele  mecnico? No posto de gasolina?
Grant endireitou o corpo. No estava sorrindo agora, mas a expresso dos olhos era de divertimento.
- No h posto de gasolina em Windy Point. Se voc precisa de gasolina, vai s docas e bombeia. Se tem problemas com o carro, procura Buck Gates. Ele conserta barcos 
de lagostas, e um motor  um motor. - Grant falou a ltima frase com um sotaque do leste, e um pequeno sorriso que no tinha nada a ver com condescendncia. - Ligue 
o carro.
Deixando a porta aberta, Gennie sentou-se atrs do volante. Uma virada na chave fez o motor despertar alegremente. Enquanto ela suspirava aliviada, Grant fechou 
o capo. Gennie desligou o motor, e ele voltou para a picape a fim de guardar as ferramentas.
- O chal de Lawrence fica a aproximadamente um quilmetro daqui,  esquerda. No h como voc perder a sada, a menos que esteja no meio de uma tempestade,  noite, 
apenas com uma lanterna.
Gennie conteve uma risadinha. No o deixe ter nenhuma capacidade de se redimir, suplicou. Faa com que eu me lembre dele como um homem rude e cruel, que, por acaso, 
 incrivelmente sexy.
- Manterei isso em mente.
- E eu no mencionaria que voc passou a noite na Estao de Windy Point - acrescentou ele, colocando a caixa de ferramentas de volta no lugar. - Tenho urna reputao 
a zelar - zombou.
Dessa vez, ela mordiscou o lbio para reprimir um sorriso.
- Verdade?
- Sim. - Grant virou-se, encostou-se contra a caminhonete por um momento e olhou-a mais uma vez - O povo do vilarejo me considera estranho. Eu perderia alguns pontos 
se eles descobrissem que no a coloquei para fora e bati a porta.
Dessa vez, Gennie sorriu... mas s um pouquinho.
- Dou-lhe a minha palavra. Ningum saber, atravs de mim, que bom samaritano voc . Se algum perguntar, direi que voc  rude, desagradvel e quase sempre cruel.
- Eu apreciaria isso.
Quando ele comeou a subir na picape, Gennie pegou a carteira.
- Espere, eu no paguei por...
- Esquea isso.
Ela ps a mo na maaneta da porta.
- No quero me sentir em dvida com voc por. 
- Durona. - Grant ligou o motor. - Oua, tire seu carro de onde est. No posso virar com voc no meu caminho.
Estreitando os olhos, Gennie virou-se. Ento as pessoas do vilarejo o consideravam estranho, pensou, enquanto fechava aporta do carro. Povo perceptivo. Gennie comeou 
a dirigir numa velocidade cautelosa, decidida a no olhar pelo espelho retrovisor. Quando chegou  sada certa, virou  esquerda. O nico sinal de Grant Campbell 
era o barulho forte da caminhonete que seguia em frente. Gennie disse a si mesma que no pensaria mais nele.
E no pensou enquanto seguia pela estradinha reta com flores desabrochando de cada lado. O som da picape tornou-se um eco distante, que logo desapareceu. Sem rvores 
para bloquear a viso, Gennie avistou o chal quase imediatamente, e ficou encantada. Era com certeza pequeno, mas evocava imagens dos sete anes da histria de 
Branca de Neve. Ela visualizou uma mulher com um vestido simples, estendendo roupas no varal, e um pescador de aparncia rude cortando lenha na pequena varanda.
A casa tinha sido pintada de azul, mas o tempo a deixara acinzentada. Uma estrutura quadrada de um nico andar, possua uma modesta varanda de frente para o terreno 
e, ela logo descobriria, uma outra varanda escondida com vista para a baa. Um per que parecia um pouco instvel estendia-se sobre a gua calma e cristalina. Algum 
havia plantado um salgueiro perto da margem, mas no eslava florescendo.
Gennie desligou o motor e ficou impressionada com o silencio. Agradvel, pacfico... Sim, podia viver com isso, trabalhar com isso. Todavia, descobriu que preferia 
o barulho do mar que Grant tinha do lado de fora de sua porta.
Oh, no, lembrou-se com firmeza. Tinha prometido a si mesma no pensar nele. E no pensaria. Depois de sair do carro, Gennie pegou a primeira caixa de mantimentos 
e subiu a escada de tbuas para a porta da frente do chal. Teve de lutar com a fechadura por um momento; depois, a porta se abriu com um rangido.
A primeira coisa que notou foi a arrumao do lugar. A viva Lawrence no mentira quando havia lhe garantido que o chal estava limpo. Os mveis estavam cobertos 
para serem protegidos da poeira, mas no havia p. Obviamente, a proprietria ia l com freqncia para limpar e arejar o local. Gennie achou a idia tocante e triste. 
As paredes eram pintadas de azul-claro, mas manchas mais claras aqui e ali indicavam onde quadros tinham ficado pendurados por muitos anos. Carregando a caixa de 
mantimentos, Gennie andou em direo ao fundo da casa e encontrou a cozinha.
O senso de ordem estava ali tambm. Balces de frmica sem manchas, e a pia de porcelana brilhava. Um toque na torneira mostrou que o encanamento realmente estava 
em ordem. Gennie ps a caixa no cho e foi para a porta dos fundos e para a varanda cercada de tela. O ar estava quente e mido, com gosto de mar. Algum havia reparado 
alguns furos da tela e o piso estava rachado, mas limpo.
Muito limpo, percebeu ela. No havia sinal de vida no chal, e quase nenhum eco da vida que um dia existira l. Ela teria preferido a desordem empoeirada que encontrara 
no farol de Grant. Algum vivia l. Algum vivo. Meneando a cabea, reprimiu o pensamento. Algum vivia neste chal agora... e logo a pequena casa saberia disso. 
Rapidamente, voltou para o carro a fim de descarreg-lo.
Porque tinha viajado durante o dia, e pela organizao impecvel do lugar, levou menos de duas horas para Gennie distribuir seus pertences pela casa. Os dois quartos 
eram pequenos, e apenas um deles tinha uma cama. Quando Gennie arrumou-a com os lenis que comprara, descobriu que o colcho era de penas. Fascinada, passou algum 
tempo pulando sobre ele e afundando. No segundo quarto, guardou seu material de pintura. Aps tirar os panos que protegiam os mveis do p, e pendurar algumas de 
suas pinturas nos locais desbotados das paredes, comeou a ter uma sensao de lar.
Descala e satisfeita consigo mesma, foi dar uma volta pelo do per. Algumas tbuas rangeram, e outras balanaram, mas ela concluiu que a estrutura era suficientemente 
segura. Talvez comprasse um pequeno barco e explorasse a baa. Podia fazer o que lhe desse vontade agora, ir aonde quisesse. Suas razes em Nova Orleans a chamariam 
de volta um dia, mas o desejo de viajar, que a levara ao norte seis meses atrs, ainda demoraria a desaparecer.
Desejo de viajar, repetiu, sentindo os olhos marejarem. No, a palavra certa era culpa... ou dor. Sentimentos que ainda a perseguiam, e talvez a perseguissem para 
sempre. J fazia mais de um ano, pensou, fechando os olhos. Dezessete meses, duas semanas e trs dias. E ainda podia ver Angela. Talvez devesse se sentir grata por 
isso... pelo fato de que sua memria de artista era capaz de conjurar o rosto de sua irm exatamente como tinha sido. Jovem, lindo, vibrante. Mas, por outro lado, 
era muito fcil ver Angela sem vida... da maneira que sua irm tinha ficado depois que Gennie a matara.
No foi culpa sua. Quantas vezes tinha ouvido isso?
No foi culpa sua, Gennie. Voc no pode se culpar.
Oh, sim, eu posso, pensou ela com um suspiro. Se eu no estivesse dirigindo... Se meus reflexos tivessem sido mais rpidos... Se eu ao menos tivesse visto aquele 
carro passando com o farol vermelho...
No havia retorno, e Gennie sabia disso. O nmero de vezes que a culpa impotente e o sofrimento a assolavam era menor agora, mas no era menos doloroso. Possua 
a sua arte, e, s vezes, acreditava que somente a arte salvara-lhe a sanidade aps a morte da irm. No gerai, a viagem estava sendo boa para ela... afastando as 
memrias que ainda estavam muito prximas, e deixando-a se concentrar na pintura que tanto amava.
A arte se tomara muito parecida com um negcio prprio nos ltimos anos. Ela quase se perdera em vendas e exibies. Agora, tinha voltado  base... e precisava disso. 
leo, acrlico, aquarela, carvo vegetal. E as telas que esperavam para ser preenchidas.
Talvez a dura realidade de perder sua irm a tivesse influenciado para procurar a mesma dura realidade em seu trabalho. Podia ter sido seu jeito de se forar a aceitar 
a vida... e a morte. Seus quadros abstratos, a qualidade nebulosa de sua pintura, sempre deram uma nuance branda ao mundo que criava. No exatamente real, mas na 
qual era muito fcil acreditar. Agora, estava atrada pelo simples, pelas coisas banais do dia-a-dia. A realidade nem sempre era bonita, porm havia uma fora nela 
que Gennie comeava a entender.
Bla respirou profundamente. Sim, pintaria aquela quietude, a pequena baa. Haveria tempo para isso. Mas antes, agora, precisava do poder e do desafio do oceano. 
Uma olhada no relgio informou-a de que era meio-dia. Com certeza ele j teria sado de barco agora, considerando o tempo que ela o fizera perder pela manh. Teria 
trs ou quatro horas para esboar o farol de diferentes ngulos sem que Grant soubesse. E se ele descobrisse, pensou ela dando de ombros, que diferena faria? Uma 
mulher com um bloco de desenho no podia perturb-lo. Em qualquer caso, ele poderia ficar trancado dentro de casa c ignor-la, se no gostasse de sua presena l. 
Exatamente como ela pretendia ignor-lo.
O estdio de Grant era no terceiro piso. Mais precisamente, o estdio era o terceiro piso. O que um dia tinham sido trs quartos minsculos fora transformado em 
um cmodo com uma forte iluminao natural, vinda do norte. Gabinetes com tampo de vidro continham diversos materiais, completamente organizados. Canetas tinteiro, 
rguas, pincis de marta, uma ampla variedade de lpis e borrachas, compasso, T-quadrado. Um engenheiro ou um arquiteto teria reconhecido diversas daquelas ferramentas 
e aprovado a qualidade. O papel fosco j estava aberto sobre sua prancheta.
Na parede branca diante dele, havia um espelho e uma reimpresso emoldurada do The Yellow Kid, uma histria em quadrinhos de quase cem anos de idade. Do outro lado 
da sala, ficava um rdio sofisticado e uma televiso colorida. A pilha de jornais e revistas no canto ia do cho at a altura da cintura. A sala tinha o senso de 
ordem prtica que Grant no se importava em ter em nenhum outro aspecto de sua vida.
Trabalhara sem pressa pela manh. Algumas vezes, trabalhava freneticamente, no por causa de prazos... estava sempre um ms  frente de sua agenda... mas porque 
seus prprios pensamentos o pressionavam. Outras vezes, levava uma ou duas semanas simplesmente para reunir idias e organiz-las. Em certas ocasies, trabalhava 
a noite inteira, quando aquelas mesmas idias lutavam para ser colocadas no papel.
Ele terminara o projeto no qual estivera trabalhando durante a manh. Agora, um novo ngulo lhe surgia na mente, ao qual no seria capaz de resistir. Grant raramente 
se negava a realizar alguma coisa que se aplicava  sua arte. J tinha pego o papel, desenhado linhas diagonais com a caneta azul que no apareceria na impresso. 
Sabia o que queria, mas a preparao vinha primeiro, aqueles detalhes cruciais e precisos que ningum notaria durante os poucos segundos que levava para observar 
seu trabalho.
Quando o papel estava pronto sobre a prancheta, dividido em cinco sees com o dobro do tamanho que teriam quando reproduzidas, ele comeou a esboar de leve. Rabiscando 
de fato, deu vida a seu personagem principal com alguns traos e linhas. O homem era bastante comum. Grant insistira que fosse assim quando tinha criado o que sua 
irm chamava de seu "outro eu", dez anos atrs. Um homem comum, talvez meio desalinhado, com feies um pouco exageradas, como o nariz, os olhos assustados... Mas 
o Macintosh de Grant era facilmente reconhecvel como algum com quem voc podia cruzar na rua. E mal notar.
Ele era to magro, que suas tentativas de se vestir de forma elegante nunca se concretizavam realmente. Possuiu o ar de algum que sabia que seria adotado. Grant 
sentia certa afeio pela falta de jeito do homem e suas ocasionais observaes sarcsticas.
Grant conhecia todos os seus amigos... ele os criara. No precisamente um grupo diversificado, mas muito unido. Sonhadores de boa inteno, garotos espertos. Eram 
as sombras das pessoas que Grant tinha encontrado na universidade... amigos e conhecidos. Pessoas comuns fazendo coisas comuns, de um jeito incomum. Esse era o lema 
de sua arte.
Ele criara Macintosh na faculdade, ento o deixara em um armrio enquanto perseguia a arte de uma maneira mais tradicional por quase trs anos. Mas acabara descobrindo 
que ficava muito mais feliz desenhando uma caricatura do que pintando um quadro. No final, Macintosh venceu, Grant o resgatara do armrio, e, depois de sete anos, 
o personagem levemente entediado de olhos turvos aparecia cm todos os grandes jornais do pas, sete dias por semana.
As pessoas acompanhavam sua vida enquanto tomavam um caf, no metr, no nibus, e na cama. Mais de um milho de americanos abriam seus jornais para ver o que Macintosh 
estava fazendo naquele dia, antes que tivessem de enfrentar o seu prprio dia.
Como criador de histrias em quadrinhos, Grant sabia que era sua responsabilidade divertir, e divertir rapidamente, com algumas sentenas curtas e desenhos simples. 
A histria em quadrinhos seria vista por dez ou 12 segundos, as pessoas ririam e a colocariam de lado. Era apenas uma folha de jornal que freqentemente era usada 
para forrar uma gaiola de pssaros. Grant tinha poucas iluses. O que importava era a risada, o fato de que, por aqueles poucos segundos, ele tinha dado s pessoas 
alguma coisa para se alegrar... alguma coisa para relatar. Em Macintosh, Grant procurava reproduzir a experincia de uma pessoa comum, ento a torcia.
O que queria, o que insistia em ter, era o direito de fazer isso, e o direito de ficar sozinho para realizar a tarefa. Era conhecido pelo pblico apenas por suas 
iniciais. Seu contrato com o Sindicato declarava especificamente que seu nome jamais seria publicado na tira. Ele no daria entrevistas, nem seria filmado ou fotografado. 
O anonimato fazia parte de seu trabalho tanto quanto sua renda anual.
Ainda usando apenas o lpis, comeou a segunda seo... Macintosh resmungando quando a batida  porta interrompeu seu mais novo hobby: uma coleo de selos. Grant 
tinha trabalhado duas semanas inteiras nesse ngulo em particular... as tentativas espalhafatosas de Macintosh, os comentrios custicos dos amigos sobre seu tdio 
terminal. Macintosh mexia com seus selos, perguntando-se se, enfim, havia encontrado uma mina de ouro quando a televiso anunciara atrs dele o ltimo aumento no 
servio de primeira classe do correio.
Ali, ele abria a porta para encontrar uma sereia molhada e mal-humorada. Grant no teve nenhum problema para desenhar Gennie. Na verdade, sentiu que transform-la 
em um personagem a colocaria firmemente em perspectiva. Ela seria to ridcula e to vulnervel quanto o resto das pessoas no mundo dele. Grant passaria a pensar 
em Gennie como um personagem, em vez de uma mulher... de carne e osso, macia, cheirosa. Sua vida no tinha espao para uma mulher, mas sempre o teria para uma personagem. 
Ele podia determinar-lhes quando chegar, quando partir, o que dizer.
Grant a batizara de Vernica, pensando que um nome sofisticado combinava com ela. Deliberadamente, exagerou na curva dos olhos e na sensualidade da boca. Uma vez 
que o cenrio era Washington, e no o litoral do Maine, ele lhe deu um pneu furado no caminho de volta para casa depois de um trabalho na Casa Branca. Macintosh 
arregalou os olhos para ela. Grant capturou isso criando para si mesmo diversos olhares perplexos no espelho acima da prancheta.
Trabalhou por duas horas, aperfeioando o enredo da histria, o cenrio, as frases de humor. Depois de trocar-lhe o pneu e murmurar frases machistas para impression-la, 
Macintosh acabou com cinco dlares, uma gagueira e sapatos ensopados, enquanto Vernica desaparecia de sua vida.
Grant se sentiu melhor.quando os desenhos ficaram prontos. Colocara Gennie exatamente onde a queria... partindo em seu carro. Agora, detalharia seu trabalho com 
nanquim e pincel, Preto slido acentuaria ou daria foco, as retculas, zonas de pontos ou linhas, formariam as reas acinzentadas.
Detalhar o quarto de Macintosh foi muito simples. Grant j estivera l milhares de vezes. Mas ainda era necessrio tempo e preciso. O equilbrio era crucial, os 
ngulos e o posicionamento, a fim de chamar a ateno do leitor exatamente para onde queria, pelos poucos segundos em que olhariam para o quadrinho individual. O 
suprimento de pacincia de Grant era consumido pelo trabalho, restando-lhe muito pouca para as outras reas de sua vida. Aquela histria em quadrinhos estava na 
metade, e a tarde acabaria antes que parasse para descansar a mo.
Caf, pensou, estendendo os msculos das costas e dos ombros quando notou a dor. E comida. O caf da manh fora h muito tempo. Pegaria alguma coisa e daria uma 
volta na praia. Ainda tinha dois jornais para ler e algumas horas de televiso. Muitas coisas podiam acontecer em um dia para que ignorasse os meios de comunicao. 
Mas caminharia primeiro, decidiu quando se moveu preguiosamente para a janela. Precisava de um pouco de ar fresco...
A mo, que erguera para esfregar a nuca, de repente caiu. Inclinando-se sobre a janela, franziu o cenho e olhou para baixo. Era ruim o bastante quando necessitava 
lidar com turistas ocasionais, pensou furioso. Algumas palavras diretas os mandavam embora para sempre. Mas no havia engano, mesmo daquela altura sobre a quem pertenciam 
os cabelos cor de bano.
Vernica ainda no tinha sado de sua vida.



Trs

O lugar era lindo, independentemente do ngulo que ela escolhesse ou do deslocamento da luz. Gennie tinha meia dzia de esboos em seu bloco, e sabia que podia ter 
mais meia dzia sem captar todos os aspectos daquele pedao de terra em particular. As cores nas pedras eram impressionantes! Seria capaz de captur-las? E a maneira 
como o farol permanecia l, slido, indomvel. A pintura estava desbotada aqui e ali, os blocos de concreto com marcas do tempo e respingos de sal. O que s adicionava 
um aspecto humano ao local. A luta dos homens por segurana contra o mar inconstante.
Certamente, houvera momentos em que o mar vencera, pensou Gennie. Porque o homem era falvel. Outras vezes, o vencedor fora o farol. Porque o homem era tenaz. Contrapostos, 
eles falavam de harmonia, perseverana, suor e fora.
Ela perdeu a noo de quanto tempo ficou sentada l, sem ningum para perturb-la e sem perturbar ningum.
Contudo, sabia que poderia permanecer ali somente enquanto o sol lhe proporcionasse luz suficiente. Havia muito poucos lugares em Nova Orleans em que podia ir pintar 
sem as distraes de curiosos ou entusiastas da arte. Quando decidia pintar na cidade, era constantemente reconhecida, e, uma vez reconhecida, observada ou questionada.
Mesmo quando saa... para a nascente de um rio, ao longo da estrada rural, era freqentemente seguida. Havia se acostumado a trabalhar com isso e a poupar a maior 
parte de seu trabalho srio para o estdio. No decorrer dos anos, quase tinha esquecido da simples liberdade de ser capaz de trabalhar ao ar livre, tendo a vantagem 
de inalar e provar o que desenhava, enquanto desenhava.
Os ltimos seis meses haviam lhe dado algo que nem mesmo tinha conscincia de que estivera procurando... um lembrete de como as coisas tinham sido antes que o sucesso 
comeasse a limit-la.
Contente, em estado sonhador, desenhava o que via e sentia, e no precisava de mais nada.
- Que coisa! O que voc quer agora?
Para seu crdito, Gennie no teve um sobressalto ou derrubou o bloco de desenho. Sabia que Grant estava em algum lugar por perto, uma vez que o barco dele no sara 
do lugar. E j tinha decidido que ele no estragaria o que ela encontrara l. Era arrogante o suficiente para se sentir no direito de estar ali, pintando o que sua 
arte lhe inspirava que pintasse. Pensando que ele era muito negligente com o seu trabalho de pescador, virou-se para encar-lo.
Grant estava furioso, pensou ela. Mas era raro v-lo de um outro jeito. Decidiu que o homem combinava com o cenrio externo... com o sol, o vento e o mar. Talvez 
fizesse um ou dois esboos dele antes que terminasse. Inclinando a cabea para trs, Gennie estudou-o como estudaria qualquer tema que a interessasse.
- Boa tarde - disse ela em seu melhor sotaque do interior.
Saber que estava sendo avaliado e insultado poderia t-lo divertido em outras circunstncias. No momento, o fez desejar empurr-la e jog-la pedra abaixo. Tudo que 
queria era que ela fosse embora, e ficasse longe... antes que ele cedesse ao desejo de toc-la.
- Perguntei o que voc queria.
- No precisa se preocupar. Estou apenas fazendo alguns esboos preliminares. - Gennie continuou sentada sobre a pedra torta na margem do penhasco e virou-se novamente 
para o mar. - Pode continuar fazendo o que estava fazendo.
Os olhos de Grant se estreitaram. Oh, ela era boa nisso, pensou. Em dar ordens.
- Voc est no meu terreno.
- H-h.
A idia de derrub-la da pedra se tornou mais atraente.
- Voc est invadindo propriedade particular. Gennie lhe lanou um olhar indulgente por sobre o
ombro esquerdo.
- Voc devia tentar arame farpado e minas terrestres. Nada melhor do que um explosivo para fazer valer suas palavras. No que eu o culpe por querer essa pequena 
fatia do mundo para si mesmo, Grant - acrescentou ela, e comeou a desenhar de novo. - Mas vou deixar o lugar exatamente como eu o encontrei... sem latas de refrigerante, 
sem pratos descartveis ou filtros de cigarro.
Mesmo erguida sobre o barulho do mar, a voz dela continha um tom deliberadamente apaziguador capaz de irritar os nervos de qualquer um. Grant chegou muito perto 
de agarr-la pelos cabelos e faz-la se levantar, quando foi distrado pelo lpis se movendo no papel. O que viu o fez deter uma exclamao de surpresa.
O desenho era mais do que bom, verdadeiro demais para ser descrito por um mero "excelente". Com traos e sombras, ela estava capturando o redemoinho do mar sobre 
a pedra, o vo baixo das gaivotas e a estrutura slida e firme do farol. Da mesma maneira, no dava ao desenho uma idia de beleza serena, mas, sim, revelava as 
paredes gastas pelo tempo, as manchas, os defeitos, e a simplicidade. Aquilo no daria um carto-postal, ou um toque suave de arte sobre a abbada de uma lareira. 
Mas qualquer pessoa que j tivesse visitado um lugar onde o mar enfrentava a terra entenderia o desenho.
Franzindo o cenho mais em concentrao do que de raiva, Grant inclinou-se para mais perto. As mos dela no eram de uma estudante, a alma no era de uma amadora. 
Em silncio, esperou que ela terminasse, ento imediatamente tirou-lhe o bloco das mos.
- Ei! - Gennie comeou a se levantar da pedra.
- Cale-se.
Ela obedeceu, apenas porque viu que ele no ia jogar seu trabalho no mar. Sentando-se de novo na pedra, Gennie observou Grant folhear as pginas de seu bloco. De 
vez em quando, parava para estudar um esboo por um tempo maior do que os outros.
Os olhos dele estavam muito escuros agora, ela notou, enquanto o vento jogava-lhe os cabelos para a testa e os removia de novo. Havia uma linha entre os olhos, e 
no era de nervoso, mas de intensidade. A boca estava sria, o semblante de algum que estava julgando. Ter seu trabalho analisado por um pescador solitrio deveria 
ter divertido Gennie. Mas, de alguma maneira, no divertiu. Ela sentiu uma pequena dor nas tmporas, que reconheceu como tenso. Sentia isso com freqncia antes 
de suas exposies.
Os olhos de Grant estudaram uma das pginas do bloco e encontraram os seus. Por um longo momento, havia apenas o barulho das ondas. Agora ele sabia por que tivera 
aquela sensao de conhec-la de algum lugar. Mas as fotos de jornal no faziam justia a ela.
- Grandeau - disse ele finalmente. - Genvive Grandeau.
Em qualquer outra situao, ela no teria ficado surpresa em ter seu trabalho ou seu nome reconhecido. No cm Nova York, na Califrnia ou em Atlanta. Mas era intrigante 
encontrar um homem numa terra distante e isolada que podia reconhecer seu trabalho a partir de um esboo rude em um bloco de desenho.
- Sim. - Gennie se levantou ento, usando as mos para pentear os cabelos para trs e mantendo-os assim.
- Como voc sabe?
Ele deu um tapinha no bloco, enquanto os olhos continuavam prendendo os dela.
- Tcnica  tcnica, tanto faz se  um esboo ou uma pintura a leo. O que uma artista famosa de Nova Orleans est fazendo em Windy Point?
O tom seco da pergunta a irritou tanto, que ela esqueceu-se da facilidade com que ele reconhecera seu trabalho.
- Tirei uma longa licena. - Ela estendeu a mo para o bloco.
Grant ignorou o gesto.
- Um lugar estranho para uma das artistas mais... sociveis do pas. Seus trabalhos esto nos folhetos de arte quase com a mesma freqncia que o seu nome est na 
coluna social. Voc no estava noiva de um conde italiano no ano passado?
- Ele era baro - corrigiu ela friamente. - E ns no estvamos noivos. Quando voc no est pescando, preenche o tempo lendo jornais?
O brilho de raiva nos olhos dela o fez sorrir.
- Leio bastante. E voc - acrescentou Grant, antes que ela pudesse pensar em alguma resposta -, consegue estar no New York Times quase com tanta freqncia quanto 
sai nos tablides.
Gennie inclinou a cabea num gesto to parecido com o desprazer de um membro da realeza que Grant ampliou o sorriso.
- Parece que algumas pessoas vivem, enquanto outras apenas lem sobre a vida.
- Voc faz uma boa cpia, Genvive. - Ele no pde resistir, e enfiou os polegares nos bolsos quando novas idias para Vernica lhe passaram pela mente. Parecia 
inevitvel que ela voltasse e enlouquecesse Macintosh por um tempo. - Voc  a favorita dos paparazzi.
A voz dele permanecia fria e distante, mas ela comeou a bater o lpis contra a pedra.
- Suponho que eles precisam se sustentar, como todo mundo.
- Recordo-me de alguma coisa sobre um duelo sendo travado na Bretanha alguns anos atrs.
Um sorriso iluminou o rosto de Gennie, repleto de divertimento, quando Grant menos esperava. No era fcil resistir ao sorriso, descobriu. No quando era genuno 
e continha um humor autodepreciativo.
- Se voc prefere acreditar em bobagens - murmurou ela com graa -, quem sou eu para discutir?
Era melhor continuar questionando-a do que admirar aquele sorriso por mais tempo.
- Algumas bobagens so fascinantes. Houve um diretor de filme antes do conde...
- Baro - Gennie o relembrou. - O conde que voc est pensando era francs, e um de meus primeiros... clientes.
- Voc teve uma grande seleo de... clientes. Ela continuou sorrindo, obviamente divertida.
- Sim. Voc  um entusiasta de arte ou apenas gosta de fofoca?
- As duas coisas - replicou ele com facilidade. - Pensando nisso, no tem havido muitas notcias sobre suas... aventuras... na imprensa nos ltimos meses. Voc provavelmente 
est mantendo seu perodo de licena bastante secreto. A ltima coisa que me lembro de ter lido foi...
Ele recordou-se ento, e podia ter cortado a lngua fora. O acidente de carro... a morte da irm dela... uma linda e invasiva fotografia de Genvive Grandeau no 
funeral. Devastao, choque, sofrimento... tudo isso tinha ficado muito claro, mesmo atravs do vu que ela usava.
Gennie no estava sorrindo agora, mas olhando-o com uma expresso calma e vazia.
- Sinto muito - disse ele.
O pedido de desculpas quase a deixou com os joelhos bambos. Tinha ouvido aquelas palavras muitas vezes antes, de tantas pessoas diferentes, mas nunca a haviam tocado 
com uma sinceridade to simples. De um estranho, pensou Gennie, e virou-se para o mar outra vez. No deveria significar tanto, vindo de um estranho.
- Tudo bem. - O vento parecia to frio, to vital. Ali no era um lugar para pensar sobre morte. Se tinha de pensar sobre isso, pensaria quando estivesse sozinha, 
quando houvesse silncio. Agora, poderia respirar profundamente e absorver a fora do mar. - Ento, voc passa suas horas de lazer lendo todas as fofocas do mundo 
cruel. Para um homem que  to interessado nas pessoas, voc escolheu um lugar estranho para morar.
- Interessado nas pessoas, sim. - Concordou Grant, grato por ela ser mais forte do que parecia. - Isso no significa que eu queria estar perto delas.
- Voc no se importa com as pessoas, ento. - Quando Gennie se virou, o sorriso estava l de novo, provocativo. - O solitrio duro. Em alguns anos, voc pode at 
se tornar rabugento.
- Voc no pode ser rabugento at que tenha 50 anos - contradisse ele. -  uma lei tcita.
- Eu no sei. - Gennie prendeu o lpis atrs da orelha e inclinou a cabea. - No acho que voc se importa com leis, tcitas ou no.
- Depende se elas so teis ou no - respondeu ele simplesmente.
Ela riu.
- Diga-me - Gennie olhou para o bloco de desenho, ainda nas mos de Grant -, voc gosta dos esboos?
Ele deu uma risada curta.
- No acho que Genvive Grandeau precisa de uma crtica no solicitada.
- Genvive tem um tremendo ego - corrigiu ela. -Alm disso, no  uma crtica no solicitada, uma vez que estou pedindo isso.
Grant lhe deu um olhar longo e firme antes de responder:
- Seu trabalho  sempre muito comovente, muito pessoal. A publicidade ligada a ele no  necessria.
- Creio que, vindo de voc, isso  um elogio. - Gennie considerou. - Vai me dar liberdade total para pintar aqui, ou terei de brigar com voc a cada passo do caminho?
Ele franziu o cenho, e Grant fazia isso com tanta facilidade, que Gennie conteve a risada.
- Por que aqui, precisamente?
- Eu estava comeando a pensar que voc era perceptivo - murmurou ela com um suspiro. Ento, fez um gesto gracioso e amplo com uma das mos, englobando as redondezas. 
- No pode ver? Este lugar representa vida e morte.  uma guerra que nunca termina, uma guerra cujo resultado nunca veremos. Posso colocar na tela... apenas uma 
parte, uma fatia muito, muito pequena. Mas posso fazer isso. Eu no poderia resistir, mesmo se quisesse.
- A ltima coisa que quero aqui  um bando de reprteres ansiosos, ou alguns nobres europeus deslocados.
Gennie arqueou uma sobrancelha, de sbito presunosa e divertida. Era a superioridade casual daquele olhar que o fazia desejar arrast-la para o cho e provar a 
ambos que ela era apenas uma mulher.
- Acho que voc leva a sua leitura muito a srio - disse ela suavemente. - Mas posso lhe dar minha palavra, se quiser, de que no telefonarei para a imprensa ou 
para nenhum dos doze amantes que voc parece pensar que eu tive.
- No teve? - O tom era de sarcasmo, e Gennie reagiu com frieza.
- Isso no  problema seu. De qualquer forma - continuou ela -, eu poderia assinar um contrato com sangue, se for de sua preferncia, e pagar-lhe uma quantia razovel, 
j que o farol  seu. Eu vou pintar aqui, com ou sem a sua cooperao.
- Voc parece ter bastante desrespeito pelos direitos de propriedade, Genvive.
- Voc parece ter bastante desrespeito pelos direitos da arte.
Ele riu daquilo, um som alto que era agradvel, msculo e intrigante.
- No - disse ele aps um momento. - Por acaso, tenho grande respeito pelos direitos do artista.
- Contanto que no envolva voc.
Ele suspirou, um som que ela reconheceu como frustrao. Os sentimentos de Grant sobre arte e censura eram profundos demais para permitir-se barr-la. E sabia, mesmo 
enquanto estava parado ali, que Gennie iria lhe criar uma poro de problemas. Uma pena que ela no escolhera Penobscot Bay.
- Pinte... - murmurou Grant. - E fique fora do meu caminho.
- De acordo. - Gennie subiu na pedra e olhou para o mar novamente. - So as suas pedras que quero, a sua casa, o seu mar. - Um sorriso preguioso e muito feminino 
tocou-lhe os lbios quando ela virou-se para ele de novo. - Mas voc est seguro, Grant. No tenho nenhum projeto a seu respeito.
Era uma isca, e ambos sabiam disso. Ele a mordeu de qualquer forma.
- Voc no me preocupa, Genvive.
- No mesmo? - O que voc est fazendo?, o bom senso perguntou, mas Gennie o ignorou. Ele achava que ela era algum tipo de sereia do sculo XX. Por que no diverti-lo? 
Com a ajuda da pedra, estava alguns centmetros mais alta do que ele. Os olhos de Grant estavam estreitos contra o sol quando ele a olhou, os dela, grandes e sorridentes. 
Com uma risada, Gennie pousou as mos sobre os ombros largos. - Eu podia jurar que o preocupo.
Grant considerou pux-la da pedra diretamente para seus braos. Ignorou a onda de desejo que veio com rapidez, deixando-o ento com uma dor pulsante. Ela o estava 
provocando e certamente venceria se ele no fosse cuidadoso.
- E seu ego mais uma vez - disse ele. - Voc no  o tipo que me atrai.
A raiva brilhou nos olhos de Gennie novamente, tornando-a quase irresistvel.
- Alguma mulher ?
- Prefiro um tipo mais suave - murmurou ele, sabendo que apele dela seria extremamente suave sob seu toque. - Mais calma - mentiu. - Algum um pouco menos agressiva.
Gennie esforou-se para no perder o controle por completo e dar-lhe um tapa.
- Ah, voc prefere mulheres que ficam sentadas em silncio e no pensam.
- Mulheres que no exibam seus... atributos. - Dessa vez, o sorriso dele foi zombeteiro. - No tenho nenhum problema em resistir a voc.
A isca foi jogada novamente, e, dessa vez, Gennie a engoliu inteira.
- Verdade? Deixe-me ver.
Ela baixou a boca at a dele, antes que tivesse a chance de considerar as conseqncias. Suas mos ainda estavam nos ombros largos, as dele enfiadas nos bolsos, 
mas o contato dos lbios provocou uma exploso violenta. Grant sentiu-a percorrer-lhe o corpo, de maneira feroz e rpida, enquanto cerrava os punhos.
O que era aquilo, pelo amor de Deus?, perguntou-se enquanto usava cada fio de controle para no abra-la.
Instintivamente, sabia que aquele seria o seu fim. Tinha apenas de afastar-se, controlar os sintomas do corpo, e tudo acabaria.
Por que no conseguia se afastar? No estava acorrentado. Grant disse a si mesmo, ordenou a si mesmo, mas, ento, no se moveu enquanto a boca de Gennie brincava 
com a sua. Centenas de imagens e fantasias passaram por sua cabea, fazendo-o quase mergulhar nelas. Bruxa, pensou atordoado. Estivera certo sobre ela o tempo todo. 
Sentiu o solo balanar sob seus ps, o barulho do mar preencher-lhe o crebro. O gosto dela, quente, misterioso, maravilhoso. E mesmo isso no era o bastante. Por 
um momento, acreditou que podia existir algo alm do que os homens conheciam. Talvez as mulheres entendessem aquilo. Grant sentia o corpo tenso como se tivesse sido 
baleado. Talvez as mulheres fizessem isso.
Em alguma parte de sua mente, soube, por um breve instante, que estava completamente vulnervel.
Gennie afastou-se rapidamente. Grant teve a impresso de que as delicadas mos sobre seus ombros tremiam de leve. Os olhos verdes pareciam confusos, os lbios estavam 
entreabertos, no em tentao, mas em perplexidade. Atravs de seu prprio choque, Grant percebeu que ela se sentira to tocada e to enfraquecida pelo beijo quanto 
ele.
- Eu... eu tenho de ir - comeou ela, ento mordiscou o lbio quando percebeu que estava gaguejando de novo... um hbito que parecia ter desenvolvido nas ltimas 
24 horas. Esquecendo-se do bloco de anotaes, desceu da pedra e preparou-se para escapar, de maneira indigna, para o carro. No instante seguinte, ele a segurou 
obrigando-a a voltar-se.
O semblante de Grant estava srio, a respirao irregular.
- Eu estava errado. -A voz rouca de desejo preencheu a cabea de Gennie, que se esvaziou de todo o resto. - Tenho srios problemas em resistir a voc.
O que havia feito?, perguntou-se Gennie freneticamente. Com ambos? Estava tremendo... e nunca tremia. Com medo? Oh, Deus, sim. Poderia enfrentar a tempestade e a 
escurido agora, com total confiana. No era nada comparado com aquilo.
- Acho melhor ns...
- Tambm acho - ele a interrompeu, e puxou-a para si. - Mas  tarde demais agora.
No instante seguinte, ele cobriu-lhe a boca com a sua, de maneira rude, irrecusvel. Mas ela recusaria, Gennie disse a si mesma. Tinha de faz-lo ou estaria perdida. 
Como pensara que entendia as emoes, as sensaes? Traduzi-las em pinturas no era nada comparado a vivenciar a experincia. Ele a beijou at ela no ter mais certeza 
de que um dia se libertaria de Grant.
Gennie ergueu as mos e o empurrou. Os dedos longos a apertaram ainda mais, no com muita gentileza. A ferocidade do penhasco, do mar, do vento, envolvia a ambos 
e comandava a situao. Grant inclinou-lhe a cabea para trs, talvez com a inteno de fingir que ainda estava no comando. Os lbios de Gennie se entreabriram, 
e a lngua deslizou para encontrar a dele.
Era isso que sempre tinha ansiado sentir?, perguntou-se ela. Aquela liberao selvagem, aquele calor, o desejo devastador? Nunca soubera como era ser preenchida 
com um gosto que no a deixasse se lembrar de nenhum outro. Sabia que Grant possua uma fora interior, sentira isso desde o comeo. Mas senti-la agora, saber que 
estava presa nela, era uma emoo to conflitante... Dava-lhe a sensao tanto de poder quanto de fraqueza.
A pele dele estava spera, e roou na sua quando ele mudou o ngulo da boca. Sentindo a pequena dor ntima, ela gemeu de puro prazer. As mos grandes estavam em 
seus cabelos, acariciando-os, enquanto as bocas de ambos se exploravam com paixo.
Solte-se. Foi uma ordem que veio de algum lugar profundo dentro de Gennie. Sinta. Sem poder evitar, ela obedeceu.
Ouviu as gaivotas, mas o som parecia romntico agora, no mais um murmrio desolado. O mar batia contra a terra. Poder, poder, poder. Soube da extenso daquele poder 
quando seus lbios tocaram os de Grant. A extremidade do penhasco estava prxima, ela sabia. Um passo, dois, e acabaria girando para o espao e sendo levada pela 
crueza da realidade. Mas aqueles poucos segundos de liberdade irrefletida valiam o risco. Seu suspiro falava de rendio e triunfo.
Grant praguejou baixinho, o som abafado contra os lbios dela antes que se forasse a dar um passo atrs. Aquilo era exatamente o que tinha jurado que no aconteceria. 
Possua experincia o bastante para saber quando estava encrencado. No tinha tempo para aquilo... foi o que disse a si mesmo quando olhou para Gennie. O rosto dela 
estava brilhando de paixo, os cabelos pretos desalinhados pelo vento, enquanto ela mantinha a cabea levemente inclinada para trs. Os lbios de Grant doam de 
vontade de pressionarem-se contra o pescoo esbelto e bronzeado. Foram os olhos dela, parcialmente fechados e brilhando com o eterno poder das mulheres, que o ajudaram 
a resistir. Era uma armadilha na qual no se permitiria cair.
A voz era baixa quando falou, e expressava tanta fria quanto os olhos:
- Eu posso desej-la. At mesmo posso possu-la. Mas isso s acontecer quando eu estiver pronto. Se voc quer ditar o ritmo, jogar de acordo com as suas regras, 
ento fique com seus condes e bares. - Grant se virou, amaldioando a ambos.
Atnita demais para se mover, Gennie o viu desaparecer dentro do farol. O que aquilo tudo tinha significado para ele?, pensou atordoada. Apenas um homem qualquer, 
uma mulher qualquer e uma paixo qualquer? Ele no sentira a vibrao que falava de unidade, intimidade, destino? Jogos? Como ele podia falar em jogos depois que 
eles... Fechando os olhos, ela passou uma mo trmula pelos cabelos.
No, a culpa era sua. Estava inventando coisas do nada. No havia unidade entre duas pessoas que nem se conheciam. E intimidade era apenas uma palavra cmoda para 
justificar as necessidades fsicas. Estava sendo fantasiosa de novo, transformando algo comum em uma coisa especial, porque era isso o que queria.

Deixe-o ir. Gennie abaixou-se para pegar seu bloco de desenho e achou o lpis que Grant desprendera de seus cabelos. Deixe-o ir e concentre-se no seu trabalho, ordenou 
a si mesma. Foi o cenrio que a envolveu e emocionou-a, no o personagem. Cuidando para no olhar para trs, foi em direo a seu carro.
Suas mos no pararam de tremer at que chegou ao chal. Aquilo era melhor, pensou, enquanto ouvia o barulho calmo da gua, e os gentis sons de andorinhas voltando, 
a fim de se aninharem para a noite. Havia paz ali, e a iluminao era boa. Era aquilo que devia pintar, em vez da turbulncia do oceano e a aspereza das pedras. 
Era l que devia ficar, mergulhada na solido de guas calmas e ventos amenos. Quando voc desafia a natureza tempestuosa, a chance maior  a de perder. Apenas uma 
tola continuaria desafiando as probabilidades.
Subitamente cautelosa, Gennie saiu do carro e andou at o per. No final, sentou-se na madeira bruta e deixou os ps balanarem para o lado. Se ficasse ali, estaria 
segura.
Permaneceu sentada em silncio enquanto o sol baixava no cu. No foi preciso esforo para sentir a presso dos lbios de Grant sobre os seus. Nunca conhecera um 
homem que beijasse daquela maneira... intensa, consumidora, entretanto, com um trao de vulnerabilidade. Mas ela mesmo no era to experiente quanto Grant presumia.
Havia namorado, se socializado, apreciado a companhia dos homens, mas, j que sua arte sempre vinha em primeiro lugar, seus relacionamentos mais ntimos eram limitados. 
Aulas, trabalhos, exibies, viagens, festas: quase tudo que tinha feito, por quase tanto tempo quanto podia lembrar-se, era conectado  arte, e  necessidade de 
express-la.
Com certeza gostava dos benefcios sociais, os toques de brilho e glamour que surgiam em seu caminho aps dias e semanas de solido. No se importava com a imagem 
que a imprensa havia criado, porque parecia nica e livre. No se incomodava em receber aplausos aqui e ali, depois de trabalhar at quase a exausto em silncio 
e isolamento. s vezes, a Genvive de que os jornais falavam tanto a divertia como a impressionava. Ento, era hora da prxima pintura. Ela nunca tivera problemas 
em separar a socialite da artista.
A imprensa ficaria chocada, perguntou-se Gennie, ao saber que Genvive Grandeau, dos Grandeaus de Nova Orleans, artista de sucesso, socialite estabilizada, e uma 
mulher do mundo, nunca tivera um amante?
Com uma risada, inclinou-se para trs sobre os cotovelos. Estava casada com a sua arte por tanto tempo, que um amor tinha parecido suprfluo. At... Gennie comeou 
a bloquear o pensamento, e, chamando-se de covarde, finalizou. At Grant Campbell.
Olhando para o cu, permitiu-se lembrar daquelas sensaes, dos sentimentos e desejos que ele lhe despertara. Teria feito amor com ele sem pensar duas vezes, sem 
hesitar por um nico instante. Mas ele a rejeitara.
No, era mais do que isso, Gennie recordou-se quando a raiva interior comeou a renascer. Rejeio era uma coisa dolorosa, humilhante, mas isso no tinha sido tudo. 
Alm de rejeit-la, Grant fora arrogante... e isso era intolervel.
Dissera que a possuiria quando ele estivesse pronto. Como se ela fosse uma barra de chocolate no balco de uma loja. Gennie estreitou os olhos, sentindo a raiva 
domin-la. Veremos, disse a si mesma. Veremos, Grant Campbell.
Levantando-se, ela foi em direo ao chal. Ningum rejeitava Genvive Grandeau. E ningum a possua. Se eram jogos o que ele queria, seriam jogos o que receberia.



Quatro


No iria ser perseguida, Gennie disse a si mesma com um sorriso de satisfao quando empacotou seu material de pintura na manh seguinte. Ningum a perseguiria... 
especialmente um tolo rude e arrogante. Grant Campbell iria t-la por perto at que ela estivesse pronta para seguir em frente.
A pintura, refletiu Gennie enquanto verificava seus pincis.  claro que a pintura era muito importante, mas... enquanto estivesse pintando, decidiu com um sorriso 
tenso, iria tirar um tempinho para ensinar uma lio quele homem. Oh, ele merecia uma. Gennie afastou os cabelos dos olhos quando abriu a tampa da caixa de tintas. 
Ningum, em toda a sua experincia, merecia tanto uma boa lio quanto Grant Campbell. E ela era a mulher certa para fazer isso.
Ento ele achava que ela estava jogando? Gennie fechou a tampa da caixa um pouco violentamente, de modo que o som ecoou como dois tiros atravs do chal vazio. Jogaria 
certo... seu prprio jogo, com as suas regras.
Gennie tinha passado 26 anos vendo a sua av seduzir e encantar os homens. Uma mulher incrvel, pensou com um sorriso afetuoso. Linda e vibrante, com cerca de 70 
anos, ainda podia dobrar um homem de qualquer idade. Bem, ela era uma Genvive, tambm. Gennie ps as mos nos quadris. E Grant Campbell estava prestes a cair de 
um alto penhasco.
Possuir-me, no?, pensou enervando-se de novo com a memria. Aquilo era absurdo. Quando ele estivesse pronto? Com um gemido abafado, ela pegou o avental de pintura. 
Teria Grant Campbell rastejando a seus ps antes que acabasse com ele!
A raiva e a indignao que Gennie tinha nutrido durante toda a noite ajudavam-na a esquecer a reao doce e poderosa que sentira quando Grant a beijara. Tornavam 
mais fcil esquecer o fato de que ela o quisera... cegamente, com desespero... como nunca quisera homem algum. Raiva era um sentimento muito mais satisfatrio do 
que depresso, portanto, sustentaria a raiva. Ela se vingaria com total frieza, o que teria um sabor ainda melhor.
Satisfeita por seu material de pintura estar em ordem, foi at o quarto do chal. Com olhos crticos, estudou-se no espelho acima da velha cmoda. Era artista o 
bastante para reconhecer uma boa estrutura corporal e colorao. Talvez a raiva suprimida lhe casse bem, considerou, e adicionou um blush rosado ao tom dourado 
de sua pele.
To cruelmente quanto um guerreiro se preparando para uma batalha, pegou um estojo de sombra verde. Quando voc tem feies incomuns, deve real-las, pensou, espalhando 
a sombra nas plpebras. O resultado a agradou... um pouco extico, mas no to bvio. De leve, coloriu os lbios com um batom... no muito forte, apenas o bastante 
para tentar. Com um sorriso preguioso, borrifou seu perfume atrs das orelhas. Oh, pretendia tent-lo bastante. E quando ele estivesse de joelhos, ela partiria 
alegremente.
Uma pena que no poderia usar uma roupa mais sexy, refletiu quando comprimiu os lbios e virou-se de lado no espelho. Mas a pintura vinha em primeiro lugar, afinal 
de contas. No podia usar uma roupa colada ao corpo para se sentar em uma pedra. A cala jeans e um top curtinho teriam de servir. Satisfeita com os planos para 
o dia, Gennie voltou para sala a fim de pegar o seu material, quando o som de um carro se aproximando a distraiu.
Seu primeiro pensamento foi Grant, e sua primeira reao, uma onda de nervosismo. Irritada, disse a si mesma que era simplesmente a expectativa de uma competio 
que fazia seu corao disparar. Quando foi para a janela, viu que no era a picape de Grant, mas um pequeno carro com a lataria amassada. A viva Lawrence desceu, 
carregando um prato coberto. Surpresa, e um pouco sem graa, Gennie abriu a porta para a proprietria do chal.
- Bom dia. - Ela sorriu, tentando ignorar a estranheza de convidar para entrar uma mulher que tinha vivido, dormido e trabalhado ali por anos.
- Vejo que voc est acordada e pronta para comear o dia. -A viva movimentou-se na soleira, fixando seus pequenos olhos escuros no rosto de Gennie.
- Sim. - Gennie teria estendido a mo instintivamente se a viva no estivesse usando as dela para segurar o prato. - Por favor, entre, sra. Lawrence.
- No quero incomod-la. Achei que talvez voc gostaria de algumas rosquinhas.
- Eu gostaria. - Gennie esqueceu os planos de comear o dia cedo e abriu mais a porta para a viva. - Especialmente se a senhora tomar um caf comigo.
- Claro. -A viva hesitou quase imperceptivelmente, e ento entrou. - No posso ficar muito tempo. Sou necessria no correio. - Mas o olhar dela vagou pelo cmodo 
quando parou, ainda perto da porta.
- O cheirinho est delicioso. - Gennie pegou o prato, e se dirigiu para a cozinha esperando amenizar um pouco o clima estranho. - Sabe, no gosto muito de cozinhar, 
quando  s para mim.
- Ah,  muito mais prazeroso quando voc tem uma famlia para alimentar.
Gennie sentiu uma outra onda de compaixo, mas no a expressou. Ficou diante do fogo enquanto media o caf no pequeno pote que comprara na cidade. A viva estaria 
olhando a cozinha, pensou, e recordando.
- Voc se acomodou bem, ento.
- Sim. - Gennie pegou dois pratos e colocou-os sobre a pequena mesa dobrvel. - O chal era exatamente o que eu precisava.  lindo, sra. Lawrence. - Ela hesitou, 
enquanto pegava duas xcaras e pires. Ento, virou-se para a mulher novamente. -A senhora deve ter detestado sair daqui.
A sra. Lawrence deu de ombros.
- As coisas mudam. O telhado agentou bem a tempestade da outra noite?
Gennie quase disse que no estava l naquela noite, mas conteve-se a tempo.
- No tive problema nenhum - murmurou em vez disso. Ento, olhou ao redor. Talvez fosse melhor conversar sobre aquilo. Todos haviam dito isso sobre Angela, mas Gennie 
no acreditara na poca. Agora, comeou a se perguntar se ajudaria falar sobre uma perda, em vez de sufoc-la.
- Morou aqui muito tempo, sra. Lawrence? - Ela levou as xcaras para a mesa enquanto perguntava, ento pegou o leite.
- Vinte e seis anos - respondeu a mulher aps um momento. - Mudei-me depois que meu segundo filho nasceu. Ele  mdico-residente em Bangor - disse ela, erguendo 
o queixo com orgulho. - O irmo dele conseguiu um emprego numa companhia de petrleo... No conseguia ficar longe do mar.
Gennie acomodou-se  mesa.
- A senhora deve ter muito orgulho dos dois. -Sim.
- Seu marido era pescador?
- Pescador de lagostas. - Ela no sorriu, mas Gennie ouviu o sorriso na voz da viva. - Um bom pescador. Morreu no barco. Derrame, disseram. - A sra. Lawrence ps 
um pingo de leite no caf, apenas o bastante para mudar a cor. - Ele queria morrer no barco.
Gennie queria perguntar quanto tempo fazia, mas no podia. Talvez chegasse o momento em que fosse capaz de falar sobre a perda da irm com aceitao.
- A senhora gosta de viver na cidade?
- Estou acostumada agora. Tenho amigos l, e essa estrada... - Pela primeira vez, Gennie viu um pequeno sorriso que deixou o rosto rgido da mulher mais velha quase 
bonito. - Meu Matthew amaldioava essa estrada seis dias por semana.
- Acredito nisso. - Tentada pelo aroma, Gennie removeu o pano de prato xadrez que cobria a travessa. - Amoras! - Ela sorriu, satisfeita. - Vi amoreiras ao longo 
da estrada, da cidade para c.
- Ah, elas ficaro por aqui mais um tempo. - Ela observou com prazer quando Gennie mordeu uma rosquinha. - Uma garota jovem como voc deve se sentir solitria aqui.
Gennie meneou a cabea enquanto engolia.
- No, eu gosto da solido para pintar.
- Voc fez os quadros que esto pendurados na sala?
- Sim, espero que a senhora no se importe porque eu os pendurei.
- Sempre gostei de quadros. Seu trabalho  muito bom.
Gennie sorriu, to gratificada com a simples frase quanto ficaria com uma crtica entusiasmada.
- Obrigada. Planejo pintar bastante nos arredores de Windy Point, mais do que eu tinha esperado no comeo - acrescentou ela, pensando em Grant. - Se eu decidir ficar 
mais algumas semanas...
- Apenas informe-me.
- timo. - Gennie observou quando a viva quebrou um pequeno pedao da rosca. -A senhora deve conhecer o farol... -Ainda mastigando, perguntou a si mesma que informao 
exatamente queria conseguir.
- Charlie Dees costumava manter aquela estao - disse a sra. Lawrence. - Ele e a esposa a tinham desde que eu era criana. Usam radar agora, mas meu pai e o pai 
dele usavam aquela luz para manter os navios longe das pedras.
Havia histrias naquele local, pensou Gennie. Histrias que gostaria de ouvir, mas, por enquanto, era o dono atual que a interessava.
- Conheci o homem que mora l agora - murmurou ela casualmente sobre a borda da xcara de caf. - Vou pintar um pouco por l.  um lugar maravilhoso.
As sobrancelhas retas da viva se arquearam.
- Voc disse isso a ele?
Ento, Grant era conhecido na cidade, pensou Gennie.
- Ns... fizemos um acordo.
- O jovem Campbell est l h quase cinco anos. -A viva especulou o brilho nos olhos de Gennie, mas no fez nenhum comentrio. - Gosta de ficar sozinho. Costuma 
espantar alguns turistas muito rapidamente.
- Sem dvida - concordou Gennie. - Ele no  do tipo amigvel.
- Ele no gosta de muita confuso. - A viva lanou um rpido olhar astuto para Gennie. - Um rapaz muito bonito. Ouvi dizer que ele saiu de barco com os outros homens 
uma ou duas vezes, porm, mais observa do que fala.
Confusa, Gennie comeu o ltimo pedao da rosca.
- Ele no  pescador?
- No sei o que ele faz para viver, mas paga todas as contas em dia.
Gennie franziu o cenho, mais intrigada do que gostaria de estar.
- Isso  estranho. Tive a impresso... 
- Do qu?, perguntou-se. - Suponho que ele no receba muita correspondncia.
A viva deu-lhe um pequeno sorriso outra vez.
- Ele recebe a sua cota - disse ela simplesmente. - Obrigada pelo caf, srta. Grandeau - acrescentou se levantando. - Ficarei feliz em t-la aqui por quanto tempo 
quiser.
- Obrigada. - Sabendo que tinha de ficar satisfeita com as poucas informaes que obtivera, Gennie tambm se levantou.
- Espero que volte, sra. Lawrence. Assentindo, a viva foi para a porta da frente.
- Informe-me se tiver algum problema. Quando o tempo virar, voc vai precisar da fornalha. Funciona, mas  muito barulhenta.
- Lembrarei disso. Obrigada.
Gennie observou-a ir para o carro e pensou em Grant. Ele no era um deles, mas a sra. Lawrence deixara claro no tom que sentia um certo carinho por Grant. "Ele no 
gosta de muita confuso", e isso era algo que o povo de Windy Point obviamente respeitava. Cinco anos, refletiu ela enquanto voltava para as suas pinturas. Muito 
tempo para se isolar em um farol... fazendo o qu?
Dando de ombros, pegou o seu material. O que Grant fazia no era de sua conta. Faz-lo rastejar um pouco, era.
A nica refeio que Grant fazia regularmente era o caf da manh. Depois disso, comia qualquer coisa que queria, quando queria... ou quando seu trabalho permitia. 
Tinha comido de madrugada porque no conseguira dormir. Ento, sara de barco porque no conseguia trabalhar. Gennie, aconchegada na cama a poucos quilmetros de 
distncia, fora capaz de interferir em suas duas atividades mais bsicas.
Normalmente, ele teria gostado do passeio no mar to cedo, vendo o sol nascer com os pescadores e sentindo o ar frio na pele. Tentaria a sorte, e quem sabe, pegaria 
um peixe para o jantar. Caso contrrio, fritaria um bife ou abriria um enlatado.
No gostara do passeio naquela manh, porque quisera dormir... Depois, tinha desejado trabalhar. No estava com humor para pescar, e o passeio no fora um sucesso. 
O sol ainda estava baixo no cu quando retornara.
O sol estava alto agora, mas o humor de Grant no estava muito melhor. Somente a disciplina que vinha impondo a si mesmo atravs dos anos o manteve  sua prancheta 
de desenho, aperfeioando e refinando a histria em quadrinhos que havia comeado um dia antes.
A mulher o fizera sair do ritmo, pensou irritado. E sua imagem no saa de sua cabea. Grant freqentemente deixava as pessoas fazerem isso, mas eram as suas pessoas, 
sobre as quais possua controle total. Gennie recusava-se a permanecer no personagem.
Genvive, pensou enquanto pintava meticulosamente os longos cabelos de Vernica. Ele tinha admirado o trabalho dela, a falta do uso de truques, sua classe inata. 
Ela pintava com estilo, e havia sempre uma dica de extrema paixo sob uma cobertura nebulosa de fantasia. Os quadros de Genvive o convidavam a fingir, a imaginar, 
a acreditar em alguma coisa adorvel. Grant jamais vira nada de errado naquilo.
Lembrava-se de ter visto uma das paisagens da nascente de um rio que sempre aparecia em destaque nas exposies de Genvive Grandeau. As sombras prometiam segredos, 
a luz azul escura falava de uma noite repleta de possibilidades. Havia neblina sobre a gua que o fizera pensar em sussurros abafados. A pequena casa acima do rio 
no parecia em runas, mas lindamente antiga e desbotada. A serenidade da pintura o agradara, e a iluminao especial que ela usara, o divertira. Recordava-se de 
ter ficado desapontado porque o trabalho j tinha sido vendido. Nem mesmo teria perguntado o preo.
A paixo latente nos trabalhos de Genvive fazia um contraste sutil com a serenidade dos temas. A fantasia sempre falava alto.
Ela possua paixo o bastante em sua vida pessoal, lembrou-se Grant, comprimindo os lbios. Se no a tivesse conhecido, ou no a tivesse tocado, teria mantido a 
opinio de que a maior parte das coisas que a mdia falava sobre a vida pessoal dela era bobagem, como a prpria Gennie afirmara.
Mas, agora, s conseguia pensar que todo homem que se aproximasse de Genvive Grandeau a desejaria. E que a paixo que ela colocava em suas pinturas existia dentro 
dela. Ela sabia como tornar um homem seu escravo, pensou ele, e forou-se a completar o desenho de Vernica. Sabia e gostava de fazer isso.
Grant largou o pincel por um momento e flexionou os dedos. Pelo menos, tinha a satisfao de saber que a tirara de sua vida.
No pode evitar uma risada melanclica. Se isso fosse verdade, no estaria ali se lembrando de como ela ficara ardente em seus braos... irrequieta, perigosa. No 
estaria recordando como sua mente tinha ficado em branco por um instante, para, ento, ser preenchida... somente com ela.
Uma sereia? Por Deus, sim, pensou de forma selvagem. Era fcil imagin-la sorrindo, cantando e seduzindo um homem para alguma costa rochosa. Mas no ele. Grant no 
era um homem que se deixava enfeitiar por uma voz sedutora e um par de olhos encantadores. Depois da forma como agira, duvidava que ela voltasse l. Ele olhou em 
direo  janela, mas se recusou a ir at l. Pegou seu pincel e trabalhou por mais uma hora, com Gennie perseguindo seus pensamentos sem descanso.
Satisfeito por finalmente terminar a histria em quadrinhos no prazo, Grant limpou os pincis. Porque a prxima j estava pronta em sua mente, seu humor melhorou. 
Com uma meticulosidade que no aplicava em nenhuma outra rea de sua vida, arrumou o estdio. Os materiais foram recolocados de forma precisa dentro e sobre os gabinetes 
com tampo de vidro que ficava ao seu lado. Garrafas e potes foram lavados, embrulhados e guardados. Sua cpia permaneceria na prancheta at secar bem.
Sem pressa, Grant desceu para a cozinha, a fim de procurar algo para comer, enquanto mantinha o rdio porttil ligado, informando-o sobre o que estava acontecendo 
no mundo externo.
Uma meno ao Comit de tica e a um senador que Grant no resistia a satirizar, deu-lhe uma boa idia para outra tira. Era verdade que seu uso de nomes e rostos 
reconhecveis, geralmente na poltica, fazia com que alguns jornais colocassem seu trabalho na pgina editorial. Grant no se importava com o lugar onde eles publicavam 
seus quadrinhos, contanto que sua mensagem fosse passada. Caricaturar polticos tinha se tornado um hbito quando ele era criana... um que nunca tivera a menor 
inclinao de abandonar.
Apoiando-se contra o balco, preguiosamente esvaziando um pacote de bolachas de amendoim, ouviu o resto da notcia. Ter conscincia das tendncias e dos acontecimentos 
era to essencial ao seu trabalho quanto caneta e tinta. Ele se lembraria dos detalhes quando a hora certa de usar o fato chegasse. Por enquanto, armazenou as informaes 
no fundo da mente. Agora precisava de ar e sol.
Sairia, Grant disse a si mesmo, no porque esperava ver Gennie... mas porque esperava no v-la.
 claro, ela estava l, mas ele queria acreditar que a tempestade interior que sentia era irritao. Era sempre irritao que sentia... nunca prazer... quando descobria 
algum invadindo sua solido.
No seria difcil ignor-la. O vento levantava os cabelos dela, expondo o pescoo elegante. Ele podia simplesmente ir para o outro lado, andar para o norte da praia... 
O sol batia no rosto e nos braos dela, fazendo a pele brilhar. Se ele virasse a cabea e caminhasse para o outro lado da rocha, esqueceria at mesmo que Gennie 
estava l.
Praguejando baixinho, foi em direo a ela.
Gennie o vira,  claro, no momento em que ele tinha sado. Seu pincel hesitara apenas por um instante antes que continuasse a pintar. Se a pulsao acelerou um pouco, 
disse a si mesma, era apenas a expectativa da batalha na qual estava ansiosa para engajar-se... e vencer. Porque sabia que no podia continuar, agora que havia perdido 
a concentrao, bateu aponta do pincel nos lbios e estudou o que tinha feito naquela manh.
O esboo na tela deu-lhe precisamente o que queria. As cores que j misturara a satisfaziam. Comeou a cantarolar, baixinho, enquanto ouvia Grant se aproximar.
- Ento - Gennie ergueu a cabea, como se para ver a tela de um ngulo diferente -, voc decidiu sair de sua caverna.
Grant enfiou as mos nos bolsos e deliberadamente parou onde no podia ver o trabalho dela.
- Voc no me pareceu o tipo de mulher que procura problemas.
Mal mudando o ngulo da cabea, Gennie encontrou-lhe os olhos. Seu sorriso era muito fraco, e muito provocador.
- Suponho que isso faz de voc um mau juiz de carter, no faz?
O olhar era calculado para excitar, mas saber disso no fez nenhuma diferena. Grant sentiu a primeira onda de desejo espalhar-se no baixo ventre.
- Ou voc  uma tola - murmurou ele.
- Eu lhe disse que voltaria, Grant. - Ela permitiu que seu olhar viajasse brevemente pela boca dele. - Geralmente, tento... terminar o que comeo. Gostaria de ver 
o que fiz?
Ele disse a si mesmo que no dava a mnima para a pintura, ou para ela.
- No.
Gennie fez um biquinho.
- Oh, e pensei que voc fosse um conhecedor de arte. Ela largou o pincel e passou uma das mos preguiosamente pelos cabelos. - O que voc , Grant Campbell? - Os 
olhos eram zombeteiros e sedutores.
- O que escolho ser.
- Sorte sua. - Ela se levantou. Devagar, tirou o avental de mangas curtas e colocou-o sobre a pedra a seu lado. Observou-o enquanto os olhos de Grant viajavam pelo 
corpo dela, ento deslizou um dedo sobre a frente da camisa masculina. - Devo lhe contar o que vejo? - Ele no respondeu, mas continuou olhando-a fixamente. Gennie 
imaginou que, caso pressionasse a mo no corao de Grant, encontraria as batidas aceleradas e instveis. - Um solitrio, com o rosto de um pirata e as mos de um 
poeta - murmurou. - E as atitudes de um homem rstico - acrescentou com uma risada suave. - Parece-me que suas atitudes rudes so tudo o que voc escolheu demonstrar.
Era difcil resistir ao brilho de desafio nos olhos dela, ou  promessa naqueles lbios carnudos e suaves, que sorriam com calculada insolncia feminina.
- Se voc gosta. - Grant disse suavemente enquanto mantinha as mos, que cocavam de vontade de toc-la, firmemente enfiadas nos bolsos.
- No posso dizer que gosto. - Gennie se afastou alguns passos, perto o bastante da beira da rocha para que os espirros da gua quase a alcanassem. - Ento, mais 
uma vez, suas maneiras so atraentes de maneira rude. - Ela olhou por sobre o ombro. - Suponho que uma mulher nem sempre queira um cavalheiro. E voc no parece 
um homem que procura por uma dama.
Com o mar atrs, refletindo a cor dos olhos dela, Gennie parecia mais parte do oceano do que nunca.
-  isso que voc , Genvive?
Ela riu, satisfeita com a frustrao e a fria que leu nos olhos dele.
- Depende se isso  til ou no - replicou Gennie, imitando-o.
Grant se aproximou, mas, ento, resistiu ao desejo de sacudi-la. Os corpos de ambos estavam to prximos, que pouco mais do que o vento podia passar entre os dois.
- O que voc est tentando fazer? Ela lhe lanou um olhar inocente.
- Bem, conversar. Suponho que voc est sem prtica. Ele estreitou os olhos, ento se virou.
- Vou dar uma caminhada - murmurou.
- tima idia. - Gennie enganchou o brao no dele. - Vou com voc.
- Eu no a convidei - disse Grant, parando.
- Oh. - Gennie bateu os clios. - Voc est tentando me encantar sendo rude novamente.  to difcil resistir!
Um sorriso cruzou os lbios de Grant antes que pudesse reprimi-lo. Podia rir facilmente de si mesmo.
- Tudo bem, ento. - Havia um brilho nos olhos escuros no qual ela no confiava muito. - Vamos.
Grant andou com rapidez, sem se importar com a diferena dos passos deles. Determinada a faz-lo sofrer antes que a tarde acabasse, Gennie esforou-se para acompanh-lo. 
Depois que eles circularam o farol, Grant comeou a descer a rocha com a confiana de uma longa experincia. Gennie deu uma olhada para a descida acentuada, para 
a cordilheira de pedras em que Grant andava com facilidade, como se estivesse descendo os degraus de uma escada. Abaixo, as ondas estouravam e batiam na praia. No 
iria ser intimidada, ela disse a si mesma. Ele adoraria aquilo. Respirando fundo, seguiu-o.
Aps os primeiros passos, o corao de Gennie j estava disparado. Realmente o faria sofrer se casse e quebrasse o pescoo. Ento, comeou a apreciar a caminhada. 
O mar ficava mais barulhento conforme descia. Pingos salgados espirravam-lhe na pele. Sem dvida, haveria um caminho mais simples para descer, mas, no momento, ela 
no o teria procurado.
Grant chegou  base a tempo de ver Gennie lutando para dar os ltimos passos. Quisera acreditar que ela ainda estava no topo do rochedo, embora soubesse que no 
seria assim. A mulher no era uma magnlia, por mais que ele quisesse encaix-la nessa categoria. Possua vitalidade demais para ser admirada  distncia.
Instintivamente, pegou-lhe a mo para ajud-la a descer. Gennie roou o corpo contra o dele na descida e, em seguida, ergueu-se inclinando a cabea para trs e desafiando-o 
a reagir de alguma forma  sua provocao. O aroma feminino preencheu os sentidos de Grant. Antes, s sentira nela o cheiro de chuva. Este era bastante sutil, mas 
em compensao era infinitamente mais sensual. Gennie possua a fragrncia da noite em plena luz da tarde, e de todas aquelas promessas sussurradas que floresciam 
aps o sol se pr.
Furioso por ser vulnervel a uma ttica de seduo to bvia, Grant a liberou. Sem uma palavra, comeou a descer para a praia estreita de pedras, onde o mar ecoava 
violentamente e as gaivotas gritavam. Orgulhosa e confiante por seu sucesso, Gennie o seguiu.
Oh, estou mexendo com voc, Grant Campbell. E nem comecei ainda.
-  isso que voc faz com o seu tempo quando no est trancado em sua torre secreta?
-  isso que voc faz com o seu tempo quando no est nos lugares da moda da rua Bourbon?
Jogando os cabelos para trs, Gennie deslizou o brao no dele novamente.
- Oh, falamos bastante sobre mim, ontem. Conte-me sobre Grant Campbell. Voc  um cientista maluco trabalhando em experincias secretas para o governo?
Ele virou a cabea e deu-lhe um sorriso estranho.
- No momento, estou colecionando selos.
Aquilo a intrigou a tal ponto que a fez esquecer do jogo-
- Por que sinto que h alguma verdade nisso? Dando de ombros, Grant continuou a andar, perguntando-se por que no a mandava embora e seguia sua caminhada sozinho. 
Quando ia ali, estava sempre sozinho. Alm de dormir, a nica outra hora que permitia-se esvaziar a mente era quando fazia caminhadas ao longo daquela praia isolada. 
L, onde as ondas estouravam como troves, e o solo era duro e imperdovel, era o refgio de seus pensamentos e da presso auto-imposta. Nunca permitira que ningum 
o acompanhasse at l, nem mesmo seus prprios personagens. Esperava, queria at a sensao da intruso de Gennie naquele lugar. Em vez disso, sentiu algo muito 
prximo de contentamento.
- Um lugar secreto - murmurou Gennie. Distrado, Grant a fitou.
- O qu?
- Este. - Ela gesticulou com a mo livre. - Este  um lugar secreto. - Abaixando-se, pegou uma concha, colocada ali pelo oceano, seca como um osso no sol. - Minha 
av tem uma linda casa de fazenda repleta de antigidades c almofadas de seda. H um sto muito escuro e empoeirado. Tem uma cadeira de balano e uma caixa cheia 
de coisas inteis. Eu podia ficar sentada l por horas. - Olhando-o novamente, sorriu. - Nunca fui capaz de resistir a um lugar secreto.
Grant recordou-se, de modo sbito e vivido, de um pequeno depsito na casa de seus pais em Georgetown. Costumava fechar-se l por horas, com uma pilha de revistas 
em quadrinhos e um bloco de desenho.
- S  um segredo se ningum sabe. Ela riu, pegando-lhe a mo sem pensar.
- Oh, no, ainda pode ser um segredo de duas pessoas. s vezes,  um segredo ainda melhor. - Gennie parou para ver uma gaivota voando baixo, sobre a gua. - O que 
h naquelas ilhas ali?
Perturbado, porque a mo de Gennie parecia pertencer  sua, Grant olhou para o mar.
- Pedaos de pedra, na maior parte.
- Oh. - Gennie lhe lanou um olhar desolado. - Sem ossos branqueados ou pedaos de barco de oito remos?
Ele sorriu.
- Dizem que um esqueleto geme quando h uma tempestade... - murmurou Grant com um forte sotaque do leste.
- Esqueleto de quem? - perguntou Gennie, pronta para ouvir qualquer histria que ele pudesse contar.
- De um marinheiro - improvisou Grant. - Ele se encantou pela mulher do capito, que tinha os olhos da cor do mar e os cabelos pretos como a noite. -Apesar de seus 
esforos, Grant pegou um punhado dos cabelos de Gennie, enquanto o resto balanava com o vento. - Ela o tentou, fazendo-lhe promessas suaves e perversas, para que 
ele roubasse o ouro e a lancha de salvamento. Quando o marinheiro fez isso, porque ela era uma mulher que podia levar um homem a matar apenas com um olhar, ela partiu 
com ele. - Grant sentiu os cabelos de Gennie enrolarem-se em seus dedos como se tivessem vida prpria. Ento -, ele remou por dois dias e duas noites, sabendo que 
quando chegassem em terra, teria a mulher. Mas no momento em que eles avistaram a costa, ela sacou um sabre e cortou-lhe a cabea. Agora, o esqueleto do homem fica 
sentado nas pedras e geme de desejo frustrado. Divertida, Gennie inclinou a cabea.
- E a mulher?
- Investiu o ouro, dobrou seu patrimnio e tornou-se um pilar da comunidade.
Rindo, Gennie recomeou a andar com ele.
- A moral parece ser: nunca se deve confiar em uma mulher que faz promessas.
- Certamente no em uma linda mulher.
- Voc j teve a cabea cortada, Grant? Ele deu uma risada curta e admirada.
- No.
- Uma pena. - Ela suspirou. - Suponho que isso significa que voc tem o hbito de resistir s tentaes.
- No  necessrio resistir - replicou ele. - Contanto que voc mantenha os olhos abertos.
- No h romance nisso - reclamou Gennie.
- Tenho outros usos para minha cabea, obrigado. Ela lhe lanou um olhar pensativo.
- Coleo de selos?
- Entre outros.
Eles andaram em silncio novamente, enquanto o mar movimentava-se bem perto. Do outro lado, as pedras erguiam-se como uma parede. Ao longe, na gua, podia-se avistar 
alguns barcos. Aquele pequeno sinal de humanidade adicionava um senso de espao e isolamento.
- De onde voc vem? - perguntou ela impulsivamente.
- Do mesmo lugar que voc.
Gennie levou um minuto para entender, ento riu.
- No estou falando biologicamente, mas sim geograficamente.
Ele deu de ombros, tentando no ficar satisfeito com a rapidez de raciocnio de Gennie.
- Do sul daqui.
- Oh, isso  especfico - murmurou ela, ento tentou de novo: - E quanto  sua famlia? Voc tem famlia?
Ele parou para estud-la.
- Por qu?
Com um suspiro exagerado, Gennie meneou a cabea.
- Isso se chama ter uma conversa amigvel.  uma nova tendncia em todos os lugares do mundo.
- Sou um no-conformista.
- No! Verdade?
- Voc faz essa expresso ingnua muito bem, Genvive.
- Obrigada. - Ela virou uma concha na mo, ento o fitou com um sorriso lento. - Vou lhe contar alguma coisa sobre minha famlia, s para incentiv-lo a comear. 
- Gennie considerou por um momento, ento pensou em algo com que Grant pudesse se identificar. - Tenho um primo, que algumas vezes costumava se isolar. Sempre o 
considerei o membro mais fascinante da famlia, embora ele no seja exatamente um Grandeau.
- E o que ele ?
- A ovelha negra - disse ela com contentamento. - Ele sempre fez as coisas de seu prprio jeito, nunca se importando sobre o que os outros pensavam. De vez em quando, 
eu ouvia histrias sobre ele, embora eu no devesse, e somente quando me tornei adulta foi que o conheci. Fico feliz em dizer que ns nos demos bem em poucos minutos 
e mantivemos contato nos ltimos anos. Ele viveu de expedientes e se deu muito bem... o que chocou alguns membros mais srios da famlia. Ento, confundiu a todos 
se casando.
- Com uma danarina extica.
- No. - Ela riu, satisfeita porque ele estava interessado o bastante para brincar. - Com algum absolutamente adequada... inteligente, instruda, rica. - Gennie 
fez uma careta. - A ovelha negra, que passou algum tempo na cadeia, fez uma fortuna em mesas de jogos, superou a expectativa de todos. - Com uma risada, pensou no 
Co-manche Blade. O primo Justin tinha mesmo superado todos. E nem mesmo era prepotente.
- Adoro um final feliz - disse Grant secamente. Estreitando os olhos, Gennie voltou-se para ele.
- No sabe que quanto menos voc conta s pessoas, mais elas querem saber?  melhor inventar alguma coisa do que no falar nada.
- Sou o mais novo de doze filhos de dois missionrios sul-africanos - declarou ele com tanta naturalidade que ela quase acreditou. - Quando eu tinha seis anos, fiquei 
vagando pela floresta e fui adotado por um bando de lees. Ainda gosto da carne de zebra. Ento, quando eu tinha 18 anos, fui capturado por caadores e vendido para 
um circo. Por cinco anos, fui a principal atrao.
- O menino-leo... - murmurou Gennie.
- Naturalmente. Uma noite, durante uma tempestade, a tenda pegou fogo. Na confuso, eu fugi. Vivendo da terra, fiquei vagando pelo pas... roubando algumas galinhas 
de vez em quando. Finalmente, um velho eremita me recolheu depois que o salvei de um urso.
- Com as mos vazias - acrescentou Gennie.
- Eu estou contando a histria - Grant a relembrou. - Ele me ensinou a ler e a escrever. No seu leito de morte, contou-me onde tinha enterrado suas economias de 
uma vida... um quarto de milho em barras de ouro. Depois de dar-lhe o funeral viking que ele pediu, tive de resolver se seria um corretor da bolsa de valores ou 
voltaria para a floresta.
- Ento, voc decidiu contra o mercado de aes, veio para c e comeou a colecionar selos.
- Mais ou menos isso.
- Bem - disse Gennie aps um momento -, com uma histria tediosa dessas, posso entender porque voc a guarda para si mesmo.
- Voc perguntou - apontou Grant.
- Voc poderia ter inventado alguma coisa.
- No tenho imaginao.
Ela riu, ento encostou a cabea no ombro dele.
- No, posso ver que voc possui uma mente muito literal.
A risada dela contra a pele de Grant e a intimidade casual de sua cabea sobre o ombro dele abalaram-no de alto a baixo. Devia afast-la, disse a si mesmo. No podia 
estar andando l com Gennie, e gostando disso.
- Tenho coisas para fazer - falou ele abruptamente. - Podemos subir por aqui.
Foi o tom rspido da voz que lembrou Gennie de que tinha ido l com um propsito, e o propsito no era acabar gostando dele.
A subida seria mais fcil do que a descida, notou ela quando ele virou-se em direo ao que era agora uma ladeira, em vez de uma rocha. Embora os dedos msculos 
estivessem frouxos nos seus, ela os prendeu, enviando-lhe um sorriso que o fez praguejar baixinho enquanto a ajudava a escalar. Pensando rapidamente, Gennie guardou 
a concha no bolso traseiro da cala. Quando se aproximaram do topo, estendeu-lhe a outra mo. Com os olhos apertados contra o sol, os cabelos em suas costas, encarou-o. 
Resmungando, Grant pegou-lhe a outra mo e puxou-a nos ltimos passos.
J ao nvel do solo, ela se aproximou, o corpo roando i"dele, enquanto as mos de ambos permaneciam unidas. A respirao de Grant no se alterara durante a subida, 
mas agora estava acelerada. Sentindo uma onda de satisfao, Gennie deu-lhe um sorriso preguioso.
- Vai voltar para os seus selos? - murmurou ela. Deliberadamente, inclinou-se para mais perto e roou os lbios no queixo dele. - Divirta-se. -Afastando as mos, 
virou-se. Deu trs passos, antes que ele lhe segurasse o brao. Embora o corao estivesse disparado, Gennie olhou-o por sobre o ombro. - Quer alguma coisa? - perguntou 
com uma voz baixa e divertida.
Podia ver a luta por controle estampada no rosto de Grant. E nos olhos escuros, viu uma chama de desejo que fez sua garganta secar. No, no iria recuar agora, disse 
a si mesma. Terminaria o jogo. Quando ele a puxou para si, Gennie tentou se convencer que no era medo que sentia, no era paixo. Era apenas auto-gratificao.
- Parece que voc quer - disse ela com uma risada, levando as mos para as costas largas.
Quando Grant beijou-a, sua mente girou. Todos os planos, todos os pensamentos de vingana desapareceram. Foi como da primeira vez... a paixo, e, alm da paixo, 
a sensao de estar fazendo a coisa certa e, em seguida, uma tempestade de necessidades e desejos confusos. Entregar-se a ele era to natural, que ela o fez sem 
pensar duas vezes, e com uma simplicidade que provocou um gemido de Grant quando a puxou para mais perto.
A lngua dele provou-lhe os lbios antes de se entrelaar com a dela, enquanto as mos fortes moldavam os quadris arredondados. Gennie soube o quanto aquelas mos 
eram fortes. Sua pele arrepiou-se com a imagem de ser tocada sem barreiras, mesmo enquanto a boca procurava absorver tudo que ele podia lhe dar atravs de um nico 
beijo. Gennie pressionou-se contra o corpo msculo, oferecendo, exigindo, e parecia que Grant no podia dar ou receber rpido o bastante para satisfazer a ambos.
No foi at comear a sentir fraqueza que Gennie lembrou-se de temer. Aquele no era objetivo, era? No podia acreditar que comeara aquilo para sentir esse prazer 
assustador, o desejo devastador de se entregar, o que nunca tinha acontecido antes. Uma onda de pnico a assolou e Gennie lutou contra ela, mas sabia o quanto seria 
incapaz de deter o desejo. Precisava det-lo, deter a si mesma. Se Grant continuasse a segur-la por mais tempo, ela se derreteria. E se perderia.
Usando as poucas foras que lhe restavam, afastou-se, determinada a no demonstrar nem a paixo nem o medo que a consumiam. 
- Muito bom - murmurou ela, rezando para que ele no notasse como sua voz estava ofegante. - Embora sua tcnica seja um pouco... rude para o meu gosto.
A respirao de Grant estava acelerada. Ele no falou, sabendo que se o fizesse, a raiva transpareceria. Pela segunda vez, ela o esvaziara, e ento o preenchera 
novamente com ela mesma. Um forte desejo por Gennie, nico e penetrante, o percorreu enquanto fitava-lhe os olhos e esperava que a paixo se acalmasse. Nada aconteceu.
Era mais forte do que ele, disse a si mesmo quando agarrou a blusa de Gennie nas mos. O corao dela batia descompassado contra seus dedos. No havia nada que o 
impedisse de... Grant baixou as mos, embora a mulher o deixasse em brasas. Ningum o pressionava quilo, pensou furioso enquanto ela continuava encarando-o. Ningum.
- Voc est andando em um terreno perigoso, Genvive - murmurou ele suavemente.
Ela jogou a cabea para trs.
- Estou usando sapatos seguros. - Com um meio sorriso, ela virou-se, contando cada passo enquanto voltava para seu trabalho. Talvez, as mos no estivessem firmes 
quando guardou o material de desenho. Talvez o sangue estivesse soando em seus ouvidos. Mas tinha vencido o primeiro round. Soltou a respirao quando ouviu a porta 
do farol bater com fora.
O primeiro round, repetiu, desejando que no estivesse to ansiosa pelo prximo.



Cinco


Grant conseguiu evitar Gennie por trs dias. Ela voltou para pintar todas as manhs, e, embora trabalhasse por horas, no via nem sinal dele. O farol estava silencioso, 
as janelas cintilando inexpressivamente ao sol.
Certo dia, o barco de Grant no estava l quando ela chegou, e no retornou at que Gennie perdesse a luz de que precisava para pintar. Ficou tentada a descer a 
rocha e andar ao longo da praia  qual ele a levara. Descobriu que seria mais fcil ir  casa dele sem ser convidada do que ir para aquele local particular sem o 
conhecimento de Grant. Mesmo se quisesse pintar l, a sensao de invaso a teria impedido.
Ela pintou em paz, decidida a no pensar nele. Mas a pintura em si o mantinha alojado em sua mente. Jamais poderia ver aquele lugar, na tela ou na realidade, sem 
v-lo, tambm. O local era de Grant, absolutamente, como se ele tivesse sido talhado nas pedras ou jogado ali pelo mar. Gennie podia sentir a fora da personalidade 
dele enquanto guiava o pincel, e o desafio da mesma enquanto se esforava para colocar na tela o que deveria ter sido apenas a emoo da natureza.
Mas no seria apenas a natureza, descobriu enquanto pintava o mar e as ondas. Apesar de a forma de Grant no estar na tela, sua substncia estaria. Gennie sabia 
que deixava uma partcula de si mesma em cada uma de suas telas. Nesta, capturaria uma parte de Grant, tambm. Nenhum dos dois tinha escolha.
De alguma maneira, saber disso a fez criar algo com fora total. A pintura a excitava. Sabia que precisava pintar aquela vista, e pint-la bem. E sabia que, quando 
estivesse pronta, a daria para Grant. Porque jamais poderia pertencer a outra pessoa.
Seria um smbolo de afeio, disse a si mesma, ou uma oferta de amizade. Era simplesmente alguma coisa que tinha de ser feita. Nunca seria capaz, em s conscincia, 
de vender aquela tela. E se a mantivesse para si mesma, ele a perseguiria. Ento, antes de deixar Windy Point, daria esse presente a Grant. Quem sabe, de seu prprio 
jeito, ele o perseguiria ento.
Suas manhs foram preenchidas com o impulso de finalizar a tela, uma urgncia que tinha de bloquear repetidas vezes, a menos que quisesse perder alguma coisa vital 
no processo. Gennie sabia o quanto era importante mover-se lentamente, absorver tudo ao seu redor e dar isso  pintura. Durante as tardes, forava-se a guardar o 
material, de modo que no trabalhasse mais tempo do que deveria e ignorasse a mudana da luz.
Ento, esboava sua pequena enseada e planejava uma aquarela, enquanto ansiava pela chegada da prxima manh, quando poderia voltar para o mar.
Sua inquietao a levou de volta  cidade. Era hora de fazer alguns esboos l, decidir o que iria pintar, e de que maneira. Disse a si mesma que precisava ver pessoas 
novamente para evitar que sua mente continuasse se focando em Grant.
No meio da tarde, Windy Point era uma cidade silenciosa e tranqila. Os barcos estavam no oceano, e um sol brumoso esquentava o ar. Ela viu uma mulher sentada na 
varanda, escolhendo feijes, enquanto uma criana arrancava trevos no jardim.
Gennie parou o carro no fim da rua e comeou a andar. Podia desenhar as casas, os jardins. Podia reunir impresses que os faria ganhar vida outra vez, quando comeasse 
a pintar. Aquele era um mundo diferente da poderosa estao de Windy Point, diferente ainda da enseada calma atrs de seu chal, mas estavam todos conectados. O 
mar locava todos eles de maneiras distintas.
Ela passeou, alegre por ter ido at ali, embora s ouvisse vozes de estranhos. Era uma cidade de que se lembraria mais claramente que de outras que havia visitado 
cm seu tour pela Nova Inglaterra. Contudo, era o mar que continuava a fascin-la mais do que tudo... e o homem que morava l.
Quando o veria de novo?, perguntou-se, forando-se ;i admitir que sentia a falta dele. Sentia falta da expresso mal-humorada e das palavras breves, do sorriso rpido 
e do humor surpreendente, da luz de cinismo divertido que via nos olhos escuros de vez em quando. E, embora fosse ainda mais difcil admitir, sentia falta daquela 
paixo furiosa que Grant lhe despertara to de repente.
Encostando-se contra a lateral de uma construo, perguntou-se se existiria um outro homem em algum lugar do mundo que a tocasse daquela maneira. No pde imaginar 
nenhum. Nunca procurara por um cavaleiro de armadura... eles significavam problemas em excesso, esperando uma donzela indefesa em troca. Gennie jamais seria indefesa, 
e o esprito e as maneiras de um cavaleiro, na maior parte das vezes, atrapalhavam um relacionamento inteligente. Grant Campbell nunca seria cavalheiresco, pensou, 
e uma moa indefesa o irritaria.
Recordando-se do primeiro encontro dos dois, ela riu. No, a ele no se importava em ser rejeitado por uma moa em perigo mais do que ser uma importava a ela. Supunha 
que, de ambos os lados, esse jeito de pensar tinha a ver com uma forte necessidade de independncia.
No, Grant no estava procurando por uma donzela, e ela no procurava por um cavaleiro, e muito menos queria encontrar ogros. Gennie pensou como Grant estava muito 
perto de se encaixar nessa categoria. No  que deixasse de gostar da companhia dos homens. S no queria um deles complicando a sua vida. Pelo menos no at que 
estivesse pronta. E certamente no queria se envolver com um ogro... Eles eram totalmente imprevisveis. Quem sabia quando a engoliriam inteira?
Meneando a cabea, Gennie olhou para baixo, surpresa ao perceber que no estava apenas pensando em Grant, mas o estava desenhando. Com os lbios comprimidos.
Ergueu o bloco para um estudo crtico. Uma boa semelhana, pensou. Os olhos dele estavam um pouco estreitos, escuros e intensos ao ponto de parecerem perigosos. 
As sobrancelhas estavam baixas, formando aquela fraca linha vertical que lhe dava um aspecto de dureza. Ela capturara o rosto magro com seus planos e sombras, o 
nariz aristocrtico e os cabelos desalinhados. E a boca...
A pequena onda de excitao no foi surpreendente, mas no era bem-vinda. Desenhara a boca de Grant como tinha visto antes que essa tocasse a sua... de modo sensual, 
rude. Sim, podia sentir o gosto tempestuoso mesmo agora, parada na cidade tranqila com cheiro de peixe e flores envelhecendo ao seu redor.
Fechando cuidadosamente o bloco, Gennie lembrou-se de que deveria se concentrar nas casas que fora desenhar, com o lpis preso atrs da orelha, atravessou a avenida 
para ir ao correio. O adolescente magrinho, do qual se recordava de sua primeira visita  cidade, virou-se para olh-la assim que Gennie entrou. Enquanto andava 
para o balco, ela sorriu-lhe, e observou-o sorrindo amplamente de volta.
- Will. - A sra. Lawrence colocou algumas cartas Nobre o balco. -  melhor voc levar a correspondncia do sr. Fairfield, antes que perca o seu emprego.
Sim, senhora. - Ele pegou as cartas, enquanto continuava a olhar para Gennie. Quando derrubou diversas no cho, Gennie abaixou-se para ajud-lo, e o garoto enrubesceu 
e comeou a gaguejar, nervoso.
- Will Turner! - repetiu a sra. Lawrence com o tom de mim professora impaciente. - Pegue essas cartas e v.
- Voc esqueceu uma, Will - disse Gennie amavelmente, e, ento, entregou-lhe o envelope. Com as faces vermelhas e os olhos fixos nela, Will foi tropeando para a 
porta e saiu.
A sra. Lawrence deu uma risada seca.
- No sei como ele no caiu no degrau.
- Suponho que devo me sentir lisonjeada. - Gennie considerou. - No me lembro de ter provocado um efeito to dramtico em algum antes.
- Idade estranha para um garoto, quando comea a notar que as mulheres tm o formato do corpo um pouco diferente.
Gennie riu, e apoiou-se no balco.
- Eu queria agradecer-lhe mais uma vez por ter ido ao chal naquele dia. Estive pintando no farol e no vim  cidade.
A sra. Lawrence olhou para o bloco de desenho que Gennie colocara sobre o balco.
- Desenhando por aqui?
- Sim. - Num impulso, Gennie abriu o bloco e folheou as pginas. - Foi a cidade que me interessou em primeiro lugar... o senso de permanncia e objetividade.
Com olhos crticos, a viva estudou os desenhos, enquanto Gennie mordiscava o lbio e esperava pelo veredicto.
- Ah! - exclamou ela por fim -, voc sabe com que se ocupar. - Com um dedo, voltou uma folha, ento estudou o desenho que Gennie fizera de Grant.
- Parece um pouco feroz - comentou ela, enquanto um pequeno sorriso cruzava-lhe os lbios.
- Ele  um pouco feroz, em minha opinio - respondeu Gennie.
- Bem, algumas mulheres gostam de um toque de vinagre em um homem. - Ela deu uma outra risada seca, e, pela primeira vez, os olhos eram mais amigveis do que astutos. 
- Sou uma delas. - Com uma olhada sobre o ombro de Gennie, a viva fechou o bloco. - Boa tarde, sr. Campbell.
Por um momento, Gennie olhou para a viva com a mesma perplexidade que Will a olhara. Percebendo a atitude dela, colocou a mo sobre o bloco agora fechado.
- Boa tarde, sra. Lawrence. -No momento em que ele se aproximou e parou no balco ao lado dela, Gennie sentiu o aroma do mar. - Genvive - disse Grant, dando-lhe 
um longo e enigmtico olhar.
Ele se perguntara quanto tempo mais agentaria antes que a visse de perto novamente. Houvera muitos momentos, nos ltimos trs dias, em que quase no fora capaz 
de resistir  vontade de ir at a janela de seu estdio para observ-la pintar. Tudo que o impedira de ir atrs de Gennie fora o reconhecimento de que, se a tocasse 
de novo, estaria pegando uma estrada da qual nunca mais poderia voltar. E no tinha muita certeza do que havia no lim dessa estrada.
Uma imagem do adolescente rubro e gaguejando passou pela mente de Gennie e ela endireitou a coluna.
- Ol, Grant. - Quando ela sorriu, foi cuidadosa para esconder o entusiasmo, e compensou-o com zombaria.
Pensei que voc estivesse hibernando.
- Estive ocupado - respondeu ele com tranqilidade. - No sabia que voc ainda estava por aqui. -Aquilo lhe deu a satisfao de ver irritao nos olhos dela, antes 
que conseguisse control-la.
- Estarei por perto por um bom tempo ainda.
A sra. Lawrence colocou uma pilha de correspondncia sobre o balco, seguida por outra de jornais. Gennie viu o remetente de Chicago no envelope de uma carta, e 
o logotipo do Washington Post antes que Grant recolhesse tudo.
- Obrigado.
Franzindo o cenho, Gennie observou-o sair do correio. Devia ter uma dzia de cartas e uma dzia de jornais. Cartas de Chicago, um jornal de Washington para um homem 
que vivia numa rocha deserta fora da cidade, que nem mesmo tinha um sinal de trnsito. O que ele...
- Um homem de aparncia bonita - comentou a sra. Lawrence atrs das costas de Gennie.
Murmurando qualquer resposta, Gennie foi para a porta.
- At logo, sra. Lawrence.
A sra. Lawrence bateu um dedo no balco, pensando que no havia tanta tenso no ar desde a ltima tempestade. Talvez uma outra estivesse para vir.
Intrigada, Gennie recomeou a andar. No era de sua conta por que um solitrio estranho recebia tantas cartas. Talvez ele somente fosse  cidade buscar a correspondncia 
uma vez por ms, mas aquele jornal era do dia anterior. Meneando a cabea, lutou contra a curiosidade. A verdadeira questo era que tinha sido capaz de marcar alguns 
pontos... mesmo se Grant tivesse sido o alvo.
Ela parou na esquina e fez um outro esboo rpido, enquanto dizia a si mesma que, em vez de pensar em Grant, deveria estar pensando nos mantimentos que necessitava 
comprar antes de voltar para o chal.
Mas sentia-se irrequieta novamente. O senso de ordem e paz, que encontrara depois de uma hora na cidade, havia desaparecido no momento em que ele entrara no correio. 
Queria reencontrar aquele sentimento antes de voltar para passar a noite sozinha.
Sem rumo, passeou pela rua, parando de vez em quando para ver uma vitrine. Estava quase no fim da cidade quando se lembrou do jardim da igreja. Desenharia l at 
que estivesse cansada o bastante para ir embora.
Uma caminhonete passou, talvez o terceiro veculo que Gennie via em uma hora. Aps esperar por ela, atravessou a rua. Caminhou pelo terreno pequeno e irregular do 
cemitrio, ouvindo a quietude. A grama estava to alta que se dobrava com a brisa. Acima, um grupo de gaivotas voava, sinalizando a direo do mar.
A cerca alta estava enferrujada e a pintura descascando. O lao da rainha Anne jazia entre os dois pilares. A igreja em si era pequena e branca, com um nico painel 
de vidro colorido no V do telhado. As janelas eram de vidro transparente, e a porta era slida e marcada pelo tempo. Gennie andou at a lateral e se sentou onde 
a grama tinha sido recentemente cortada. Ainda podia sentir o cheiro no ar.
Por um momento, perguntou-se como era possvel que um pequeno pedao no mapa pudesse ter tanta coisa que exigisse ser pintada. Ela poderia facilmente passar seis 
meses l, em vez de seis semanas, e nunca capturaria tudo o que quisesse.
A inquietao evaporou quando comeou a pintar. Talvez no fosse capaz de transferir tudo para leos e aquarelas antes de partir, mas teria os esboos. Depois de 
alguns meses, poderia us-los e voltar a Windy Point quando sentisse necessidade.
Virou a pgina para comear um segundo esboo quando uma sombra caiu sobre o papel. O corao disparou, a temperatura do corpo pareceu aumentar. Sabia quem estava 
em p diante dela. Sombreando os olhos, fitou Grant.
- Bem, duas vezes em um dia - murmurou ela suavemente.
- Cidade pequena. - Ele apontou para o bloco. - Voc acabou na Estao?
- No, a iluminao no  boa a essa hora do dia para o que eu quero l.
Era irritao que Grant deveria sentir, no alvio. Casualmente, sentou-se no gramado ao lado dela.
- Ento, agora voc vai imortalizar Windy Point.
- Do meu prprio jeito - disse ela secamente, e comeou a esboar de novo. Estava feliz por que ele aparecera? No sabia, de alguma maneira, que isso aconteceria? 
-Ainda brincando com selos?
- No, tenho me dedicado  msica clssica. - Ele apenas sorriu quando ela virou-se para encar-lo. - Voc deve conhecer bem, imagino. Um pouco de Brahms aps o 
jantar.
- Prefiro Chopin. - Ela bateu o lpis no queixo. - O que voc fez com sua correspondncia?
- Guardei.
- No notei a sua caminhonete.
- Eu vim de barco. - Pegando o bloco de desenho, ele voltou  primeira pgina.
- Para algum que aprecia tanto a privacidade - comeou ela irritada -, voc tem pouco respeito pela dos outros.
- Sim. - Sem cerimnia, ele empurrou-lhe a mo quando Gennie tentou pegar o bloco. Enquanto ela se corroa de raiva em silncio, Grant folheou o bloco, pausando, 
ento continuando at que chegou ao desenho dele mesmo. Estudou-o por um momento, sem uma palavra, ento a surpreendeu com um sorriso.
- Nada mau - comentou ele.
- Estou impressionada com seu elogio.
Ele considerou-a por um momento, ento agiu por impulso.
- Um merece outro.
Tirando o lpis da mo dela, Grant virou as pginas at chegar a uma em branco. Para o espanto de Gennie, comeou a desenhar com a confiana de uma pessoa com longa 
prtica. Boquiaberta, olhou-o enquanto ele assobiava e traava linhas e curvas sobre o papel. Os olhos de Grant se estreitaram de leve quando ps uma sombra, ento 
jogou o bloco de volta no colo dela. Gennie deu-lhe uma ltima e longa olhada antes de abaixar a cabea para o bloco.
Era definitivamente ela... numa caricatura inteligente e cruel. Seus olhos estavam inclinados... exagerados, quase predatrios, as mas do rosto eram aristocrticas, 
o queixo, um ponto teimoso. Com a boca apenas entreaberta e a cabea inclinada para trs, ele lhe dera a expresso de uma realeza descontente. Gennie estudou o desenho 
por uns dez segundos antes de cair na gargalhada.
- Seu malvado! - disse ela, ainda rindo. - Pareo prestes a mandar decapitar uma pessoa.
Ele poderia ter aproveitado o desenho se ela tivesse ficado zangada, insultada. Nesse caso, a teria caricaturado como vaidosa e sem humor, e no merecedora de sua 
ateno... Pelo menos, poderia ter tentado. Agora, com a risada dela soando no ar e os olhos vivos, Grant caa do precipcio.
- Gennie. - Ele murmurou o nome enquanto estendia a mo para tocar-lhe o rosto. A risada dela morreu.
O que teria dito se sua garganta no tivesse fechado, ela no sabia. Achou que o ar tinha parado muito subitamente. O nico movimento parecia ser o dos dedos que 
afastavam seus cabelos do rosto, o nico som, sua prpria respirao irregular. Quando Grant abaixou o rosto para o seu, Gennie no se moveu, mas esperou.
Ele hesitou, embora a pausa tenha sido muito breve, antes de tocar-lhe a boca com a sua. Gentil, examinador, enviou um arrepio pela coluna dela. Grant devia estar 
sentindo o mesmo, percebeu Gennie, quando os dedos fortes se apertaram no seu pescoo brevemente antes de relaxarem. Ele devia estar sentindo, como ela, aquela sbita 
exploso de poder, que foi seguida por um tipo confuso de fraqueza.
Flutuando... duas pessoas deveriam flutuar daquela maneira? Sem limites, sem cuidados... Como ela podia imaginar que os lbios de um homem seriam capazes de lhe 
provocar to infinita variedade de sensaes? Talvez, nunca tivesse sido beijada antes, e apenas pensava que tivesse. Talvez houvesse apenas imaginado um dia outro 
homem ter lhe roa a boca. Porque este sim, era um beijo de verdade.
Podia sentir o gosto, a respirao quente. Podia sentir os lbios suaves, entretanto firmes e experientes. Podia sentir o aroma... aquela sutil fragrncia de vento 
e mar. Podia ver o rosto bonito, nublado e prximo quando seus clios ergueram-se para lhe transmitir segurana. E quando ele murmurou o seu nome, ela o ouviu.
A resposta de Gennie foi se derreter de encontro ao corpo dele, de forma lenta e luxuriante. Com a fuso, veio a dor, inesperada e forte o bastante para faz-la 
tremer. Como podia haver dor, perguntou-se perplexa, quando seu corpo estava verdadeiramente em paz? Entretanto, a dor retornou numa onda que a abalou. Alguma parte 
lcida de sua mente a relembrou de que amar doa.
Mas no. Ela tentou reprimir a dor, e a idia que ela trazia, mesmo enquanto o beijava. No estava se apaixonando, no agora, no por ele. No era isso que queria... 
O que queria? Ele.
A resposta veio to claramente, com tanta simplicidade... O que a deixou em pnico.
- Grant, no. - Gennie se afastou, mas a mo no seu rosto deslizou para a nuca, mantendo-a imvel.
- No o qu? - A voz dele era baixa e rouca.
- Eu no pretendia... Ns no deveramos... Eu no... Oh! - Ela fechou os olhos, frustrada por estar se sentindo to confusa.
- Por que voc est fugindo de mim?
O trao de humor na voz dele a fez se levantar. No estava tonta, disse a si mesma. Apenas havia ficado sentada por muito tempo, e se levantara muito rapidamente.
- Oua, aqui no  lugar para esse tipo de coisa.
- Que tipo de coisa? - perguntou Grant, se levantando tambm, porm, preguiosamente, estendendo msculo por msculo. - Estvamos apenas nos beijando. Isso  mais 
popular do que ter uma conversa amigvel. Beijar voc tornou-se um hbito. - Ele entrelaou os dedos nos cabelos de Gennie. -No mudo meus hbitos facilmente.
- Nesse caso - ela parou para recuperar o flego -, acho que voc deveria fazer uma exceo.
Ele a estudou, tentando entender alguma coisa que mexia com seu mago.
- Voc me confunde, Genvive. A sedutora experiente em um minuto, a virgem nervosa no momento seguinte. Sabe como fascinar um homem.
O orgulho surgiu automaticamente para proteg-la.
- Alguns homens se deixam fascinar mais facilmente do que outros.
- Verdade. - Grant no tinha certeza de qual emoo o dominava, mas sabia que no era confortvel. - Ficarei muito feliz em v-la longe daqui - murmurou ele.
Ouvindo o som dos passos de Grant se retirando, Gennie abaixou-se para pegar o bloco de desenho. Por alguma coincidncia maliciosa, tinha cado aberto exatamente 
no esboo do rosto de Grant. Ela fez uma careta para o desenho.
- E ficarei feliz em no v-lo nunca mais. - Gennie fechou o bloco, espanou a poeira da cala jeans, e comeou a sair do jardim da igreja com tranqila dignidade.
Impossvel!
- Grant! - Ela desceu os degraus para a calada e o seguiu. - Grant, espere!
Com todos os sinais de impacincia, ele virou-se.
- O qu?
Um pouco sem flego, Gennie parou diante dele e perguntou-se o que queria falar. No era verdade que nunca mais queria v-lo. Se no entendia o motivo ainda, sentia 
pelo menos que precisava um pouco mais de tempo para descobrir.
- Paz - ofereceu e estendeu uma mo. Quando ele apenas a olhou, ela deu um rpido suspiro de raiva e engoliu o orgulho. - Por favor.
Capturado na armadilha da nica palavra, ele pegou a mo oferecida.
- Tudo bem. - Quando Gennie ia retirar a mo, ele a apertou com mais fora. - Por qu?
- Eu no sei - respondeu Gennie com impacincia. Apenas um desejo louco de ver se posso me dar bem com um ogro. - Com o arquear irnico da sobrancelha de Grant, 
ela suspirou. - Certo, isso foi um pequeno lapso. Retiro.
Preguiosamente, ele girou nos dedos a fina corrente de ouro que ela usava.
- Ento, o que acontece agora?
O que acontecia agora? Gennie pensou enquanto os dedos dele faziam sua pele formigar. No iria ceder  tentao, mas tambm no iria fugir como um coelho assustado.
- Oua, eu lhe devo uma refeio - disse ela impulsivamente. - Pagarei e ficaremos quites.
- Como?
- Eu lhe farei um jantar.
- Voc j me fez um caf da manh.
- Aquela era a sua comida - apontou Gennie. J planejando tudo, olhou alm dele, para a cidade. - Preciso comprar algumas coisas.
Grant a estudou, considerando.
- Voc vai levar as coisas para o farol?
Oh, no, pensou ela imediatamente. No confiava em si mesma com ele l, to perto do mar e do poder.
- Para o meu chal. H uma pequena churrasqueira nos fundos, se voc gosta de bifes.
O que se passava pela mente dela?, perguntou-se Grant enquanto observava pensamentos secretos brilharem nos olhos da cor do mar. Sabia que nunca seria capaz de resistir 
 tentao de descobrir.
- Sim, churrasco est bom para mim.
- Certo. - Ela assentiu com um gesto de cabea e pegou-lhe a mo. - Vamos s compras.
- Espere um minuto - comeou Grant quando ela o puxou para a calada.
- Oh, no comece a reclamar j. Aonde compro os bifes?
- Bayside - disse Grant secamente puxando-a para mais perto.
Sorrindo da expresso dela, passou um brao ao redor de seus ombros.
- De vez em quando, o mercado Leeman recebe bons pedaos de carne.
Gennie o olhou, desconfiada.
- De onde?
Ainda sorrindo, Grant abriu a porta do mercado.
- Adoro um mistrio.
Gennie no tinha certeza se achava aquilo divertido, at que descobriu que realmente havia um bife... apenas um, mas de tamanho suficiente para duas pessoas... e 
que vinha de uma fazenda da redondeza, autorizada e licenciada. Satisfeita com isso, e com uma sacola de verduras frescas para salada, conduziu Grant para fora de 
novo.
- Agora, onde posso comprar uma garrafa de vinho?
- Na loja de Fairfield - sugeriu Grant. - Ele  o nico que vende bebida alcolica na cidade. Se voc no se importa muito com o rtulo.
Quando eles comearam a atravessar a rua, um garoto passou de bicicleta, lanando um rpido olhar para Grant, amtes de enterrar o queixo no peito e sair pedalando.
- Um de seus admiradores? - perguntou Gennie friamente.
- Expulsei-o das rochas, junto com trs amigos, algumas semanas atrs.
- Voc  muito bem-humorado. 
Grant apenas sorriu, lembrando-se de que sua primeira reao tinha sido de fria quando tivera sua paz interrompida. Ento, temera que os quatro garotos descuidados 
quebrassem os pescoos nas pedras.
- Sim - murmurou ele, recordando-se com prazer da bronca que dera nos meninos.
- Voc chuta cachorros doentes? - perguntou ela quando viu o brilho nos olhos dele.
- S na minha prpria terra.
Suspirando, Gennie abriu a porta da loja de Fairfield. Do outro lado do cmodo, Will imediatamente derrubou o pote grande que estava prestes a estocar na prateleira. 
Vermelho at a ponta das orelhas, deixou o pote onde estava.
- Posso ajud-la? - perguntou com voz trmula.
- Preciso de um saco de carvo. - Gennie falou enquanto atravessava a loja. - E de uma garrafa de vinho.
- O carvo est nos fundos - ele conseguiu falar, ento deu um passo atrs quando Gennie se aproximou. O cotovelo dele bateu numa pilha de latas, derrubando-as. 
- De... de que tamanho?
Divertida e com pena do garoto, Gennie engoliu em seco.
- De dois quilos est bom.
- Vou buscar. - O garoto desapareceu, e Gennie ouviu a voz de Fairfield perguntar o que o afligia antes que ela fosse forada a pr a mo sobre a boca para conter 
uma risada.
Pensando na reao de Macintosh em relao a Vernica, Grant sentiu uma onda de empatia.
- O pobre menino ficar sonhando acordado por uma semana. Voc tinha de sorrir para ele?
- Francamente, Grant. Ele no pode ter mais de 15 anos.
- Velho o bastante para suar frio - comentou ele.
- Hormnios - murmurou ela, quando encontrou a escassa seleo de vinhos de Fairfield. - Eles apenas precisam de tempo para se equilibrar.
O olhar de Grant desceu e focou-se quando ela se abaixou.
- Deve levar somente trinta ou quarenta anos - murmurou ele.
Gennie achou um burgundy e pegou-o da prateleira do baixo.
- Parece que teremos uma festa, afinal de contas. Will voltou com um saco de carvo e quase conseguiu no derrub-lo nos prprios ps. - Eu trouxe um fluido de isqueiro, 
tambm, caso... - Ele parou quando comeou a gaguejar.
- Oh, obrigada. - Gennie colocou o vinho sobre o balco e pegou a carteira.
- Voc precisa ser maior de idade para comprar o vinho comeou Will. O sorriso de Gennie se ampliou e o rubor tio garoto aprofundou-se. - Suponho que voc seja, 
certo? 
Incapaz de resistir, Gennie gesticulou para Grant. 
- Ele .
Extasiado, Will olhou para Gennie at que ela perguntou qual era o valor da compra. Ele digitou os nmeros na pequena calculadora, tremeu muito, e recomeou.
- Cinco dlares e sete - um longo suspiro escapou -, mais os impostos.
Gennie resistiu  vontade de alisar-lhe o rosto, e ps dinheiro na palma mida da mo do adolescente.
- Obrigada, Will. 
Os dedos de Will se fecharam sobre as moedas.
- Sim, senhora. 
Pela primeira vez, os olhos do menino deixaram Gennie. Grant deparou-se com um olhar de medo e inveja, e no tinha certeza se devia sentir-se envaidecido ou se desculpava-se. 
Num raro gesto de afeio casual, apertou o ombro de Will.
- Ela faz um homem querer implorar, no faz? - murmurou ele quando Gennie j estava  porta.
Will suspirou.
- Sim. - Antes que Grant pudesse se virar, Will puxou-lhe a manga da camisa. - Voc vai jantar com ela e tudo o mais?
Grant arqueou uma sobrancelha, mas conseguiu manter a compostura. Tudo o mais significava coisas diferentes para pessoas diferentes. No momento, aquilo formou imagens 
provocativas em seu crebro.
- No momento as coisas esto incertas... - murmurou ele, usando um dos bordes de Macintosh. Ento, sorriu. - Sim, ns vamos jantar. E mais alguma coisa - acrescentou 
enquanto andava em direo a Gennie.
- Sobre o qu vocs estavam falando? - ela quis saber. 
- Conversa de homem. 
- Oh, peo-lhe perdo.
O jeito desdenhoso como ela falou o fez rir, e pux-la para seus braos, a fim de beij-la na frente de todos de Windy Point. Enquanto ainda a abraava, Grant ouviu 
o barulho de coisas se quebrando dentro da loja de Fairfield.
- Pobre Will... - murmurou ele. - Sei como ele est se sentindo. - O humor brilhou em seus olhos novamente.  melhor eu ir para o barco, se vamos jantar... e tudo 
o mais.
Confusa pela alegria no caracterstica de Grant, Gennie o olhou longamente.
- Tudo bem - disse ela aps um momento. - Eu o vejo mais tarde.



Seis


Era bobagem se sentir como uma adolescente se preparando para um encontro amoroso, Gennie disse a si mesma quando abriu a porta do chal. Tinha dito a mesma coisa 
quando dirigira da cidade... e pegara a estrada vazia.
No momento, estava entusiasmada com o piquenique... dois adultos, um bife, e uma garrafa de burgundy, que podiam ou no valer o preo. Uma pessoa teria de procurar 
muito para encontrar romance em carvo, fluido de isqueiro, e algumas folhas de verduras frescas em um  pedao de quintal. No era a primeira vez que Gennie lamentava 
possuir uma mente to criativa.
Tinha certamente sido imaginao que despertara aquela srie de sensaes no jardim da igreja. Um pequeno gesto de carinho inesperado, uma brisa suave, e ela ouvia 
sinos. Tola.
Gennie colocou as sacolas sobre o balco da cozinha e desejou que tivesse comprado velas. Luz de velas deixaria at mesmo aquela pequena cozinha to prtica parecendo 
romntica. , se tivesse um rdio, poderia haver msica...
Recompondo-se, olhou para o teto. No que estava pensando? Para comear, nunca tivera pacincia com deleites bvios e convencionais, e, em segundo lugar, no teria 
um romance com Grant. Estava tentando fazer uma amizade... uma amizade muito cuidadosa com ele, mas isso era tudo.
Faria aquele jantar porque lhe devia isso. Eles conversavam porque ela o achava interessante, apesar do mau-humor. E se certificaria totalmente de no acabar nos 
braos dele de novo. Qualquer parte sua que desejasse uma repetio do que acontecera entre eles no jardim da igreja teria de ser enterrada pelo bom senso. Grant 
Campbell no era apenas basicamente desagradvel, era muito complicado. Gennie considerava-se uma pessoa bastante complexa para se envolver com algum que possua 
tantas camadas sobre si.
Ela pegou o saco de carvo e o fluido de isqueiro e foi para o quintal acender a churrasqueira. O lugar estava muito quieto, pensou, olhando ao redor enquanto abria 
o bico. Ouviria Grant chegar muito antes de v-lo.
Era um momento perfeito para um passeio na enseada, com as sombras do fim da tarde se alongando e o calor do dia diminuindo. A iluminao estava branda e amena agora. 
Ela podia ouvir o leve bater da gua contra o per, o farfalhar dos insetos no gramado alto do banco. Ento, ouviu o barulho de um motor  distncia.
Imediatamente, seus nervos ficaram  flor da pele, e ps os dois quilos de carvo no cho. Quando parou de agir de modo afobado, riu e colocou um punhado de carvo 
na churrasqueira. Ento, aquela era a sofisticada Genvive Grandeau, pensou ironicamente... um membro do mundo da arte e da sociedade requintada de Nova Orleans, 
prestes a derrubar dois quilos de carvo nos ps porque um homem rude estava indo jantar com ela.
Com um sorriso, rolou o saco e deixou-o cair no cho. E da?, perguntou-se antes de ir at o per esper-lo.
Grant virou o barco no rio numa velocidade que fez espirrar gua para o alto. Rindo, Gennie ficou na ponta dos ps e acenou, desejando que ele j estivesse l. No 
tinha percebido at aquele momento, o quanto temera passar a noite sozinha. Contudo, no havia ningum com quem quisesse passar a noite, exceto ele. Grant a enfureceria 
antes que a noite acabasse, Gennie tinha certeza. E estava esperando ansiosamente por isso.
Ele diminuiu a velocidade e, ento, guiou o barco ao longo do per. Quando o motor parou por completo, o silncio retornou... restando o barulho da gua e do vento 
batendo no gramado alto.
- Quando voc vai me levar para dar uma volta? - perguntou Gennie no momento em que ele lhe jogou uma corda.
Grant subiu no per e observou-a segurando o barco com habilidade.
- Eu disse que faria isso?
- Talvez no, mas vai dizer agora. - Endireitando o corpo, ela esfregou as mos na parte traseira da cala. - Eu estava pensando em alugar um pequeno barco a remo 
para passear na enseada, mas prefiro ir para o mar.
- Um barco a remo? - Ele sorriu, tentando imagin-la remando.
- Cresci em um rio - ela o relembrou. - Navegar est no meu sangue.
- Srio? - Preguiosamente, Grant pegou-lhe a mo, virando-a para examinar a palma. Era suave, macia e Corte. - Esta mo no parece ter manuseado muitas velas-mestras.
- Fiz minha parte. - Sem nenhuma razo alm de querer fazer isso, Gennie entrelaou os dedos nos dele. - Sempre houve marinheiros em minha famlia. Meu tatarav 
era... freelance.
- Um pirata. - Intrigado, Grant pegou-lhe a ponta do cabelo na mo e enrolou em volta de seu dedo. - Tenho a impresso de que voc pensa mais sobre isso do que em 
condes e duques espalhados em sua rvore familiar.
- Naturalmente. Quase todo mundo pode encontrar um aristocrata na famlia se procurar bastante. E ele era um pirata muito bom.
- De bom corao?
- De sucesso - corrigiu ela com um sorriso malicioso. Tinha quase 60 anos quando se aposentou em Nova
Orleans. Minha av mora na casa que ele construiu l.
- Com dinheiro tirado dos comerciantes desafortunados - terminou Grant, sorrindo de novo.
- O mar  um lugar sem lei - disse Gennie com um dar de ombros. - Voc arrisca. Talvez consiga o que quer agora ela sorriu, tambm -, ou pode ter sua cabea cortada.
- Pode ser mais sbio manter voc presa  terra - murmurou Grant, ento, puxando o cabelo que segurava, trouxe-a para mais perto.
Gennie ps uma mo no peito dele para equilibrar-se, mas encontrou seus dedos mo vendo-se para cima. A boca de Grant era tentadora, tentadora demais quando abaixou 
em direo  sua. Seria mais sbio resistir, ela sabia, mas ergueu-se na ponta dos ps para encontrar-lhe a boca.
Bem de leve, ele roou-lhe os lbios, como se estivesse incerto de seus movimentos, incerto de quo profundamente ousaria mergulhar dessa vez. Poderia t-la puxado 
para si, e Gennie se aconchegaria em seus braos com no mais do que um suspiro. Entretanto, ambos mantiveram uma pequena distncia tangvel, como uma barreira... 
ou uma janela de segurana. Ainda era muito cedo para lutarem contra a corrente que os aproximava mais e mais, a ponto de no ter retorno.
Eles se separaram no mesmo instante e deram um pequeno passo atrs.
-  melhor pr fogo no carvo - falou Gennie aps um momento.
- Eu no perguntei antes - disse Grant quando comearam a descer o per -, mas voc sabe cozinhar aquelas coisas?
- Meu caro sr. Campbell - zombou Gennie, forando o sotaque sulista -, voc parece ter muitas idias erradas sobre as mulheres do sul. Posso cozinhar at sobre uma 
pedra quente.
- E lavar camisas em um riacho.
- To bem quanto voc poderia - devolveu ela. - Voc pode ter algumas vantagens em relao a mim nas reas mecnicas, mas eu diria que, fora isso, somos iguais.
- Uma greve pelo movimento feminista? Gennie estreitou os olhos.
- Voc est prestes a dizer alguma coisa depreciativa e pouco inteligente?
- No. - Pegou a lata de fluido e a entregou a ela. -Como sexo discriminando, vocs tiveram uma queixa legtima por centenas de anos, e vm defendendo seus direitos 
tanto em conjunto quanto individualmente. Infelizmente, ainda h um grande nmero de barreiras que precisam ser derrubadas pelas mulheres, embora uma mulher ou outra 
de vez em quando derrube algumas quase sem rudo. J ouviu falar de Winnie Winkle?
Totalmente fascinada, Gennie o olhou.
- Como em Wee Willie?
Grant riu e apoiou-se na lateral da churrasqueira.
- No. Winnie Winkle, a Chefe de Famlia, uma histria em quadrinhos dos anos vinte. Aborda o assunto da libertao das mulheres vrias dcadas antes que isso se 
tornasse um papo corriqueiro. Tem um fsforo?
- Hmmm. - Gennie pegou a caixa de fsforos do bolso. - Isso no foi um pouco antes de sua poca?
- Fiz algumas pesquisas sobre o assunto... para trabalhos na faculdade.
- Verdade? - Mais uma vez, ela sentiu que ele escondia alguma coisa. Acendeu o carvo ensopado, ento deu um passo atrs, quando o fogo pegou e as chamas subiram.
- Onde voc fez faculdade?
Grant sentiu o primeiro cheiro de fumaa, um aroma de vero que associava  sua infncia.
- Georgetown.
- Eles tm um excelente departamento de artes l - comentou Gennie pensativa.
- Sim.
- Voc estudou artes l? - persistiu ela. Grant observou a fumaa subir no ar.
- Por qu?
- Porque, pela caricatura cruel que fez de mim,  bvio que voc tem talento, e que teve treinamento. O que est fazendo com isso?
- Com o qu?
Gennie franziu o cenho em frustrao.
- Com seu talento e treinamento. Eu conheceria seu nome se voc pintasse.
- Eu no pinto - disse ele simplesmente.
- Ento, o que voc est fazendo?
- O que quero. Voc no ia preparar a salada?
- Que coisa, Grant...
- Tudo bem, no fique brava. Eu fao a salada. 
Quando ele foi em direo  porta dos fundos, Gennie segurou-lhe o brao.
- Eu no entendo voc.
Ele arqueou uma sobrancelha.
- No pedi que entendesse. - Grant viu a frustrao novamente, porm mais do que isso, viu mgoa, rapidamente escondida. Por que subitamente sentiu vontade de desculpar-se 
por sua necessidade de privacidade?
- Gennie, deixe-me lhe dizer uma coisa. - Em um gesto que no lhe era caracterstico, ele acariciou-lhe o rosto de modo gentil. - Eu no estaria aqui neste momento 
se pudesse estar longe de voc. Isso lhe basta?
Ela queria dizer que sim... e que no. Se no estivesse com medo do que as palavras poderiam desencadear, teria lhe dito que j estava mergulhando em sentimentos 
profundos. Amor, ou talvez os primeiros sinais do amor, que percebera h pouco, estavam crescendo rapidamente. Em vez disso, sorriu e pegou-lhe as mos.
- Eu fao a salada.
Foi to simples quanto ela havia dito a si mesma que poderia ser. Na cozinha, eles juntaram algumas verduras frescas e discutiram sobre a cincia de fazer salada. 
A carne chiava na churrasqueira enquanto se sentavam na grama e apreciavam a luz do fim da tarde de um dos ltimos dias de vero.
Aromas preguiosos... grama mida, fumaa de churrasco. Algumas palavras, um silncio confortvel. Gennie reuniu as sensaes e as guardou no corao, sabendo que 
seriam importantes para ela em dias chuvosos, quando estivesse cercada de presses e responsabilidades. Por enquanto, sentia-se como quando era uma garotinha, e 
lhe restavam alguns dias preciosos do ms de agosto e a escola ainda parecia estar h anos luz de distncia. O vero sempre parecia ter mais magia perto do fim.
Magia suficiente, pensou Gennie, para faz-la se apaixonar sem qu nem porqu.
- Em que voc est pensando? - perguntou Grant.
Ela sorriu e virou a cabea para o cu uma ltima vez.
- Que  melhor eu ir ver aquele bife.
Ele segurou-lhe o brao, tombando-a de costas antes que ela pudesse se levantar. 
- No.
- Voc gosta de carne queimada?
- No, no  nisso que voc est pensando - corrigiu ele. Ento, traou com um dedo o contorno dos lbios dela, e, apesar de ter sido um gesto distrado, Gennie 
sentiu o toque em cada poro.
- Eu estava pensando no vero - murmurou ela suavemente. - Ele sempre parece acabar antes que terminemos de sabore-lo.
Quando ela ergueu a mo para o rosto dele, Grant segurou-lhe o pulso ali.
- As melhores coisas sempre acabam antes que terminemos de sabore-las.
Enquanto ele a fitava, Gennie sorria daquela maneira fcil e lenta que enviava ondas de desejo e um tumulto de emoes por todo o corpo de Grant. Sem poder evitar, 
levou sua boca at a dela. Os lbios suaves, quentes, prontamente responderam aos seus, que explorramos dela, at que tudo que ele era, sentia, desejava, estava 
focado ali. Enfeitiado, seduzido, Grant aprofundou o beijo, incerto agora da estrada em que se encontrava. Sabia apenas que ela estava com ele.
Podia sentir a grama embaixo dos dois, doce e seca, o aroma de vero, assim como a fumaa em espiral acima deles. Queria toc-la, cada centmetro daquele corpo curvilneo 
e esbelto que vinha atormentando seus sonhos desde o primeiro momento que a vira. Se fizesse isso uma vez, sabia que seus sonhos nunca mais seriam pacficos. Sc 
somente o gosto dela... de fruta selvagem, mel quente... podia tir-lo de equilbrio to facilmente, o que senti-la por inteiro faria com ele?
Seu desejo por Gennie era como o vero... ou, pelo menos, disse isso a si mesmo. Tinha de terminar antes que ele acabasse de sabore-lo.
Erguendo a cabea, olhou para baixo a fim de ver os olhos verdes, levemente inclinados, quase fechados. Olhos que, se ele no se cuidasse, os colocaria de joelhos. 
Cautelosamente, afastou-se, ento, ajudou-a a se levantar.
-  melhor tirarmos aquele bife do fogo ou teremos de comer apenas salada.
Os joelhos de Gennie estavam fracos. Poderia jurar que essas coisas s aconteciam em fico, entretanto, l estava ela, as juntas tremendo como se fossem gelia. 
Virando-se, espetou o garfo no bife para coloc-lo no prato.
- Estamos brincando com fogo - murmurou ela.
- Eu estava pensando a mesma coisa - Grant falou calmamente antes que eles entrassem de novo na casa.
Atravs de um acordo silencioso, eles mantiveram a conversa leve enquanto comiam. O que cada um tinha sentido durante aquele beijo curto e estonteante foi guardado 
com cuidado.
Eu no estou procurando por um relacionamento, suas mentes racionalizavam separadamente.
Para comear, no somos adequados um para o outro... No h tempo para isso.
Meu Deus, eu no estou me apaixonando.
Tremendo, Gennie levou o copo de vinho aos lbios e tomou um grande gole. Grant olhava para o prato, o semblante mal-humorado.
- Como est seu bife? - perguntou ela na falta de outra coisa para falar.
- O qu? Oh, est bom. - Afastando a sensao de desconforto, Grant comeou a comer com mais entusiasmo. - Voc cozinha quase to bem quanto pinta - comentou. - 
Onde aprendeu?
Gennie arqueou uma sobrancelha.
- Bem, nos joelhos de mame. Ele sorriu.
- Voc tem uma lngua ferina, Genvive. - Erguendo a garrafa de vinho, ele serviu os copos de vidro que ela comprara na cidade. - Eu estava pensando que  estranho 
o fato de uma mulher que cresceu numa casa cheia de empregados saber fazer churrasco. - Grant sorriu, pensando em Shelby, que s consideraria cozinhar em ltimo 
caso.
- Em primeiro lugar - disse ela -, cozinhar sempre foi considerado um assunto familiar. E, em segundo, quando voc mora sozinha, aprende, ou vive em restaurantes.
Ele no pde resistir provoc-la um pouquinho quando se recostou com o vinho.
- Voc foi fotografada em praticamente todos os melhores restaurantes do mundo.
Para no morder a isca, Gennie imitou a postura dele, observando-o sobre a borda do copo enquanto bebia.
-  por isso que recebe uma dzia de jornais? Para que possa ver como as pessoas vivem enquanto voc hiberna?
Grant considerou aquilo por um momento.
- Sim. - Sups que no poderia ter colocado aquilo melhor.
- Voc no acha esse um tipo de atitude arrogante? Novamente, ele ponderou, estudando o vinho tinto em seu copo prprio para gua.
- Sim.
Gennie no pde evitar uma risada.
- Grant, por que voc no gosta das pessoas? Surpreso, ele a olhou.
- Eu gosto, individualmente em alguns casos, e como um todo. Apenas no as quero aglomeradas  minha volta.
Ele falava srio, percebeu Gennie, levantando-se para tirar os pratos. Era difcil compreend-lo.
- Voc nunca tem vontade de dar cotoveladas? Ouvir um murmrio de vozes?
Tivera sua poro de cotoveladas e vozes antes dos 17 anos, pensou Grant com tristeza. Mas... No, supunha que no era bem verdade. Certas vezes, necessitava de 
uma boa dose de humanidade com todas as suas falhas e complicaes, para seu trabalho e para si mesmo. Pensou na semana que tinha passado com os MacGregors. Precisara 
daquilo, e deles, embora no percebesse completamente at que estivesse de volta, em sua prpria rotina.
- Tenho os meus momentos - murmurou ele. Automaticamente, comeou a tirar a mesa quando Gennie abriu a torneira quente na pia. - Sem sobremesa?
Ela olhou por sobre o ombro para ver que ele estava perfeitamente srio. Grant comia como um caminhoneiro, contudo, no havia a mnima gordura sobrando no corpo 
msculo. Energia nervosa? Metabolismo? Meneando a cabea, Gennie perguntou-se porque persistia em tentar entend-lo.
- Tenho alguns picols no freezer. Grant sorriu e foi pegar o sorvete.
- Quer um? - ofereceu enquanto rasgava o papel do picol.
- No. Voc est tomando isso porque quer, ou para se livrar de enxugar a loua? - Ela colocou um prato na secadora.
- Pelos dois motivos.
Apoiando-se contra o balco, ele mordeu o picol.
- Eu podia comer uma caixa destes quando eu era criana.
Gennie lavou outro prato.
- E agora?
Grant deu uma mordida generosa.
- Voc s tem dois.
- Um homem educado compartilharia.
- Sim. - Ele deu outra mordida.
Com uma risada, Gennie espirrou um pouco de gua no rosto dele.
- Vamos, seja bonzinho.
Ele estendeu o picol, parando a meio centmetro dos lbios dela. Com as mos ensaboadas, Gennie abriu a boca. Grant afastou o sorvete, tirando-o de seu alcance.
- No seja gulosa - avisou ele.
Lanando-lhe um olhar ofendido, ela inclinou-se para frente o bastante para dar uma mordidinha delicada no picol, ento, ainda observando-o, deu uma mordida grande 
o suficiente para esfriar-lhe a boca.
- Malcriada - brincou Grant, fazendo uma careta para o que sobrou do picol, enquanto Gennie ria.
- Voc pode comer o outro - disse ela amavelmente depois de secar as mos. -Apenas no resisto quando algum pe alguma coisa de chocolate debaixo do meu nariz.
Deliberadamente, Grant deslizou a lngua pelo picol.
- Alguma outra... fraqueza?
No momento que o calor expandiu-se no estmago, Gennie andou em direo  varanda da frente.
- Algumas. - Ela suspirou quando o canto dos pssaros anunciou a chegada da noite. - Os dias esto ficando mais curtos - comentou.
O sol baixo j estava rodeado de nuvens cor-de-rosa e douradas. A fumaa do churrasco subia no ar, afinando. Perto do banco do rio, havia uma rvore seca, suas folhas 
escassas avermelhando pelo outono.
Quando as mos de Grant tocaram-lhe os ombros, ela inclinou-se contra ele instintivamente. Juntos, em silncio, assistiram a chegada da noite.
Grant no podia se lembrar da ltima vez que tinha visto o pr-do-sol com algum, ou quando sentira vontade de fazer isso. Agora, parecia to simples, to assustadoramente 
simples. Pensaria nela agora, toda vez que a noite se aproximasse?
- Conte-me sobre o seu vero favorito - pediu ele de repente.
Gennie recordava-se de um vero passado no sul da Frana, e um outro no iate de seu pai em Aegean. Sorrindo, observou o rosado das nuvens se aprofundar.
- Uma vez, fiquei com a minha av por duas semanas, enquanto meus pais foram para Veneza numa segunda lua-de-mel. Dias longos e preguiosos com abelhas zunindo em 
volta das flores do matagal. Tinha um velho e grande carvalho do lado de fora da janela de meu quarto, que pingava musgo. Algumas noites, eu pulava a janela para 
me sentar em um de seus galhos e olhar as estrelas. Eu devia ter uns 12 anos - disse ela. - Havia um garoto no estbulo. - Gennie riu de repente, com as costas confortavelmente 
aninhadas contra o peito de Grant. - Oh, cus, ele era um pouco como Will, todo estranho e nervoso.
- E voc era louca por ele.
- Eu passava horas limpando as baias e cuidando dos cavalos s para v-lo. Escrevi pginas e mais pginas sobre ele em meu dirio e um poema muito sentimental.
- E o manteve debaixo de seu travesseiro.
- Naturalmente, voc tambm deve ter tido uma relao superficial com alguma garota de 12 anos.
Ele pensou em Shelby e sorriu, descansando o queixo no topo da cabea de Gennie. Os cabelos tinham o aroma de flores selvagens molhadas pela chuva.
- Quanto tempo voc levou para conseguir que ele a beijasse?
Gennie riu.
- Dez dias. Eu achei que tinha descoberto a resposta para os mistrios do universo. Eu era uma mulher.
- Ningum do sexo feminino tem mais certeza disso do que uma garota de 12 anos.
Ela sorriu para o cu turvo.
- Mais do que uma relao superficial, parece - comentou. - Uma tarde, encontrei Angela rindo com o meu dirio na mo, e a persegui pela casa toda. Ela era... - 
Gennie tencionou quando a dor a assolou com toda sua fora. Antes que Grant pudesse abra-la mais forte, ela afastou-se para olhar o crepsculo atravs da tela 
de proteo da varanda. - Minha irm tinha 10 anos - continuou num sussurro. - Eu ameacei raspar-lhe os cabelos se ela contasse a algum sobre o meu dirio.
- Gennie...
Ela meneou a cabea quando sentiu a mo de Grant acariciar-lhe os cabelos.
- Logo vai escurecer. J podemos ouvir os grilos. Voc deveria voltar para casa.
Grant no suportava ouvir as lgrimas na voz dela. Seria mais fcil deix-la agora, apenas recuar. Disse a si mesmo que no tinha habilidade quando se tratava de 
confortar algum. Massageou-lhe os ombros gentilmente.
- H uma luz no barco. Vamos nos sentar l. 
Ignorando a resistncia de Gennie, ele a conduziu para o balano da varanda.
- Minha av tinha um desses - disse Grant, puxando conversa, passando um brao ao redor dela e sentando-se no balano barulhento. - Ela possua uma pequena casa 
ao leste de Maryland. Um lugar pequeno e tranqilo com um terreno to plano que parecia ter sido traado com uma rgua. J esteve em Chesapeake?
- No. - Deliberadamente, Gennie relaxou e fechou os olhos. O balano era gostoso, a voz dele curiosamente suave. No sabia que Grant podia falar em tons to gentis 
e calmos.
- Caranguejos de casca mole e campos de tabaco. - Ele j podia sentir a tenso diminuindo nos ombros de Gennie. - Tnhamos de pegar uma balsa para chegar em casa. 
No era muito diferente deste chal, exceto por ser um sobrado. Meu pai e eu podamos atravessar a rua e pescar. Peguei uma truta certa vez, usando um pedao de 
queijo de cabra como isca.
Grant continuou a falar, recontando coisas que havia esquecido, coisas que nunca tinha dito em voz alta antes. Fatos sem importncia que eram murmurados em tom montono 
no ar, enquanto a luz diminua cada vez mais. No momento, parecia a coisa certa, a coisa de que ela precisava. Ele no tinha certeza se possua algo mais para dar.
Grant manteve o balano em movimento enquanto a cabea de Gennie descansava em seu ombro, e perguntou-se como nunca notara como o crepsculo podia ser pacfico quando 
compartilhado com algum.
Gennie suspirou, ouvindo mais o tom dele do que as palavras em si. Deixou-se flutuar, ouvindo o canto dos grilos mais insistentes agora... Sonhos freqentemente 
no eram nada alm de memrias.
- Oh, Gennie, voc deveria estar l! - Angela, feliz e vibrante, virou em seu assento enquanto Gennie dirigia no trnsito do centro de Nova Orleans. As ruas estavam 
midas com a fria chuva de fevereiro, mas nada podia desencorajar Angela. Ela era a luz do sol e as flores da primavera.
- Eu preferia estar l a congelar em Nova York - respondeu Gennie.
- Voc no pode congelar quando est sob os holofotes replicou Angela, virando-se mais um pouco para a irm.
- Quer apostar?
- Voc no teria perdido aquela exibio por uma dzia de festas.
No, ela no teria, pensou Gennie com um sorriso. Mas Angela...
- Conte-me como foi.
- Foi muito divertido! Todo aquele barulho e msica. O lugar estava to cheio, que voc no podia dar um passo sem esbarrar em algum. A prxima vez que tio Hank 
der uma festa em seu barco, voc tem de ir.
Gennie sorriu para a irm.
- No parece que a minha falta foi sentida. Angela deu sua risada irresistvel.
- Bem, fiquei um pouco cansada de responder perguntas sobre a minha irm talentosa.
Gennie suspirou quando parou no farol. Podia ver o farol vermelho enquanto o limpador de pra-brisa movia-se ligeiramente de um lado para o outro.
- Eles apenas usam esse tipo de desculpa como um meio de se aproximar de voc.
- Bem, havia algum... - Quando Angela parou, Gennie virou-se para olh-la. To linda, pensou. Cabelos louros com olhos quase dolorosamente vividos.
- Algum?
- Oh, Gennie. - A excitao tingiu o rosto dela de rosa. - Ele  maravilhoso. Eu mal podia formar uma sentena coerente quando ele comeou a conversar comigo.
- Voc?
- Eu - concordou Angela, rindo de novo. - Era como se algum tivesse drenado metade de meu crebro. E agora... Bem, eu o tenho visto durante a semana toda. Acho 
que...  ele.
- Depois de uma semana? - questionou Gennie.
- Depois de cinco segundos. Oh, Gennie, no seja to prtica. Estou apaixonada. Voc precisa conhec-lo.
Gennie engatou a primeira enquanto esperava o farol abrir.
- Tenho de analis-lo?
Angela balanou seus lindos cabelos dourados e riu quando o farol ficou verde.
- Oh, eu me sinto maravilhosamente bem, Gennie. Absolutamente maravilhosa!
A risada foi a ltima coisa que Gennie ouviu antes do chiado agudo dos freios. Viu o carro derrapando em direo a elas atravs do cruzamento. No sonho, era sempre 
to devagar, segundo aps segundo de puro terror, aproximando-se cada vez mais. gua jorrou dos pneus e pareceu ficar pendurada no ar.
No houve tempo de respirar, no houve tempo de reagir ou impedir, antes que ouvisse o som de metal raspando em metal, a exploso de luzes brilhando. Terror. Dor. 
E escurido.
- No! - Ela endireitou o corpo, rgida de medo e choque. Havia braos a seu redor, segurando-a com fora... com segurana. Gritos? De onde eles tinham vindo?
O farol, o carro. Angela.
Respirando fundo, Gennie olhou para o rio escuro enquanto a voz de Grant murmurava palavras de conforto em seu ouvido.
- Desculpe-me. -Afastando-se, ela se levantou, erguendo mos nervosas para os cabelos. - Eu devo ter cochilado. Que companhia desagradvel! - continuou com voz trmula. 
- Voc devia ter me dado um cutuco, e...
- Gennie. - Ele se levantou, e segurou-lhe o brao. Pare com isso.
Ela desmoronou. Grant no esperava tamanha submisso e no tinha defesa contra aquilo.
- No faa isso - sussurrou ele, acariciando-lhe os cabelos, enquanto ela o abraava. - Gennie, no chore. Est tudo bem, agora.
- Oh, meu Deus, isso no acontecia h semanas! - Ela enterrou o rosto no peito dele, quando a dor a assolou, fresca como se fosse na primeira hora aps o acidente.
- No comeo, logo depois do acidente, eu revivia o terror todas as vezes em que fechava os olhos.
- Venha. - Grant beijou-lhe o topo da cabea. - Sente-se.
- No. Eu no posso... preciso falar. - Ela o abraou apertado por mais um momento, como se reunindo foras.
- Podemos conversar?
Claro. - Trazendo-a para seu lado, Grant abriu a porta de tela. Por um tempo, ficou silencioso, o brao ao redor dos ombros dela enquanto eles passavam s margens 
da enseada, andando sem rumo certo. Mas sabia que precisava ouvir tanto quanto ela precisava falar. - Gennie, fale comigo.
- Eu estava me lembrando do acidente - comeou ela lentamente, mas a voz estava mais calma agora. - s vezes, quando eu sonhava com isso, era rpida o bastante para 
desviar do caminho daquele carro e tudo era muito diferente. Ento, eu acordava e percebia que nada estava diferente.
-  uma reao natural - murmurou ele, embora o pensamento de ser atormentado por pesadelos comprimisse-lhe a garganta. Tambm tivera seus prprios pesadelos.
- Os sonhos iro desaparecer aps um tempo.
- Eu sei. Raramente acontecem hoje em dia. - Gennie respirou profundamente, e pareceu fortalecida por isso.
- Mas quando acontece,  to claro! Posso ver os respin-gos da chuva no pra-brisa logo antes dos limpadores os removerem. Havia poas de gua perto das esquinas, 
e a voz de Angela era to... vivida! Ela era to linda, Grant! No apenas o rosto, mas a pessoa inteira. Sempre doce e carinhosa. Estava me contando sobre uma festa, 
na qual tinha conhecido uma pessoa especial. Estava apaixonada, e radiante com isso. A ltima coisa que falou foi que se sentia maravilhosamente bem. Ento, eu a 
matei.
Grant segurou-lhe os ombros e sacudiu-a com fora.
- Que tipo de loucura  essa?
- Foi culpa minha - respondeu Gennie com uma calma mortal. - Se eu tivesse visto aquele carro alguns segundos antes... Ou se eu tivesse feito alguma coisa, pisado 
no freio, no acelerador, qualquer coisa. O impacto foi todo do lado dela. Eu sofri apenas uma leve concusso, alguns arranhes, mas Angela...
- Voc se sentiria melhor se tivesse se machucado seriamente? - perguntou ele de modo autoritrio. - Voc pode sofrer por ela, chorar por sua irm, mas no pode 
se culpar.
- Eu estava dirigindo, Grant. Como esqueo isso?
- Voc no esquece - replicou ele, enervado pelo tom de sofrimento na voz dela. - Mas coloque a coisa em perspectiva. No havia nada que pudesse ter feito, e sabe 
disso.
- Voc no entende. - Gennie engoliu em seco, porque as lgrimas estavam vindo, e achou que no tinha mais lgrimas. - Eu a amava muito. Ela era parte de mim... 
uma parte da qual eu precisava desesperadamente. Quando voc perde algum que  essencial para sua vida, perde uma parte de si mesmo.
Grant entendia... a dor, a necessidade de sentir culpa. Gennie culpava-se por expor a irm  morte. Grant culpava o pai por expor a si mesmo. Nenhuma das formas 
mudava a perda.
- Ento, voc tem de viver sem essa parte sua.
- Voc no pode saber como isso  - murmurou ela.
- Meu pai morreu quando eu tinha 17 anos - comeou ele, dizendo as palavras que preferia ter evitado. - Eu precisava dele.
Gennie descansou a cabea no peito largo. No ofereceu compaixo, sabendo que Grant no precisava disso. O que voc fez?
- Odiei... por um longo tempo. Isso era fcil. - Sem perceber, ele a estava abraando novamente, recebendo e dando conforto ao mesmo tempo. - Aceitar  mais difcil. 
Todos fazem isso de maneiras distintas.
- Como voc fez?
- Percebendo que no havia nada que eu pudesse ter feito para impedir aquilo. - Afastando-a um pouquinho, ele ergueu-lhe o queixo com uma das mos. -Assim como no 
havia nada que voc pudesse ter feito.
-  mais fcil, no ? Dizer a si mesmo que voc poderia ter feito alguma coisa do que admitir que era impotente?
Grant nunca tinha visto as coisas por aquele ngulo... talvez tivesse se recusado a pensar sobre isso. -Sim.
- Obrigada. Sei que voc no queria me contar sobre o seu pai, assim como eu tambm no queria contar-lhe sobre a minha irm. Ns podemos ser muito egostas com 
o nosso sofrimento... e com a nossa culpa.
Grant afastou-lhe os cabelos das tmporas. Beijou-lhe as faces, onde lgrimas ainda estavam secando, e sentiu uma onda de ternura que o deixou trmulo. Indefesa, 
ela o deixava vulnervel. Se Grant a beijasse agora, realmente a beijasse, Gennie teria poder completo sobre ele. Com mais esforo do que imaginava que seria necessrio, 
afastou-se.
- Preciso voltar - murmurou ele, deliberadamente pondo as mos nos bolsos. - Voc vai ficar bem?
- Sim, mas... eu gostaria que voc ficasse. - As palavras saram antes que Gennie percebesse que tinha pensado nelas. Mas no as retiraria agora. Alguma coisa brilhou 
nos olhos de Grant. Mesmo na luz parca, ela podia ver. Desejo, necessidade, e alguma coisa rapidamente revelada e ocultada.
- No esta noite.
O tom a fez arquear as sobrancelhas em perplexidade.
- Grant - comeou ela, e aproximou-se para toc-lo.
- No esta noite - repetiu ele, parando o movimento da mo estendida de Gennie.
Ela ps a mo atrs das costas como se tivesse levado um tapa.
- Tudo bem. - Seu orgulho veio para cobrir a dor da rejeio. - Gostei da companhia. - Virando-se, comeou ;i andar em direo a casa.
Grant observou-a ir, ento praguejou, seguindo-a.
- Gennie.
- Boa noite, Grant. - A porta de tela foi fechada.



Sete


Ela iria perder aquilo. Gennie lanou um olhar furioso para as nuvens vindo rapidamente do norte e praguejou. Que coisa, iria perder a luz e no estava pronta. A 
energia estava fluindo atravs de seu ser, de sua mente e de seu corao para a sua mo, em um daqueles raros momentos que um artista reconhecia como certo. Alguma 
coisa lhe dizia que algo permanente e importante acabaria na tela naquela manh. Tudo que tinha de fazer era seguir seus instintos. Mas, para isso, precisava correr 
contra a tempestade.
Gennie sabia que talvez tivesse trinta minutos antes que as nuvens estragassem a iluminao, e uma hora antes de a chuva fechar tudo. Um trovo j soava a distncia 
sobre o barulho das ondas batendo nas pedras. Ela olhou para o cu de modo desafiante. Por Deus, teria de conseguir!
O mpeto estava a seu lado, uma urgncia que dizia que hoje iria acontecer. Tudo que fizera antes... os esboos, o trabalho preliminar, a tinta espalhada na tela... 
eram una preparao para o que criaria agora.
A excitao percorreu-lhe a pele junto com o vento. E tinha frustrao. Parecia precisar das duas coisas para continuar. Talvez uma tempestade estivesse se formando 
em seu interior, tambm. Parecia estar acontecendo isso desde a noite anterior, quando seu humor estivera hesitante e destorcido, com Grant e sem ele. A ltima rejeio 
a deixara dormente, estranhamente calma. Agora, suas emoes estavam fluindo novamente... fria, paixo, orgulho e tormento. Gennie podia extravasar na arte, liber-las 
de modo que no apodrecessem em seu interior.
Precisava de Grant? No, no precisava dele ou de ningum, disse a si mesma deslizando o pincel sobre o tapei. O trabalho era o suficiente para preencher-lhe a vida, 
limpar suas feridas. Era sempre fresco, quase constante.
Enquanto seus olhos pudessem ver e seus dedos pudessem erguer um lpis ou um pincel, aquilo seria seu.
A arte tinha sido sua amiga durante a infncia, um consolo durante as perturbaes da adolescncia. Era to exigente quanto um amante, assim como gananciosa por 
mia paixo. E era paixo o que ela sentia agora, uma paixo fsica e vibrante que a fazia prosseguir. O momento era perfeito, e a eletricidade no ar apenas completava
O senso de urgncia que a percorria.
Agora!, uma voz gritava na sua cabea. O momento de fundir alma, corao e mente era agora. Se no fosse agora, no seria nunca. As nuvens se aproximaram. Gennie 
tentou ser mais rpida do que elas.
A pele se arrepiou em expectativa, o sangue esquentou, Grant saiu ao ar livre. Como um lobo, ele percebeu um aroma suspeito no ar, e foi  procura do mesmo. Estivera 
irrequieto demais para trabalhar, e tenso para relaxar. Alguma coisa o instigara durante toda a manh, encorajando-o a se mover, a procurar at encontrar. Disse 
a si mesmo que era a aproximao da tempestade, a falta de sono. Mas sabia, sem compreender, que cada uma dessas coisas era somente parte de um todo. Algo estava 
se remexendo de mais maneiras do que aquele caldeiro no cu.
Sentia fome sem querer comer, insatisfao sem saber o que podia mudar. Impaciente, de maneira impulsiva, enervara-se com o confinamento de seu estdio, todo cercado 
por paredes e vidros. O instinto o levara para fora, a fim de procurar o vento e o mar. E Gennie.
Sabia que ela estaria l, embora tivesse se convencido que fecharia sua mente at mesmo para pensar nela. Mas agora, vendo-a, estava abalado, to abalado como o 
cu do norte com o primeiro raio seguido de um trovo.
Grant nunca a tinha visto daquele jeito, mas entendia. Gennie estava em p com a cabea abaixada, num gesto de abandono ao trabalho, os olhos verdes brilhando com 
poder. Havia alguma coisa selvagem nela, apenas parcialmente devida ao vento, que fazia seus cabelos esvoaarem e o avental de pintura oscilar. Havia fora na mo 
que guiava o pincel to fluidamente e, ao mesmo tempo, com tanto propsito. Parecia ser uma rainha supervisionando seu domnio. Poderia ser uma mulher esperando 
por um amante. Com o sangue correndo alucinadamente nas veias, Grant pensou que ela era as duas coisas.
Onde estava a mulher que havia chorado em seus bruos apenas algumas horas antes? Onde estava a fragilidade, o desamparo que o apavorara? Ele lhe dera o conforto 
que fora capaz, embora no tivesse muita idia de como consolar uma mulher em sofrimento. Tinha falado sobre coisas de que no falava h 15 anos... porque Gennie 
precisava ouvir, e ele, por alguma razo indefinvel, precisava diz-las. E ento, a deixara porque se Mentira sendo engolido por alguma coisa desconhecida e inevitvel.
Agora, ela parecia invulnervel, magnfica. Aquela era unia mulher a que homem algum podia resistir, uma mulher que podia escolher e descartar amantes com um simples 
gesto. No era medo o que Grant sentia agora, mus desafio, e com o desafio, um desejo to avassalador que ameaava engoli-lo inteiro.
Ela parou de pintar com o som de um trovo e olhou pura o cu, numa espcie de exaltao. Ele a ouviu rir, uniu vez, com um desafio crescente que o fez lutar contra 
uma outra poderosa onda de desejo.
Em nome de Deus, quem era aquela mulher?, perguntou-se. E por que no era capaz de se afastar dela?
A excitao que a percorrera permaneceu mesmo aps laminar a pintura. Estava pronta, pensou Gennie com uma sensao de triunfo. Entretanto... havia mais alguma coisa. 
Sua paixo no tinha sido diluda pela consagrao de mulher e arte, mas ainda girava ao seu redor, impaciente, esperando.
Ento, ela o viu, com o mar e a tempestade nas costas dele. O vento soprou mais forte, fazendo o sangue de Gennie pulsar. Por um longo momento, eles apenas se entreolharam, 
enquanto troves e raios se aproximavam cada vez mais.
Ignorando-o, e ignorando a onda de calor que exigia que diminusse a distncia entre os dois, Gennie voltou-se para a tela. Aquilo, e apenas aquilo, era o que a 
chamava, disse a si mesma. Apenas aquilo era o que necessitava.
Grant observou-a guardar as tintas e os pincis. Havia alguma coisa tanto regia quanto desafiante na maneira como ela lhe dera as costas para arrumar o material. 
Contudo, ele no podia negar o abalo de reconhecimento que sentiu quando os olhos de ambos tinham se encontrado. Sob seus ps, o solo tremeu com o prximo trovo. 
Grant foi at ela.
A iluminao mudou, diminuindo quando as nuvens cobriram o sol. O ar estava carregado, centelhas podiam ser sentidas ao longo da pele. Gennie empacotou suas coisas 
com mos hbeis e firmes. Tinha vencido a tempestade aquela manh. Venceria qualquer coisa.
- Genvive. - Ela no era Gennie agora. Ele vira Gennie no jardim da igreja, rindo com jovialidade e encanto. Tinha sido Gennie quem o abraara, chorando. A risada 
daquela mulher podia ser baixa e sedutora, e ela nunca derramaria lgrimas. Mas quem quer que ela fosse, Grant estava enfeitiado, irrevogavelmente.
- Grant. - Gennie fechou a tampa do estojo de pintura antes de virar-se. - Voc saiu cedo.
- Voc terminou?
- Sim. - O vento soprou forte, jogando os cabelos no rosto dele, e, enquanto a expresso estava sria, os olhos eram escuros e impacientes. Gennie sabia que suas 
prprias emoes combinavam com as dele como dois lados da mesma moeda. - Eu terminei.
Voc vai embora agora. - Ele podia ver o brilho de triunfo no semblante de Gennie, e o humor imprevisvel nos olhos verdes.
- Daqui? - Ela jogou a cabea para trs e olhou para o mar. As ondas estavam mais altas, e no havia barcos na gua agora. - Sim. H outras coisas que quer(c) pintar.
Era o que ele queria. No desejava se livrar dela desde o comeo? Mas Grant no disse nada quando um outro trovo soou mais perto.
- Voc ter sua solido de volta. - O sorriso de Gennie foi leve e zombeteiro. - E isso  o que mais lhe importa, no ? Eu consegui o que precisava daqui.
Grant estreitou os olhos, mas no tinha certeza da origem de seu humor.
- Conseguiu?
- D uma olhada - convidou ela com um gesto da mo.
Ele no queria ver a pintura, tinha deliberadamente evitado olh-la. Agora, os olhos de Gennie o desafiavam c o movimento do pulso era insolente demais para recusar. 
Enfiando os polegares nos bolsos, Grant virou-se em direo  tela.
Ela captava muito do que ele precisava l, do que sentia. O poder do mar ilimitado, a glria do espao e o desafio interminvel. Desprezara as cores suaves, e escolhera 
as mais arrojadas. Tinha trocado a delicadeza pela fora. A tela, que estivera em branco um dia, possua agora a fora total e turbulenta do Atlntico, e estava 
repleta de segredos. Os segredos eram da natureza, assim como a fora e a solidez do farol eram do homem. Gennie capturara ambos, contrapondo-os mesmo enquanto mostrava 
a harmonia infinita entre eles.
A pintura mexeu com Grant, perturbou-o, abalou-o, tanto quanto a sua criadora.
Gennie sentiu a tenso na base da nuca enquanto Grant estudava o desenho. Sabia que era tudo o que queria, sentia que talvez fosse o melhor trabalho de sua vida. 
Mas era Grant... seu mundo, sua fora, seus segredos que haviam dominado as emoes dela enquanto estava pintando. Assim que acabara de pintar, o trabalho deixara 
de ser seu, e se tornara dele.
Grant afastou-se um passo da tela e olhou para o mar. Os raios estavam mais perto, enviando seu brilho perigoso atrs das nuvens escuras e zangadas. Ele parecia 
ter perdido as palavras, as frases que sempre lhe vinham to facilmente. No podia pensar em nada, exceto em Gennie, e no desejo que passara a dar ns em seu estmago.
- Est bom - foi tudo o que ele disse.
Grant podia ter batido nela que no a machucaria mais. O pequeno gemido de Gennie foi coberto pelo barulho do vento. Por um momento, olhou-o enquanto a dor a dilacerava. 
Rejeio... nunca pararia de expor-se  rejeio dele?
O sofrimento foi substitudo por raiva em questo de segundos. No precisava da aprovao de Grant, do prazer, da compreenso. Tinha tudo que necessitava dentro 
de si mesma. Em raiva silenciosa, guardou a tela em sua sacola a tiracolo, ento dobrou o suporte. Juntando suas coisas, virou-se para ele vagarosamente.
- Antes de partir, eu gostaria de lhe dizer uma coisa. A voz dela era fria. - Freqentemente, a primeira impresso que temos de algum no  muito precisa. Na primeira 
noite que eu o conheci, achei-o um homem rude, arrogante e sem capacidade de se redimir. - O vento jogou cabelos nos olhos de Gennie, que, com um meneio de cabea, 
os colocou para trs, de modo que pudesse manter o olhar gelado em Grant. -  muito gratificante saber que eu estava absolutamente certa... e ser capaz de detestar 
voc to intensamente. - Erguendo o queixo, virou-se e foi para o carro.
Ela abriu o porta-malas e guardou seu material e a tela, perversamente satisfeita em deixar fluir a fria que a consumia. Quando Grant segurou-lhe o brao, Gennie 
fechou o porta-malas e virou-se, pronta para lutar em quaisquer termos, por qualquer razo. Cega por suas emoes, no notou o calor nos olhos dele ou a respirao 
acelerada.
- Acha que vou simplesmente deix-la ir? - reclamou Grant. - Acha que pode entrar na minha vida, invadi-la e mio deixar nada para trs?
O peito de Gennie estava se movimentando com a respirao, os olhos brilhavam. Com desdm calculado, olhou para os dedos que circulavam seu brao.
Tire sua mo de mim! - ordenou, espaando as palavras com preciso insolente.
Raios coloriram o cu enquanto eles se entreolhavam. O alto estrondo do trovo abafou a exclamao que Grant praguejou. O momento parecia suspenso no ar, crepitando, 
depois passou rpido como o vento que gritava em triunfo.
- Voc devia ter aceitado meu conselho - disse ele entre dentes -, e ficado com seus condes e bares. - Ento, Grant a estava puxando ao longo do gramado espesso, 
contra o vento.
- O que voc pensa que est fazendo?
- O que eu devia ter feito no momento em que voc entrou na minha vida.
Assassinato? Gennie olhou para os penhascos e o mar encolerizado abaixo. Deus sabia que ele parecia pronto para fazer uma loucura a qualquer momento... e talvez 
quisesse convenc-la de que era capaz de jog-la do precipcio. Mas ela sabia o que a violncia de Grant significava, e para onde levaria ambos. Lutou desesperada 
enquanto ele a puxava em direo ao farol.
- Voc deve estar louco! Solte-me!
- Devo estar- concordou ele friamente. Um outro raio veio, abrindo o cu. A chuva caiu.
- Eu disse para voc me soltar!
Grant virou-se para ela ento, o rosto esculpido e sombreado na louca luz da tempestade.
-  tarde demais para isso agora! - gritou ele. - Que coisa, voc sabe disso tanto quanto eu.  tarde demais desde o primeiro minuto. - A chuva caa sobre eles, 
forte e quente.
- No vou ser arrastada para a sua cama, est me ouvindo? - Gennie agarrou-lhe a camisa ensopada com a mo-livre, enquanto seu corpo vibrava com fria e desejo. 
- No serei arrastada para lugar nenhum. Voc acha que pode simplesmente resolver que precisa de uma amante e me carregar?
A respirao dele estava totalmente descontrolada. A chuva molhando o rosto bonito apenas acentuava a paixo dos olhos. Gennie estava suave e molhada. Uma sereia? 
Talvez fosse, mas ele j naufragara no recife.
- No qualquer amante. - Ele a puxou para si, de modo que as roupas de ambos se fundiram, e, ento, pareceram derreter. - Voc. Que coisa, Gennie, sabe que  voc.
Os rostos deles estavam muito prximos, os olhos presos um no outro. Haviam esquecido a tempestade a seu redor quando a tempestade interior os dominou. Corao batendo 
contra corao. Desejo encontrando desejo. Repleta de medo e triunfo, Gennie jogou a cabea para trs.
- Mostre-me.
Grant a puxou para mais perto, de modo que nem o vento pudesse passar entre os dois.
- Aqui - disse ele com voz rouca. - Por Deus, aqui e agora.
Sua boca tomou a dela com loucura, e Gennie respondeu. Sem freios, a paixo lhes tirou a sanidade, indo alm do que era civilizado e pelo tnel escuro do desejo 
catico. Os lbios de Grant moviam-se com velocidade pelo rosto dela, parecendo devorar tudo o que podia ser consumido e mais. Quando os dentes dele roaram-lhe 
o pescoo, Gennie gemeu e arrastou-o consigo para o solo.
O vento murmurava seus lamentos, a chuva caa com Tora, e as ondas do mar batiam com violncia contra as pedras. No havia nada diante daquela tempestade. Grant 
esqueceu-se de tudo quando pressionou o corpo contra ela, sentindo cada curva e linha como seja a tivesse despido. O corao de Gennie batia descompassado. Parecia 
ter sado do peito para fundir-se com o dele.
O corpo delicado parecia em brasas. Grant no sabia que poderia haver tanto calor em uma coisa viva. Mas ela estava mais do que viva, movendo-se sob ele, as mos 
explorando, a boca vida. A chuva que os ensopava deveria esfriar o fogo, todavia, parecia aumentar, de modo que a gua teria fervido com o contato.
Grant conhecia apenas o desejo, uma necessidade eterna e primitiva. Ela o enfeitiara desde o primeiro instante, e agora, finalmente, ele sucumbira. As mos de Gennie 
estavam em seus cabelos, a boca roubando a sua com uma fora e poder somente compatvel com os dele. Num gesto frentico, ela puxou-lhe a camisa, at conseguir tir-la 
pela cabea e jog-la longe. Com um gemido longo e baixo, deslizou as mos por seu peito. A razo de Grant evaporou.
De modo rude, ele pressionou-a contra o cho, tirando-lhe o flego enquanto os raios brilhavam acima. Ignorando os botes, tirou-lhe a blusa, desesperado para tocar 
o que tinha negado a si mesmo por dias. Deslizou as mos pela pele molhada, massageando, possuindo, apressando-se em sua avidez por mais. E quando Gennie arqueou-se 
contra ele, gil e exigente, Grant enterrou a boca em um dos seios e perdeu-se.
Provou o gosto da chuva nela, juntamente com os troves de vero e o aroma de Gennie. Como um homem se afogando, agarrou-se a ela quando pareceu alcanar guas profundas. 
Sabia como era desejar uma mulher, mas nunca havia se sentido daquela maneira. Desejo podia ser controlado, canalizado, direcionado. Ento, o que era aquilo que 
o golpeava? Seus dedos a machucavam, mas no tinha conscincia disso em seu desespero de absorver tudo, e absorver bem rpido.
No momento em que levou a cala de Gennie at os quadris, sentiu tanto excitao quanto frustrao, pois o jeans agarrou-se  pele e quelas curvas maravilhosas? 
Lutando contra o brim molhado, seguiu o progresso da descida da roupa com a boca, tremendo quando Gennie arqueou-se e gemeu. Grant usou os dentes para mordiscar-lhe 
os quadris, deslizando para o interior das coxas assim que lhe tirou o jeans.
Com ansiedade, inseriu a lngua no centro de sua feminilidade e a ouviu gemer com o vento. O calor expandiu-se pelo corpo de Grant. Nem mesmo sentia a chuva que 
batia em suas costas, escorria de seus cabelos para a pele de Gennie, mas no fazia nada para diminuir a paixo que aproximava cada vez mais os dois de um poderoso 
clmax.
Em seguida, eles estavam lutando com o jeans de Grant, as mos se entrelaando enquanto os lbios se fundiam novamente. Os murmrios baixinhos que saam da garganta 
de Gennie podiam ser o nome dele, ou algum novo feitio que estava lhe jogando. Grant no mais se Importava.
Um raio iluminou o rosto dela uma vez, brilhantemente... a inclinao das mas das faces, os olhos quase fechados, os lbios suaves entreabertos e tremendo com 
a respirao. No momento, Gennie era a feiticeira, e Grant estava se deixando enfeitiar de bom grado.
Com a boca contra a pulsao acelerada no pescoo de Gennie, ele a penetrou, fazendo isso com um tipo de adorao que no compreendia. Sentindo-a tencionar e ouvindo-a 
gritar, Grant esforou-se para encontrar sua sanidade e sua razo. E logo, ela o estava abraando fortemente.
Quase sem flego, confuso, vazio, Grant deitou-se com o rosto enterrado nos cabelos de Gennie. A chuva ainda caa, mas, at aquele momento, no tinha percebido que 
estava mais fraca. A tempestade havia passado, consumida por si mesma como todas as coisas da paixo. Ele sentiu as batidas aceleradas do corao dela sob o seu. 
Fechando os olhos, tentou reunir foras e o controle que, para ele, significava lucidez.
- Oh, meu Deus - murmurou ele, a voz rouca e ofegante. O pedido de desculpas no viria, uma vez que o considerava intil. - Por que voc no me contou? - perguntou, 
saindo de cima dela e deitando-se de costas contra a grama molhada. - Que coisa, Gennie, por que no me contou?
Ela manteve os olhos fechados para que a chuva casse sobre suas plpebras, sobre o rosto e o corpo trmulo. Ento, era assim?, perguntou-se. Deveria se sentir to 
exausta, to enfraquecida enquanto sua pele pulsava em todos os lugares, em todas as partes que as mos msculas haviam tocado? Deveria se sentir como se cada lacre 
que possua tivesse sido rompido? Por quem, se por ele ou por ela, no importava. Mas sua privacidade desaparecera, assim como a necessidade da mesma. Todavia, agora, 
ouvindo a pergunta spera... de acusao... sentia uma onda de dor mais aguda do que a perda de sua inocncia. Ela no disse nada.
- Gennie, voc me fez pensar que era...
- O qu? - quis saber, abrindo os olhos. As nuvens ainda estavam escuras, mas os raios haviam sumido.
Praguejando, Grant passou uma das mos pelos cabelos.
- Gennie, voc deveria ter me contado que nunca esteve com um homem antes. - E como era possvel, perguntou-se Grant, que ela no deixara nenhum homem loc-la antes? 
Que ele era o primeiro... o nico.
- Por qu? - disse ela sem rodeios, desejando que ele partisse, desejando que tivesse foras para partir. - Era problema meu.
Suspirando, ele mudou de posio, inclinando-se sobre da. Os olhos estavam escuros e zangados, porm, quando Gennie tentou se afastar, Grant a prendeu.
- No sou muito gentil - murmurou ele, e as palavras eram repletas de sentimento. - Mas eu teria usado toda a gentileza que possuo, teria tentado encontrar mais, 
por voc. - Quando ela apenas o fitou, Grant beijou-lhe a lesta. - Gennie...
As dvidas, os medos de Gennie se derreteram com aquela nica palavra sussurrada.
- Eu no estava procurando por gentileza naquele momento - disse ela. Segurando-lhe o rosto com ambas as mos, acrescentou: - Mas agora... - Sorrindo, viu a expresso 
interrogativa desaparecer dos olhos de Grant.
Ele beijou-lhe os lbios, de leve, mais como um suspiro e, ento, levantando-se, pegou-a no colo. Gennie riu da sensao de leveza.
- O que voc est fazendo agora?
- Levando-a para dentro, para que possa se secar, esquentar e fazer amor comigo de novo... talvez no nessa ordem.
Gennie curvou os braos ao redor do pescoo dele.
- Estou comeando a gostar de suas idias. E quanto as nossas roupas?
- Podemos salvar o que sobrou delas mais tarde. - Ele i abriu a porta do farol. - No precisaremos de roupas por um bom tempo.
- Estou definitivamente gostando de suas idias. - Ela roou-lhe o pescoo com a boca. - Voc vai mesmo me carregar escada acima?
- Sim.  
Gennie olhou para a escada em espiral e apertou mais os braos ao redor dele.
- Eu s gostaria de mencionar que no ser muito romntico se voc tropear e me derrubar.
- As mulheres caluniam meu machismo.
- Seu equilbrio - corrigiu ela, enquanto Grant comeava a subir. Gennie tremeu quando a pele molhada comeou a esfriar, ento riu abruptamente.
- Grant, j lhe ocorreu o que aquela pilha de roupas l fora vai parecer se acontecer de algum passar por l?
- Provavelmente vai parecer o que  - respondeu ele. - O que desencorajaria algum de invadir um terreno. Eu devia ter pensando nisso antes... muito melhor do que 
uma placa escrita: "Cachorro Assassino".
Gennie suspirou, em parte de alvio, quando atingiram no topo da escada.
- Voc  impossvel. Qualquer um pensaria que  Clark Kent.
Grant parou  porta do banheiro para olh-la. Pode repetir isso?
- Voc sabe, escondendo uma identidade secreta. Embora voc no seja nada alm de conciliatrio - acrescentou ela enquanto brincava com um cacho mido perto da orelha 
de Grant. - Voc ergueu este farol como tipo de Fortaleza da Solido. 
O longo olhar intenso continuou. 
- Qual era o primeiro nome da me de Clark Kent? 
- Isso  uma investigao? 
- Voc sabe? 
Ela arqueou uma sobrancelha porque os olhos dele ficaram subitamente srios. 
- Martha.
- No acredito - murmurou Grant. Ento riu, deu-lhe um beijo estranhamente amigvel, considerando que estavam nus e abraados. - Voc continua me surpreendendo Genvive. 
Acho que estou louco por voc.
As palavras leves acertaram em cheio o corao dela. 
- Porque sei o primeiro nome da me de criao do Super-homem?
Grant roou o rosto contra ela, o primeiro gesto inteiramente doce que Gennie via da parte dele. Naquele instante, se sentiu perdida, e nunca estivera perdida antes.
-  uma das razes. - Sentindo-a tremer, Grant a aconchegou mais ao seu corpo. - Vamos para o banho. Voc est congelando.
Ele entrou na banheira antes de coloc-la no cho, ento, ainda segurando-a perto, deu-lhe um beijo demorado. Com a tempestade, com a paixo, Gennie no tinha se 
sentido vulnervel. Agora, no mais inocente, no mais inconsciente, os nervos retornaram. H pouco entregara-se de corpo e alma, talvez at tivesse exigido que 
ele a possusse, mas agora podia apenas abra-lo enquanto sua cabea se enchia de dvidas.
Quando a gua quente veio com fora total, ela balanou, gemendo. Rindo baixinho, Grant alisou-lhe o quadril com intimidade.
-  gostoso?
Era, depois do choque inicial, mas Gennie inclinou a cabea e o fitou.
- Voc podia ter me avisado.
- A vida  cheia de surpresas.
Como apaixonar-se, pensou Gennie, quando voc no tinha a menor inteno de fazer isso. Ela sorriu, descobrindo seus braos ao redor do pescoo de Grant.
- Sabe - ele traou o contorno de seus lbios de leve com a lngua -, estou ficando acostumado com o seu gosto... e com a sensao de voc molhada. E tentador ficar 
aqui pelas prximas horas.
Gennie roou-se contra ele quando as mos fortes deslizaram por suas costas. Mos rsticas em contraste com a elegncia do formato das mesmas. No podia imaginar 
outras mos diferentes daquelas tocando-a.
Com o vapor ao seu redor, e Gennie suave e entregue em seus braos, Grant sentiu o desejo avassalador despertando outra vez. Seus msculos se contraram... preparando-se.
- No, no dessa vez - murmurou ele, beijando-lhe o pescoo com sensualidade. Dessa vez, iria se lembrar da li agilidade de Gennie, e da bno de ser o nico homem 
que j a possura. Quaisquer gestos ternos que tivesse, ou que pudesse encontrar em si mesmo, seriam para ela.
- Voc devia se enxugar. - Ele mordiscou-lhe os lbios de leve antes de afast-la. Ela estava sorrindo, mas os olhos pareciam incertos. Desligando o chuveiro, Grant 
tentou ignorar o medo muito real que a vulnerabilidade de Gennie lhe provocava. Pegando uma toalha do suporte, secou-lhe o rosto. 
- Aqui, levante os braos.
Ela o fez, colocando as mos sobre os ombros largos, enquanto ele enrolava a toalha em seu corpo. Vagarosamente, com suavidade, trilhando beijinhos no rosto dela, 
prendeu a toalha de forma imprecisa acima dos seios perfeitos. Gennie fechou os olhos, para melhor apreciar a sensao de ser mimada.
Usando uma outra toalha, Grant comeou a secar-lhe os cabelos. Com gentileza, preguiosamente, e enquanto o corao de Gennie disparava, enrolou a toalha nos cabelos 
dela.
- Quentinha? - murmurou ele, inclinando a cabea paia mordiscar-lhe a orelha. -Voc est tremendo!
Como ela podia responder quando o corao estava batendo na garganta? Uma onda de calor a percorria, mesmo que seu corpo estivesse tremendo de ansiedade, incerteza, 
desejo. Grant tinha apenas de tocar-lhe a boca com a sua para saber que, no momento, para sempre, ela era dele.
- Quero voc - sussurrou Grant suavemente. - Eu a quero desde o comeo. - Ele traou-lhe a linha da orelha com a lngua. - Voc sabe disso.
- Sim. - A palavra saiu ofegante, como um suspiro.
- Sabe que eu a quero mais agora do que queria uma hora atrs? - Ele cobriu-lhe a boca antes que ela pudesse responder. - Vamos para cama, Gennie.
Ele no a carregou, mas pegou-lhe a mo, de modo que pudessem andar juntos para a parca luz acinzentada do quarto. A pulsao de Gennie acelerou.
Da primeira vez, no pensara em nada, no houvera dvidas. O desejo a conduzira e o poder flura. No momento, sua mente estava clara e os nervos  flor da pele. 
Sabia agora aonde Grant poderia lev-la com um toque, com um beijo. A jornada era tanto temvel quanto desejada.
- Grant...
Mas ele mal a tocava. Apenas segurava-lhe o rosto quando pararam ao lado da cama.
- Voc  linda. - Os olhos estavam fixos nela, intensos, examinadores. - Da primeira vez que eu a vi, voc me tirou o flego. Ainda faz isso.
Movida pelo olhar intenso e as palavras suaves, da mesma forma que tinha sido pelos beijos tempestuosos, Gennie segurou-lhe os pulsos.
- No preciso das palavras, a menos que voc queira oferec-las. Apenas quero estar com voc.
- Tudo o que eu lhe disser ser a verdade, ou ento no lhe direi nada. - Grant inclinou-se, tocando-lhe a boca com a sua, mas apenas mordiscando, testando a maciez, 
saboreando o gosto de mel. Continuando com gestos amenos, acariciou-lhe o rosto devagar. A cabea de Gennie uniu leve, enquanto o corpo se tornava mais pesado. Mal 
sentiu o movimento quando ele a deitou na cama. De repente, parecia sentir tudo... as pequenas salincias do colcho, a textura nem muito suave nem muito spera 
das palmas de Grant, os plos macios no peito largo. 
Sentiu tudo, como se sua pele subitamente tivesse se tornado to delicada e sensvel como a de um recm-nascido. E Grant a tratava como se ela fosse to preciosa 
quanto um beb, com beijos leves e sussurrados em seu ouvido, com mos que a tocavam com delicadeza e extrema sensualidade.
A sensao de estar flutuando que experimentara no jardim da igreja voltava, mas agora com a excitao do acontecimento. Ciente de onde podiam levar um ao outro, 
Gennie suspirou. Dessa vez, a jornada seria luxuriosa, preguiosa e adorvel.
A luz que penetrava pela janela era fraca, acinzentada pelas nuvens que ainda cobriam o sol. Uma luz que lanava sombras e mistrios. Ela podia ouvir o mar... no 
o barulho violento, ensurdecedor, mas o eco e a promessa de poder. E quando Grant murmurava para ela, era como o mar, com seu impulso apaixonado. A urgncia que 
Gennie sentira antes havia se transformado em um prazer tranqilo. Embora o desejo no fosse menor, havia conforto agora, uma confiana inquestionvel que nunca 
esperara sentir. Ele a protegeria se necessrio fosse, amando do seu prprio jeito. Sob o jeito agressivo e impaciente, havia um homem que podia dar sem egosmo. 
Descobrir isso era descobrir tudo.
Toque-me... nunca mais pare de me tocar. E ele parecia ouvir seu pedido silencioso enquanto a acariciava, explorava-a sem pressa. O prazer era doce e leve, como 
um rio preguioso, como a chuva caindo. A mente de Gennie estava to repleta dele, que no mais pensava em seu corpo separadamente, mas como uma parte de dois que 
formava um todo.
Murmrios suaves e suspiros serenos, o calor que apenas a pele podia dar  pele. Gennie aprendeu com ele... o homem que raramente se mostrava a algum. Sensibilidade, 
porque no era o jeito de Grant, tornava tudo ainda mais doce. A gentileza, to profundamente guardada, excitava ainda mais.
Gennie mal percebeu quando sua brandura se transformou em excitao. Mas Grant percebeu. A sbita mudana nos movimentos de Gennie e a respirao acelerada enviaram 
um arrepio de prazer pela coluna dele. E sentiu ainda mais prazer no momento em que lhe observou o rosto na luz sombria. Uma onda de paixo o relembrou de que ningum 
a tocara antes. E ningum jamais a tocaria. Por muito tempo, tomara muito cuidado para no permitir que ningum se aproximasse demais, para bloquear quaisquer sentimentos 
de possesso, para evitar ser possudo. Apesar de a sensao de propriedade perturb-lo, no podia lutar contra isso. Gennie era sua. Grant disse a si mesmo que 
isso ainda no significava que ele era dela. Todavia, no podia pensar em ser de ningum mais.
Grant trilhou beijos sobre a pele suave vagarosamente, at que a boca roou e, ento, permaneceu em seu ombro. E quando a sentiu inquestionavelmente rendida, penetrou-a 
uma vez, gemendo, at o fundo. Com o gemido de Gennie, tocou-lhe os lbios com os seus, querendo sentir o som tanto quanto ouvi-lo.
Abandonada, com o corpo em chamas, Gennie moveu-se com ele, respondendo ao agonizante ritmo lento apenas por instinto. Queria apressar o ritmo, ficar naquele mundo 
nublado de sonhos para sempre. Agora, e apenas "gora, entendia completamente por que a unio de dois seres humanos independentes chamava-se fazer amor.
Gennie abriu-se para ele, oferecendo tudo. Quando Grant deslizou para seu interior, ela o sentiu tremer, ouviu o gemido que foi abafado contra seu pescoo. Com a 
respirao roando-lhe a orelha, ele continuou o ritmo maravilhosamente lento. Ela jamais imaginara que um beijo de amor podia ser uma coisa to mgica... mas Grant 
lhe mostrou.
Gennie foi levada ao mais incrvel paraso, at que toda sua existncia foi reunida ali, no calor aveludado que prometia a eternidade. A razo desapareceu por completo 
e o seu corpo foi guiado apenas por instintos. Grant estava tremendo... Ela tambm? Deslizando as mos pelos ombros poderosos, podia sentir os msculos tensos e 
rgidos, enquanto os movimentos dele eram gentis e tranqilos. Atravs da nvoa de prazer, sabia que Grant estava bloqueando as prprias necessidades por ela. Uma 
onda de emoo a abalou, e era uma centena de vezes maior do que paixo.
- Grant. - O nome foi seu nico sussurro quando envolveu os braos ao redor dele. - Agora. Possua-me agora.
- Gennie. - Ele ergueu o rosto para fit-la intensamente antes de cobrir-lhe a boca. O controle de Grant pareceu esvair-se com o contato e ele engoliu os gemidos 
dela, enquanto acelerava o ritmo e levava ambos ao topo do mundo.
No havia mais pensamentos ou a necessidades para nenhum deles.



Oito

Espreguiando-se vagarosamente e com um longo suspiro, Gennie despertou. Um hbito enraizado a acordou cedo e muito rpido. Sua primeira sensao de desorientao 
desapareceu quase de imediato. No, o sol que ardia na janela no era o seu, mas sabia de quem era. Subia onde estava e por qu.
O aconchego da manh tinha uma nova textura... dois corpos unidos, homem e mulher, amantes. Simultneas ondas de contentamento e excitao a percorreram, acabando 
com qualquer senso de entorpecimento. Virando a cabea, observou Grant dormir. 
Ele estava esparramado, ocupando aproximadamente trs quartos da cama, descobriu divertida. Durante a noite empurrara-a para a beira da cama. O brao msculo estava 
sobre o corpo de Gennie... no de uma maneira amorosa, mas simplesmente porque ela estava em seu espao. Grant tambm ocupava a maior parte do travesseiro dela. 
Contra a fronha branca, o rosto era profundamente bronzeado, sombreado pelos plos que cresciam no maxilar. Olhando-o, Gennie percebeu que ele estava completamente 
relaxado como o vira somente uma vez antes... durante a caminhada deles ao longo da praia.
O que move voc, Grant?, perguntou em silncio enquanto cedia ao desejo de brincar com as pontas dos cabelos desalinhados dele. O que o faz ser to intenso, to 
solitrio? E por que quero desesperadamente entender e compartilhar quaisquer segredos seus?
Com a ponta do dedo, com cuidado e delicadamente, Gennie traou-lhe a linha do maxilar. Um rosto forte, pensou, quase severo; entretanto, ocasionalmente, de forma 
inesperada, o humor e sensibilidade surgiam nos olhos escuros. Ento, a severidade evaporava, e apenas a fora permanecia.
Rude, distante, arrogante, Grant era todas essas coisas. E ela o amava, apesar disso, ou talvez, por causa disso. Tinha sido a gentileza que ele lhe mostrara que 
a permitira admitir seu amor, aceitar, mas o amara o tempo todo.
Estava ansiosa para contar-lhe isso, dizer aquelas simples palavras adorveis. Havia compartilhado seu corpo com ele, entregado sua inocncia e sua confiana. Agora, 
queria compartilhar suas emoes. Amor, acreditava, deveria ser dado livremente, sem condies. Todavia, conhecia-o bem o bastante para entender que tal passo teria 
de ser dado por ele primeiro. A natureza de Grant necessitava isso. Um outro homem poderia se sentir lisonjeado, satisfeito, at mesmo aliviado em ter uma mulher 
declarando seus sentimentos com tanta facilidade. Grant, refletiu Gennie, se sentiria encurralado.
Deitada imvel, observando-o, perguntou-se se havia tido uma outra mulher que o fizera se isolar daquela maneira. Gennie tinha certeza de que fora dor ou desiluso. 
Ao que o tornara to determinado a no deixar ningum se aproximar. Havia uma amabilidade bsica em Grant, a qual ele escondia, um talento que aparentemente no 
eslava usando, e um entusiasmo contido. Por qu? Com um suspiro, ela tirou-lhe uma mecha de cabelos da testa. Eram os mistrios de Grant. Gennie apenas rezava que 
tivesse pacincia para esperar at que ele estivesse pronto para compartilh-los.
Excitada, contente, aninhou-se contra ele, murmurando seu nome. A resposta de Grant foi um murmrio incompreensvel quando se virou de bruos e enterrou o tosto 
no travesseiro. O movimento custou a Gennie mais alguns centmetros preciosos do colcho.
- Ei! - Rindo, ela empurrou-lhe o ombro. - V mais para l.
Nenhuma resposta.
Voc  incrivelmente romntico, pensou ela com ironia, dando-lhe um beijo no ombro, saiu da cama. Grant imediatamente se aproveitou de todo o espao disponvel.
Um solitrio, pensou Gennie, estudando-o deitar-se transversalmente sobre os lenis amassados. No era um homem acostumado a dar espao para algum. Com um ultimo 
olhar pensativo, ela atravessou o corredor e foi para o chuveiro.
Gradualmente, o som a gua correndo o acordou, confuso, Grant continuou deitado, perguntando-se quanto tempo seria necessrio para abrir os olhos. Era seu hbito 
enraizado adiar o momento de se levantar at que no pudesse mais ser evitado.
Com o rosto enterrado no travesseiro, pde sentir o aroma de Gennie. O que lhe trouxe imagens sonhadoras, imagens ardentes, mas no inteiramente claras. Eram vises 
suaves e ternas que tanto excitavam quanto tranqilizavam.
Meio dormindo ainda, Grant movimentou-se o bastante para descobrir que estava sozinho na cama. O calor dela ainda estava l... nos lenis, na sua pele. Continuou 
deitado por um momento, incerto do motivo pelo qual se sentia to bem, mas no tentou descobrir a resposta.
Lembrava-se da sensao de Gennie em seus braos, do gosto, do jeito como a pulsao dela acelerava sob o toque de seu dedo. J existira alguma mulher que o fizera 
desej-la com tanto desespero? Que podia deix-lo confortvel num instante, e enlouquecido no momento seguinte? O quo perto estava da fronteira entre querer e precisar, 
ou j a tinha cruzado?
Havia outras questes com as quais no podia lidar... no agora enquanto sua mente ainda estava nublada de sono e repleta de pensamentos sobre Gennie. Precisava 
despertar, e depois distanciar-se dela antes que pudesse encontrar algumas respostas.
Grogue, sentou-se na cama, esfregando a mo no rosto quando Gennie retornou.
- Bom dia. - Com os cabelos enrolados numa toalha, e o robe de Grant amarrado na cintura, Gennie se sentou na beira da cama. Unindo as mos atrs do pescoo dele, 
inclinou-se e beijou-o. Cheirava ao sabonete e ao xampu dele... algo que tornou o beijo fcil e devastadoramente ntimo. E quando aquilo comeou a excit-lo, ela 
afastou-se para lhe dar um sorriso amigvel.
- J est acordado?
- Quase. - Porque queria ver-lhe os cabelos, Grant puxou-lhe a toalha da cabea, deixando-a cair no cho. Faz tempo que est acordada?
- S desde que voc me empurrou para fora da cama. Ela riu quando ele franziu o cenho. - Isso no  muito exagero. Quer um caf?
- Sim. - Quando Gennie se levantou, ele pegou-lhe a mo, segurando-a at que o sorriso dela se tornou intrigado. O que ele queria lhe dizer?, perguntou-se Grant. 
O que queria dizer a ela... ou a si mesmo? No tinha certeza de nada, exceto do conhecimento de que o que acontecia em seu interior j estava muito avanado para 
ser detido.
- Grant?
- Descerei num minuto - murmurou ele, sentindo-se tolo. Eu fao o caf da manh, dessa vez.
- Tudo bem. - Gennie hesitou, imaginando se ele ia falar o que realmente pretendera, ento, o deixou sozinho. Grant permaneceu na cama por um momento, ouvindo o 
som dos passos de Gennie na escada. Os passos dela... a escada dele. De alguma maneira, a linha de demarcao mi confusa. No sabia ao certo se poderia se deitar 
na fama outra vez sem pensar em Gennie enroscada a seu Indo.
Porm, tivera outras mulheres, disse a si mesmo. Apreciara-as. E as esquecera. Por que tinha tanta certeza de que havia algo diferente em Gennie, que no poderia 
esquecer? Nada, nem mesmo a pequena marca de nascena que encontrara no quadril bem formado... uma meia-lua que podia cobrir com seu dedo mnimo. Tolamente, o fato 
de descobrir aquilo o agradara... algo que sabia que nenhum outro homem tinha visto ou tocado.
Estava agindo como um tolo, disse a si mesmo... encantado pelo fato de ser o primeiro amante de Gennie, obcecado com a idia de ser o ltimo, o nico. Precisava 
ficar sozinho por um tempo, a fim de colocar seus sentimentos de volta em perspectiva. A ltima coisa que queria era comear a colocar amarras nela, e, conseqentemente, 
em si mesmo.
Levantando-se, mexeu nas gavetas at encontrar uma cueca. Faria o caf da manh, mandaria Gennie para casa, e depois voltaria ao trabalho.
Mas, quando chegou  base da escada, sentiu o aroma de caf e ouviu-a cantando. Grant ficou impressionado com a poderosa onda de dj vu. Podia explicar isso, e 
racionalizou, porque era exatamente como na primeira manh depois que a conhecera. Porm, a explicao era muito lgica para a fora do sentimento que o dominava 
agora. Era mais do que alguma coisa que j tinha vivenciado... era uma sensao de estar no lugar certo, com a pessoa certa, de um prazer to simples que chegava 
a doer. Se entrasse naquela cozinha cem vezes, anos aps anos, nunca mais pareceria completa, inteira, a menos que Gennie o estivesse esperando.
Grant parou  porta para observ-la. O caf estava pronto e quente, enquanto ela se esticava para pegar as canecas que ele podia alcanar com facilidade. O sol enviava 
luz para os longos cabelos pretos, criando reflexos lindamente avermelhados. Ela virou-se, perdendo o flego com a surpresa quando o avistou, ento sorriu.
- Eu no ouvi voc descendo. - Gennie balanou os cabelos atrs do ombro e comeou a servir o caf. - Est um lindo dia. A chuva deixou tudo brilhando e o oceano 
est mais azul do que verde. Ningum diz que houve uma tempestade. - Pegando uma caneca em cada mo, virou-se. Embora pretendesse passar por ele, a expresso nos 
olhos de Grant a deteve. A perplexidade rapidamente deu lugar  tenso. Ele estava zangado?, perguntou-se. Por qu? Talvez j estivesse arrependido do que tinha 
acontecido. Por que era to tola em pensar que ambos haviam vi vendado uma coisa incrivelmente especial, e que fora to nica para Grant quanto tinha sido para ela?
Os dedos de Grant se apertaram na maaneta. Ela no o deixaria se desculpar. No causaria uma cena. A dor era fsica, realmente fsica, mas Gennie disse a si mesma 
para ignor-la. Mais tarde, quando estivesse sozinha, lidaria com isso. Porm, agora, o encararia sem lgrimas, sem apelos.
- H alguma coisa errada? - Aquela era a sua voz, to mima, to controlada?
- Sim, h alguma coisa errada. 
Gennie apertou as canecas com tanta fora, que se perguntou como as asas no quebraram. Entretanto, aquilo evitava que suas mos tremessem.
- Talvez devssemos nos sentar.
- Eu no quero sentar. - A voz dele era agressiva como um tapa, mas ela no acovardou-se. Observou-o andar at a pia e encostar-se, murmurando e praguejando. Em 
um outro momento, o gesto to tpico de Grant a teria divertido, mas agora Gennie apenas esperou. Se ele iria machuc-la, que o fizesse logo de uma vez, antes de 
despedaar-lhe o corao. Ele virou-se, quase com violncia, e a olhou de modo acusador. - Que coisa, Gennie, eu tive minha cabea cortada!
Era a vez dela de encar-lo. Seus dedos amoleceram ao redor da xcara. O pulso pareceu parar de bater, um segundo antes de acelerar loucamente. A cor esvaiu-se de 
seu rosto, at que parecia de porcelana contra o brilho dos olhos verdes. Com uma outra praga, Grant passou uma das mos pelos cabelos.
- Voc est derrubando o caf - murmurou ele, ento enfiando as mos nos bolsos.
- Oh! - Gennie olhou tolamente para as duas poas gmeas que estavam se formando no cho, ento, colocou as canecas sobre a pia. - Eu vou... limpar.
- Deixe isso. - Grant segurou-lhe o brao antes que ela pudesse alcanar o pano. - Oua, estou me sentindo como se algum tivesse acabado de me dar um soco no estmago... 
o tipo de soco que faz voc se dobrar e sua cabea girar ao mesmo tempo. Sinto-me dessa maneira muito freqentemente quando olho para voc. - Quando ela no respondeu, 
ele segurou-lhe o outro brao e sacudiu-a. - Para comear, nunca pedi que voc entrasse em minha vida e confundisse a minha cabea. A ltima coisa que eu queria 
era que voc entrasse em minha vida, mas isso aconteceu. Ento, agora estou apaixonado por voc, posso lhe garantir, no gosto da idia.
Gennie encontrou a voz, embora no soubesse bem o que fazer com isso.
- Bem - conseguiu aps um momento -, isso certamente me coloca em meu lugar.
- Oh, ela quer fazer piadas. - Desgostoso, Grant a liberou para pegar o caf. Erguendo a caneca, bebeu metade do contedo, perversamente satisfeito por ter queimado 
a garganta. - Bem, ria disso - sugeriu ele, batendo a caneca contra a pia e olhando-a. - Voc no vai lugar algum antes que eu decida o que vou fazer com voc.
Lutando contra emoes conflitantes de divertimento, irritao e simples curiosidade, Gennie ps as mos nos quadris. O movimento deslocou o robe grande demais, 
de modo que ameaou deslizar pelo ombro.
- Oh, verdade? Ento, voc vai decidir o que fazer comigo, como se eu fosse uma inconveniente congesto nasal.
- Muito inconveniente - murmurou ele.
- Voc pode no ter notado, mas sou uma mulher adulta com uma mente prpria, acostumada a tomar minhas prprias decises. Voc no vai fazer nada comigo declarou 
ela quando a irritao se sobreps a todos os outros sentimentos. Apontou-lhe um dedo, e a abertura do robe aumentou. - Se est apaixonado por mim, problema seu. 
Tenho meu prprio problema porque estou apaixonada por voc.
- Fantstico! - gritou ele. - Isso  absolutamente fantstico. Ns dois estaramos muito melhor se voc tivesse enfrentado a tempestade l fora em vez de vir aqui.
- Voc no est me dizendo nada que j no saiba - retorquiu Gennie, ento, virou-se para sair da cozinha.
- Espere um minuto. - Grant pegou-lhe o brao novamente e a encostou contra a parede. - Voc no vai a lugar algum antes que isso seja resolvido.
- Est resolvido! - Tirando os cabelos do rosto, ela o encarou. - Ns estamos apaixonados um pelo outro e eu gostaria que voc pulasse daquele precipcio. Se tivesse 
alguma sutileza...
- Eu no tenho.
- E sensibilidade - continuou Gennie -, no teria anunciado que est apaixonado por algum no mesmo tom que usa para assustar criancinhas.
- No estou apaixonado por algum! - gritou Grant furioso, porque ela estava certa e ele no podia fazer nada sobre isso. - Estou apaixonado por voc, e, que coisa, 
no gosto da idia!
- Voc j deixou isso perfeitamente claro. - Ela endireitou os ombros e ergueu o queixo.
- No banque a realeza comigo - comeou Grant. Os olhos de Gennie assumiram um brilho perigoso. A pele reluzia majestosamente. De sbito, ele comeou a rir. Quando 
ela atirou a cabea para trs com fria, Grant simplesmente a abraou.
- Oh, Deus, Gennie, no agento quando voc me olha como se estivesse prestes a me jogar numa masmorra.
- Solte-me, seu insensvel! - Incendiada, insultada,Gennie o empurrou, mas ele apenas a segurou mais forte. Somente reflexos rpidos o salvaram de um chute bem direcionado 
em um ponto estratgico.
- Espere. - Ainda rindo, ele pressionou a boca na dela. Ento, to abruptamente quando a risada comeara, parou. Com uma gentileza que raramente mostrava, segurou-lhe 
o rosto com as mos, e Gennie estava perdida. - Gennie. Ainda tocando-lhe os lbios com os seus, murmurou seu nome de um jeito que a fez tremer. - Eu amo voc.Ele 
acariciou-lhe os cabelos, inclinando-lhe a cabea puni que os olhos de ambos se encontrassem. - No gosto disso, talvez nunca me acostume com a idia, mas eu a amo. 
- Com um suspiro, puxou-a para mais perto. - Voc faz a minha cabea girar.
Encostando o rosto no dele, Gennie fechou os olhos.
- Voc ter tempo para se acostumar com isso - murmurou ela. - Apenas prometa que nunca vai se arrepender por ter acontecido.
- No estou arrependido - concordou ele com um largo suspiro. - Um pouco confuso, mas no arrependido. Enquanto deslizava a mo pelos cabelos sedosos, sentiu uma 
onda de desejo, mais suave, mais calma do que antes, porm, no menos vibrante. Roou-lhe o brao, porque ali parecia ser seu lugar. - Voc est realmente apaixonada 
por mim, ou disse isso por que eu deixei furiosa?
- Ambas as coisas. Decidi esta manh que teria de dobrar seu ego e deixar voc me dizer isso primeiro.
- Verdade? - Arqueando as sobrancelhas, Grant inclinou-lhe a cabea para trs novamente. - Meu ego?
- O qual tende a atrapalhar as coisas por ser de tamanho exagerado. - Ela sorriu docemente. Num gesto de vingana, ele a beijou.
- Sabe - murmurou Grant aps um momento -, perdi o apetite pelo caf da manh.
Sorrindo de novo, Gennie inclinou o rosto para olh-lo.
- Verdade?
- Mmmm. E no gosto de mencionar isso - ele brincou com a lapela do robe antes de desliz-lo at a altura da cintura -, mas eu no disse que voc podia usar meu 
robe.
- Oh, isso foi rude de minha parte. - O sorriso tornou-se travesso. - Voc o quer de volta agora?
- Sem pressa. - Ele pegou-lhe a mo e foi em direo  escada. - Pode esperar at chegarmos l em cima.
Da janela de seu quarto, Grant viu-a partir, dirigindo. Era o comeo da tarde agora, e o sol estava brilhante. Precisava distanciar-se um pouco de Gennie... talvez 
necessitasse de alguma distncia de si mesmo tambm. Foi disso que tentou se convencer, mesmo enquanto se perguntava quanto tempo poderia ficar longe.
Havia trabalho esperando no estdio, uma rotina que sabia estar diretamente conectada com a qualidade e a quantidade de sua produo. Necessitava de uma disciplina 
rgida em sua vida, das horas do dia e da noite que eram guiadas por sua criatividade e seu impulso. Todavia, como podia trabalhar quando a mente estava repleta 
de pensamentos sobre Gennie, quando seu corpo ainda sentia o calor do corpo dela?
Amor. Tinha conseguido evitar isso por tantos anos, e abrira a porta de modo impensado. O amor invadira seu sem ser convidado, sem ser bem-vindo, refletiu Grant. 
Agora, estava vulnervel, dependente... todas as coisas que uma vez prometera a si mesmo nunca sentir. Se pudesse mudar isso, com certeza o faria. Vinha vivendo 
de acordo com suas prprias regras, com seu prprio julgamento, de acordo com suas prprias necessidades por tanto tempo, que no estava certo se queria ou seria 
capaz de assumir os compromissos que o amor exigia. 
Acabaria magoando-a, pensou com tristeza, e a dor voltaria para ele. Esse era o destino inevitvel de todos amantes. O que queriam um do outro? Meneando a cabea, 
Grant afastou-se da janela. Por enquanto, o tempo e a afeio eram o bastante, mas isso mudaria. O que aconteceria quando as cobranas surgissem, os elos? Ele fugiria? 
No podia se apaixonar por uma mulher como Gennie, cujo estilo de vida era completamente oposto ao que ele tinha escolhido para si mesmo, cuja inocncia a tornava 
muito mais suscetvel ao sofrimento. 
Ela nunca ficaria feliz em morar naquele pedao de terra isolado, e Grant jamais lhe pediria isso. Ele no podia desistir de sua paz e troc-la por festas, cmeras, 
e agitao social. Se fosse um pouco mais parecido com Shelby...
Grant pensou em sua irm e no amor dela por multides, pessoas, barulho. Cada um tinha compensado de seu prprio jeito o trauma de ter perdido o pai de uma maneira 
to terrvel. Mas, aps 15 anos, as cicatrizes ainda estavam l. Talvez Shelby tivesse se recuperado melhor, ou talvez o amor por Alan MacGregor fosse forte o bastante 
para superar aquele medo perturbador. O medo de expor-se, de perder, de depender.
Lembrou-se de quando Shelby o visitara antes de tomar a deciso de se casar com Alan. Ela estava verdadeiramente apavorada. Grant tinha sido duro com a irm, porque 
quisera abra-la, deix-la chorar as memrias que perseguiam a ambos. Falara a verdade, porque era a verdade que ela precisava ouvir, mas Grant no tinha certeza 
se vivia de acordo com isso.
- Voc vai se fechar para a vida por alguma coisa que aconteceu 15 anos atrs?
Ele perguntara isso  irm, quando ela se sentara em sua cozinha com os olhos marejados de medo. E ele se recordava da raiva de Shelby.
- Voc no fez isso?
De seu prprio jeito, Grant tinha feito, embora seu trabalho e o amor pelo mesmo o mantivessem permanentemente conectado com o mundo. Absorvia das pessoas, do prazer 
e divertimento delas, porque, de uma forma que talvez s ele entendesse, gostava das pessoas... de suas foras e fraquezas, de suas loucuras e sanidade. Simplesmente 
no queria viver cercado de pessoas. E tinha se recusado a fazer isso, com sucesso, a envolver-se profundamente com algum em um mesmo nvel. At que Gennie surgisse 
em sua vida. Era to simples lidar com a humanidade de uma maneira geral! As armadilhas ocorriam quando voc estreitava o caminho.
Armadilhas, pensou com um suspiro. Tinha cado em uma grande. J se sentia impaciente para ter Gennie a seu lado de novo, ouvir-lhe a voz, v-la sorrir.
Ela estaria agora se preparando para a aquarela que lhe dissera que comearia. Talvez ainda usando a camisa que Grant lhe emprestara. A blusa dela estava rasgada, 
alm de qualquer condio de conserto. Sem esforo, Grant podia visualiz-la armando seu cavalete perto do rio. Os cabelos estariam jogados para trs dos ombros. 
A camisa dele estaria passando da altura dos quadris...
E enquanto Gennie estava fazendo seu trabalho, ele encontrava-se parado, sonhando acordado como um adolescente. Com um suspiro de frustrao, foi para o corredor 
no minuto em que o telefone comeou a tocar. Pensou cm ignor-lo, algo que fazia com facilidade, mas, ento, mudou de idia e desceu a escada. Mantinha apenas um 
telefone, na cozinha, porque se recusava a ser perturbado por qualquer coisa enquanto estava no estdio ou na cama. Grant pegou o telefone pendurado na parede e 
apoiou-se contra a porta.
- Sim?
- Grant Campbell?
Apesar de s ter encontrado o homem uma vez, Grant no teve problema em identificar a voz.
- Ol, Daniel.
- Voc  um homem difcil de ser encontrado. Estava viajando?
- No. - Grant sorriu. - Eu nem sempre atendo ao telefone.
Daniel bufou, o que fez o sorriso de Grant se ampliar. Podia imaginar o grande MacGregor em sua sala particular em forma de torre, fumando um de seus charutos proibidos, 
atrs de sua mesa enorme. Grant o caricaturara exatamente assim, ento tinha dado o desenho a Shelby durante a recepo do casamento dela. Distrado, pegou um saco 
de salgadinhos no balco e abriu-o.
- Como vai voc?
- timo. Excelente. - A voz grossa de Daniel revelava orgulho e arrogncia. - Sou av... h duas semanas agora.
- Meus parabns.
- Um menino - Daniel o informou, soltando a fumaa de seu charuto cubano. - Trs quilos e duzentos gramas, forte como um touro. Robert MacGregor Blade. Eles o chamaro 
de Mac. Boa linhagem. - Ele respirou to profundamente que estufou os botes da camisa. - O garoto tem as minhas orelhas.
Grant ouviu o resumo sobre o mais novo MacGregor com um misto de divertimento e afeio. Sua irm tinha se tornado parte de uma famlia que Grant pessoalmente achava 
difcil resistir.
- Como est Rena?
- Passou por tudo como uma campe. - Daniel mordeu o charuto. -  claro, eu sabia que seria assim. A me dela estava preocupada. Mulheres!
Daniel no mencionou que tinha sido insistncia sua fretar um avio no minuto em que soubera que Serena estava em trabalho de parto. E que havia andado de um lado 
para o outro na sala de espera como um homem louco, enquanto sua esposa, Anna, calmamente terminava o bordado em uma manta de beb.
- Justin ficou ao lado da esposa o tempo todo. - Havia um pequeno toque de ressentimento na voz dele... o bastante para dizer a Grant que os funcionrios do hospital 
haviam barrado a entrada de MacGregor na sala de parto. E, provavelmente, no tinham feito isso com muita facilidade.
- Shelby j viu o sobrinho?
- Ela estava em lua-de-mel durante o nascimento da criana - contou Daniel com um suspiro exagerado. Era difcil para ele entender por que seu filho e nora no haviam 
cancelado seus planos para estarem presentes numa ocasio como aquela. - Mas, ento, ela e Alan vo compensar a ausncia neste final de semana. Foi por isso que 
eu liguei. Ns queremos que voc venha para c, garoto. A famlia inteira estar presente, o novo beb, tambm. Anna est louca para reunir todas as crianas outra 
vez. Voc conhece as mulheres.
Ele conhecia Daniel, e sorriu mais uma vez.
- Mes precisam festejar, imagino.
- Sim,  isso. E com uma nova gerao iniciada, ela ficar pior do que nunca. - Daniel deu uma olhada para a porta fechada. Nunca se sabia quando algum estava ouvindo. 
- Ento voc vir, sexta-feira  noite.
Grant pensou em seus prazos de trabalho e fez alguns clculos mentais. Tinha vontade de rever sua irm, assim como os MacGregors. Mais que isso, sentia necessidade 
de levar Gennie at as pessoas que, sem saber por que, considerava da famlia.
- Eu poderia ir por alguns dias, Daniel, mas gostaria de levar algum.
- Algum? - Os sentidos de Daniel ficaram em alerta. Recostou-se com o charuto na mo. - Quem seria esse algum?
Reconhecendo o tom, Grant mordeu um salgadinho.
- Uma artista que est fazendo algumas pinturas na Nova Inglaterra, em Windy Point no momento. Acho que ela ficaria interessada em sua casa.
Ela, pensou Daniel com um sorriso irrepreensvel. Apenas por que conseguira estabelecer seus filhos, no significava que iria desistir de seu satisfatrio hobby 
de casamenteiro. Pessoas jovens pareciam precisar ser guiadas nesses assuntos do corao. E Grant, embora fosse um Campbell, era da famlia, de certa forma.
- Uma artista... sim, isso  interessante. H sempre espao para mais gente, filho. Traga-a. Uma artista - repetiu ele, batendo a cinza do charuto. - Jovem e bonita, 
tambm, tenho certeza.
- Ela tem quase 70 anos - disse Grant, cruzando os tornozelos e inclinando-se contra a parede. - Um pouco troncuda, o rosto como o de um sapo. As pinturas dela so 
eternas, com tremendo contedo emocional e fsico. Estou louco por ela. - Ele pausou, imaginando a careta de Daniel. - Emoo genuna transcende idade e beleza fsica, 
no concorda?
Daniel engasgou, depois encontrou a voz. O garoto precisava de ajuda, de muita ajuda.
- Venha na sexta, filho. Precisaremos de um tempo para conversar. - Ele olhou para a estante do outro lado da sala. - Setenta anos, voc disse?
- Quase. Mas,  isso a, a sensualidade verdadeira no tem idade. Ontem  noite, ela e eu...
- No, no me conte - interrompeu Daniel bruscamente. - Teremos uma longa conversa quando voc chegar aqui. Uma longa conversa - repetiu aps um suspiro. - Shelby 
conheceu... No, esquea - decidiu Daniel. - Sexta-feira. Discutiremos isso na sexta.
- Estaremos a. - Grant desligou, encostou-se contra o batente da porta e caiu na gargalhada. Aquilo manteria o velho homem alerta at sexta-feira, pensou Grant. 
Ainda sorrindo, subiu a escada. Trabalharia at escurecer... at Gennie.


Nove

Gennie nunca tinha sido convencida de alguma coisa to rapidamente. Antes que soubesse o que estava acontecendo, concordou em arrumar seu material de pintura e uma 
mala para ir passar um fim de semana com pessoas que no conhecia.
Parte da razo, percebeu quando teve um momento para refletir, era por que Grant mostrava entusiasmo em relao aos MacGregors. Ela j o conhecia suficientemente, 
em pouco mais de uma semana, para saber que ele sentia uma afeio genuna por algumas pessoas... pelo menos afeio capaz de faz-lo desistir de seu tempo e privacidade 
preciosos. Gennie tinha concordado primeiramente porque queria estar em sua companhia e, depois, porque o entusiasmo de Grant a contagiara. E, finalmente, porque 
queria v-lo sob diferentes circunstncias, interagindo com pessoas, longe de seu lugar isolado no globo terrestre.
Conheceria a irm dele. O fato de que Grant possua famlia tinha sido uma surpresa. Embora soubesse que era bobagem, Gennie imaginava Grant simplesmente surgindo 
no mundo como um adulto, pronto para lutar pelo direito de seu lugar e de sua privacidade.
Agora, comeava a se perguntar sobre a infncia dele... o que o formara? O que o transformara no Grant Campbell que ela conhecia? Tinha sido rico ou pobre, extrovertido 
ou introvertido? Fora feliz, amado, ignorado? Grant raramente falava sobre a famlia, seu passado... alis, nem mesmo do presente.
Estranhamente, porque as respostas eram to importantes, ela no podia question-lo. Achava que aquilo ia vir dele, como prova do amor que dizia sentir. No talvez 
prova fosse a palavra errada, pensou. Acreditava que Grant a amava, do seu prprio jeito, mas ela queria a confiana dele. Para Gennie, no havia como separar confiana 
do amor, porque um sem o outro era apenas uma palavra vazia. No acreditava em segredos.
Desde criana at a morte de sua irm, Gennie sempre tivera uma pessoa especial com quem compartilhar tudo... todas as suas dvidas, inseguranas, desejos e sonhos. 
Perder Angela tinha sido como perder uma parte de si mesma, uma parte que, agora, estava apenas recomeando a sentir. Para ela, dar confiana e afeio a Grant era 
a coisa mais natural do mundo. Quando amava, amava sem fronteiras.
Sob a alegria, sentia que havia uma dor silenciosa que vinha do conhecimento de que Grant ainda no se abrira para ela. At que o fizesse, Gennie sentia que o futuro 
deles no se estendia alm do momento presente. Forou-se a aceitar isso, porque o pensamento de ficar sem ele era insuportvel.
Grant a olhou quando virou na estrada estreita que levava  propriedade dos MacGregors. Estudou o perfil de Gennie, o semblante tranqilo, os olhos sonhadores, mas 
no completamente felizes.
- No que voc est pensando?
Ela virou a cabea, e com o sorriso, a centelha do tristeza desapareceu.  
- Que eu amo voc.
Era to simples! Os joelhos de Grant tremeram. Necessitando toc-la, foi para o acostamento da estrada e parou o carro. Ela ainda estava sorrindo quando ele segurou-lhe 
o rosto nas mos, e baixou os clios em antecipao ao beijo. 
Suavemente, com uma reverncia que nunca pensou sentir, roou os lbios sobre cada uma das faces dela, Gennie quase perdeu o flego, ao mesmo tempo em que o corao 
disparou. Os raros rompantes de gentileza de Grant nunca deixavam de emocion-la. Qualquer coisa que ele tivesse lhe pedido naquele momento, ela teria lhe dado sem 
hesitao. O roar dos clios dele contra a sua pele a unia a Grant mais firmemente do que qualquer corrente. 
O nome dela era apenas um suspiro enquanto ele traava beijos sobre seus lbios fechados. Com o tremor de Gennie, os pensamentos de Grant comearam a girar. Que 
magia era aquela que ela lanara sobre ele? Cintilava num instante, e pulsava no seguinte. Era sua imaginao, ou Gennie sempre estivera l, esperando para surgir 
na sua vida e transform-lo num escravo? Era a suavidade ou a fora daquela mulher que o fazia querer matar ou morrer eu ela? Importava? 
Ele sabia que deveria.
Quando um homem era atrado muito profundamente por uma mulher, um ideal, um objetivo... tornava-se vulnervel. Ento, o instinto de sobrevivncia ficaria em segundo 
lugar. Grant sempre acreditara que fora isso exatamente que acontecera a seu pai. 
Mas agora, tudo que podia compreender era que Gennie era to adorvel, to afvel. Sua.
De leve, tocou-lhe os lbios. Ela inclinou a cabea para trs e abriu-se para ele. Grant a abraou, a respirao ofegante, e beijou-a com ardor. A transio da gentileza 
para o desespero era muito rpida para ser medida. Ela entrelaou os dedos nos cabelos dele, a fim de pux-lo para mais perto, enquanto a boca de Grant se tornava 
cada vez mais exigente. Contagiada, Gennie pensou que sua paixo crescia em intensidade cada vez que ele a tocava, at que um dia, explodiria com um mero olhar.
- Eu quero voc - sussurrou ela contra a boca de Grant. Com isso, ele deixou tudo o que restava de gentileza para trs. Seus lbios a saborearam com avidez, exploraram, 
absorveram, at que ambos ficaram sem fala. Com um murmrio inarticulado, Grant enterrou o rosto nos cabelos dela e lutou para encontrar a razo.
- Meu Deus, mais um minuto disso, e esquecerei que estamos em uma estrada pblica, em plena luz do dia! 
Gennie deslizou os dedos para a nuca dele.
- Eu j esqueci.
Grant inalou e exalou o ar por trs vezes, ento ergueu a cabea.
- Cuidado - avisou calmamente. - Tenho mais dificuldade em lembrar-me de ser civilizado do que fazer as coisas que vem naturalmente. Neste momento, eu acharia muito 
natural pux-la para o banco de trs, rasgar suas roupas e fazer amor como voc at deix-la fraca.
Uma forte excitao percorreu a espinha de Gennie, desafiando-a, encorajando-a. Inclinou-se para mais perto at quase tocar-lhe os lbios com os seus. 
- Uma pessoa nunca deve ir contra a sua natureza. 
- Gennie... - O controle dele estava por um fio. J podia sentir o jeito como o corpo delicado esquentaria e se amaciaria sob o seu. O aroma feminino contradizia 
o sol baixo no cu e emanava a noite. Quando ela abriu uma das mos sobre seu peito, Grant pde ouvir o prprio corao vibrando contra a pequena palma. Os olhos 
verdes estavam nublados, embora, de alguma maneira, continham mais poder. Grant no conseguia desviar os olhos dos dela. Viu-se como um prisioneiro, exultando no 
peso das correntes.
No exato momento em que estava esquecendo a razo, o som de um veculo se aproximando o fez praguejar e virar a cabea. Gennie olhou por sobre o ombro quando uma 
Mercedes parou ao lado deles. O motorista estava sombreado, de modo que ela teve apenas um vislumbre de uma figura bronzeada e masculina, enquanto o passageiro abaixava 
a janela.
Cabelos vermelhos moldavam o rosto angular da cabea colocada para fora. A mulher apoiou os braos na base da janela e sorriu amavelmente.
- Vocs esto perdidos?
Grant estreitou os olhos para a mulher, ento surpreendeu Gennie pondo o brao para fora e torcendo-lhe o nariz entre dois dedos. 
- D o fora.
- Algumas pessoas no merecem ajuda - declarou a mulher, antes de menear a cabea de maneira arrogante desaparecer dentro do carro. A Mercedes partiu discretamente, 
sumindo na primeira curva.
- Grant! - Dividida entre o divertimento e a incredulidade, Gennie o fitou. - At mesmo para voc, isso foi inacreditavelmente rude.
- No suporto pessoas intrometidas - disse ele, ligando o carro de novo.
Ela suspirou longamente e recostou-se contra o banco.
- Certamente deixou isso bem claro. Estou comeando a achar que foi um milagre voc no ter batido a porta na minha cara naquela primeira noite.
- Foi um momento de fraqueza. 
Ela lhe lanou um olhar zangado, ento desistiu.
- Quo perto estamos? Talvez voc queira me falar um pouco sobre as pessoas dessa famlia, ou no terei idia de quem... - Gennie parou. - Oh, meu Deus!
Era inacreditvel, impossvel. Maravilhoso. Todo cinza e brilhando com os ltimos raios de sol, surgiu o castelo de conto de fadas no qual toda garotinha se imaginava 
presa. Seria necessrio um cavaleiro valente para libert-la das altas paredes de pedra da torre. O fato de que estava ali, neste sculo de msseis e correria, era 
um milagre em si.
A casa sobressaa-se e destacava-se, dominando o penhasco no qual estava estruturada. No havia aderncia de heras em suas paredes. Que hera ousaria transgredir? 
Mas havia flores... rosas selvagens, desabrochando em arbustos, lanando cores que teimosamente gritavam vero, enquanto as rvores prximas estavam guarnecidas 
com os primeiros sinais de outono.
Gennie no queria simplesmente pintar o que via. Era essencial pintar aquilo tanto quanto respirar.
- Achei que sim - comentou Grant. 
Atordoada, Gennie continuou olhando para a casa. 
- O qu?
- Voc parece j estar com um pincel na mo.
- Eu gostaria que estivesse.
- Se voc pintar isso com a metade do insight e do poder que usou em seu estudo das rochas e do farol, ter uma obra de arte magnfica.
Gennie virou-se para ele meio confusa.
- Mas eu... Voc no pareceu muito entusiasmado com a pintura.
Ele suspirou quando fez a ltima curva.
- No seja tola.
Nunca ocorrera a Grant que ela precisaria ser reconfortada. Grant conhecia suas prprias habilidades, e aceitava com indiferena o fato que era considerado um dos 
melhores na rea. O que os outros pensavam importava pouco, porque sabia de sua prpria capacidade
Assumira que Gennie se sentiria precisamente da mesma maneira.
Se soubesse da agonia pela qual ela passava antes de uma de suas exibies, teria ficado espantado. Se soubesse o quanto a tinha magoado com o comentrio casual 
no dia em que ela terminara a pintura, teria ficado sem fala.
Gennie franziu o cenho para ele, concentrando-se. 
- Voc gostou, ento? 
- Gostei do qu?
- Da pintura - replicou ela impaciente. - Da pintura que fiz de seu terreno.
Com as mentes deles funcionando em direes contrrias, Grant no ouviu a insegurana na pergunta.
- O fato de eu no pintar no significa que no reconheo um gnio quando vejo um.
Um silncio se instalou, nenhum dos dois certos do humor do outro, ou do seu prprio.
Se ele gostara da pintura, refletiu Gennie, por que apenas no falara, em vez de faz-la arrancar-lhe isso?
Grant perguntou-se se ela considerava arte sria o nico instrumento de valor. O que teria a dizer se ele lhe contasse que sobrevivia desenhando as pessoas como 
as via em histrias em quadrinhos? Jornais engraados. Ela riria ou teria um ataque se visse Vernica no New York Daily dali a algumas semanas?
Eles pararam na frente da casa com uma brecada que trouxe ambos de volta ao presente.
- Espere at que entremos - comeou ele, pegando o fio da meada da conversa anterior. - S acreditei na metade do que vi por mim mesmo.
- Aparentemente, tudo que li ou ouvi falar sobre Daniel MacGregor  verdade. - Gennie saiu do carro com os olhos fixos na casa novamente. - Poderoso, excntrico, 
um homem que faz seus prprios negcios de seu prprio jeito. Mas no sei muitos detalhes pessoais. A esposa dei  mdica?
- Cirurgia. Eles tm trs filhos, e, como voc ouvi inmeras vezes durante o fim de semana, um neto. Minha irm se casou com o filho mais velho, Alan.
- Alan MacGregor... Ele ...
- Senador MacGregor, e, em poucos anos... - Dando de ombros, Grant parou de falar.
- Ah, sim, voc teria uma linha direta dentro da Casa Branca se os murmrios sobre as aspiraes de Alan MacGregor se tornarem um fato. - Ela sorriu para o homem 
de cala caqui encostado no capo do carro alugado, enquanto o vento brincava com os cabelos dele. - Como voc se sentiria com isso?
Grant deu-lhe um sorriso estranho, pensando em Macintosh.
- As coisas esto atualmente incertas - murmurou ele, usando a frase de seu personagem. - Mas sempre tive uma afeio irnica por poltica em geral. - Pegando-lhe 
a mo, comeou a andar em direo aos degraus de pedra. - Ento, h Caine, o filho nmero dois, um advogado que recentemente se casou com uma advogada que, por acaso, 
 a irm do marido da filha de Daniel.
- No tenho certeza se estou acompanhando. - Gennie estudou a cabea de leo coroada de lato que servia como uma aldrava de porta.
- Voc tem de ser rpida. - Grant levantou a aldrava e deixou-a cair de maneira barulhenta. - Rena casou-se com um jogador. Ela e o marido possuem diversos cassinos 
e moram em Atlantic City. Gennie o olhou, pensativa.
- Para algum que fica tanto tempo isolado, voc est bem informado.
- Sim. - Ele sorriu-lhe quando a porta se abriu. Gennie reconheceu a ruiva, era a mesma que vira na Mercedes. Ela encostou-se contra o grosso batente da porta e 
olhou para Grant de cima a baixo.
- Ainda perdido? Desta vez, Grant a puxou para si e deu-lhe um beijo carinhoso.
- Aparentemente, voc sobreviveu a um ms de casamentos, mas continua muito magra.
- E os elogios continuam saindo facilmente de sua boca - retorquiu ela, dando um passo atrs. Aps um momento, riu e o abraou apertado. - Detesto dizer isso em 
voz alta, mas  to bom ver voc! - Sorrindo sobre o ombro de Grant, espiou Gennie com um olhar curioso e amigvel. - Ol, eu sou Shelby.
A irm de Grant, Gennie percebeu, impressionada pela total falta de semelhana familiar. O corpo longo e esbelto da mulher parecia cheio de energia, os cabelos ruivos 
e cacheados, e os olhos acinzentados. Enquanto Grant possua um charme rude, a irm era uma combinao de porcelana e brilho.
- Sou Gennie - respondeu ela instintivamente ao mhitno que Shelby lhe enviou antes de sair do abrao do li inflo. - Prazer em conhec-la.
- Perto dos 70, no? - Shelby falou de forma enigmtica para Grant antes de pegar a mo de Gennie. - Temos de nos conhecer, de modo que voc possa me contar como 
tolera a companhia de meu irmo por mais que cinco minutos de cada vez. Alan est na sala do trono com MacGregor - continuou ela antes que Grant pudesse retorquir. 
- Grant lhe deu um resumo sobre os membros da famlia?
- Uma verso abreviada - replicou Gennie, instantaneamente encantada por Shelby.
- Tpico. - Ela enganchou o brao no de Gennie. Bem, s vezes,  melhor conhecer as pessoas diretamente. A coisa mais importante a se lembrar  de no deixai que 
Daniel a intimide. Qual  a sua origem?
- Francesa na maior parte. Por qu?
- O assunto vai surgir.
- Como foi a sua lua-de-mel? - perguntou Grant, querendo desviar do assunto que, com certeza, surgiria.
Shelby sorriu-lhe.
- Eu lhe conto mais tarde. Como est a sua rocha?
- Ainda em p. - Ele olhou para a esquerda quando Justin comeou a descer a escada. A expresso curiosa de Justin foi substituda por surpresa... algo raramente 
visto em seu semblante... ento prazer.
- Gennie! - Ele desceu o resto da escada em passos longos e apressados, ento, girou-a em seus braos.
- Justin. - Rindo, Gennie envolveu os braos ao redor do pescoo dele enquanto Grant arregalava os olhos.
- O que voc est fazendo aqui? - os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Rindo, Justin segurou-lhe ambas as mos, e afastou-a para estud-la.
- Voc est linda - murmurou ele. - Como sempre. 
Grant observou-a enrubescer de prazer e experimentou o primeiro cime genuno de sua vida. Achou uma sensao muito desagradvel.
- Parece - comeou ele num tom to ameaador que as sobrancelhas de Shelby se arquearem - que vocs se conhecem.
- Sim,  claro - comeou Gennie antes de se dar conta do que estava acontecendo. - O jogador! - exclamou. - Oh, eu nunca uni as coisas. Rena-Serena. Ouvir que voc 
ia se casar j foi um choque. Detestei perder o casamento... e voc  pai! - Ela jogou os braos ao redor dele de novo, rindo. - Meu Deus, estou cercada de primos!
- Primos? - ecoou Grant.
- Do meu lado francs - disse Justin com ironia. - Uma conexo distante, cuidadosamente negligenciada por todos, exceto por - ele inclinou o rosto de Gennie para 
o seu - algumas pessoas especiais.
- Tia Adelaide  uma pessoa de poucos horizontes - murmurou Gennie precisamente.
- Voc est acompanhando essa conversa? - Shelby perguntou para Grant.
- Com muita dificuldade - respondeu ele. Com uma outra risada, Gennie estendeu a mo para ele.
- Para simplificar, Justin e eu somos primos, de terceiro grau, acho. Ns nos encontramos aproximadamente cinco anos atrs em uma de minhas exibies em Nova York.
- Eu no era... ah... prximo dessa parte da famlia em particular - continuou Justin. - Um comentrio ao acaso levou a outro, at que descobrimos a conexo.
Quando Justin sorriu para Gennie, Grant viu a semelhana. Os olhos verdes. Homem, mulher, eles eram muito parecidos. Por alguma razo obscura, que no somente as 
explicaes, aquilo o fez relaxar os msculos que haviam se tencionado no momento em que Justin a abraara. A ovelha negra, percebeu, que superara a expectativa 
de todos.
- Fascinante - disse Shelby. - Todos os clichs sobre o mundo ser pequeno se encaixam perfeitamente aqui com Gennie e Grant.
Justin desviou o olhar, encontrando os olhos escuro e examinadores de Grant. Como um jogador, tinha o hbito de avaliar as pessoas que conhecia e armazen-las em 
compartimentos. No casamento de Shelby, um ano atrs, Justin o considerara um homem com inteligncia e segredos que se recusava ser armazenado em qualquer lugar. 
Eles tinham se dado bem rapidamente, talvez por que a necessidade de privacidade era inerente a ambos Agora, lembrando-se da descrio estranha de Daniel sobre a 
companhia de Grant no fim de semana, Justin reprimiu um sorriso.
- Daniel mencionou que voc traria... uma artista. 
Grant reconheceu, como poucos teriam reconhecido o brilho de humor nos olhos de Justin.
-Tenho certeza que ele mencionou - retornou ele no mesmo tom conversacional. - Ainda no lhe dei os para bens por assegurar a continuidade da linhagem familiar e 
salvar o resto de ns da presso de fazer isso imediatamente - complementou Shelby.
- No conte com isso - avisou uma voz suave. Gennie olhou para cima e viu uma mulher loura descendo a escada, carregando um beb embrulhado num cobertor azul.
- Ol, Grant,  bom ver voc de novo. - Serena aninhou o beb em um dos braos quando se inclinou para beijar o rosto de Grant. - Foi gentileza sua atender ao chamado 
real.
- O prazer  meu. - Incapaz de resistir, ele afastou o cobertor de lado com um dedo.
To pequenino! Bebs sempre o fascinavam... a perfeio em miniatura. Este tinha a pele macia e estava totalmente desperto, fitando-o com olhos azuis que j tinham 
um toque de violeta dos olhos da me. Talvez Mac tivesse as orelhas de Daniel e os olhos de Serena, mas o resto da criana era inteiramente Blade. O beb possua 
os ossos de um guerreiro, pensou Grant, e os cabelos negros eram tpicos de seu sangue de Comanche.
Olhando alm do filho, Serena estudou a mulher que observava Grant com ateno. Ficara surpresa em ver os olhos do marido num rosto feminino. Esperando que aqueles 
olhos se desviassem para os seus, sorriu. 
- Sou Rena.
- Gennie  amiga de Grant - anunciou Justin, passando um brao ao redor do ombro da esposa. - E, por acaso,  tambm minha prima. - Antes que Serena pudesse reagir 
 primeira surpresa, ele a surpreendeu com a segunda: Genevive Grandeau.
- Oh, aquelas pinturas maravilhosas! - exclamou ela, enquanto os olhos de Shelby se arregalavam.
- No acredito, Grant! - Aps lanar-lhe um olhar de desgosto, Shelby voltou-se para Gennie: - Nossa me tinha duas de suas paisagens. Eu a convenci a me dar uma 
de presente de casamento. Noite - lembrou. - Quero construir uma casa em volta daquilo.
Satisfeita, Gennie sorriu-lhe.
- Ento, talvez voc possa me ajudar a convencer o sr. MacGregor de que devo pintar a casa dele.
- Apenas preste ateno na forma como poder dobr-lo - disse Serena.
- O que  isso, uma reunio de cpula? - Alan quis saber quando chegou ao hall. - Uma coisa  ser o filho mais velho, e outra  ser o carneiro de sacrifcio. - Ele 
ps a mo na nuca da esposa. - Papai est reclamando porque a famlia est espalhada em todas as direes.
- Com Caine sendo o mais criticado de todos - apontou Serena.
- Sim. - Alan sorriu de forma encantadora. -  uma pena ele estar atrasado. O olhar intenso voltou-se para Gennie, ento deu um sorriso lento. - Ns j nos conhecemos... 
- Ele hesitou brevemente, pensando em sua lista mental de nomes e rostos. - Genvive Grandeau.
Um pouco surpresa, Gennie devolveu-lhe o sorriso.
- Um encontro muito rpido em um evento destinado  caridade aproximada-mente dois anos atrs, senador.
- Alan - corrigiu ele. - Ento, voc  a artista de Grant.
- Ele olhou para Grant com expresso bem-humorada.
- Devo dizer que supera at mesmo a descrio que Grant fez de voc. Vamos todos entrar e nos juntar a MacGregor antes que ele comece a gritar?
- Aqui. - Justin pegou o beb de Serena em um movimento hbil. - Mac ir abrand-lo.
- Que descrio? - perguntou Gennie para Grant assim que comearam a descer o largo corredor.
Ela viu o sorriso brincar nos lbios dele, antes que ele passasse um brao ao redor de seus ombros. 
- Mais tarde. 
Gennie logo entendeu por que Shelby tinha chamado o lugar de sala do trono. O amplo piso do salo era coberto com um tapete vermelho. Todos os mveis de madeira 
eram entalhados de forma opulenta, enquanto quadros magnficos estavam pendurados em molduras ninadas. Havia um leve aroma de cera de vela, embora nenhuma vela estivesse 
acesa. Abajures ajudavam a iluminao do fim do dia, a qual penetrava atravs de muitas janelas.
Com uma nica olhada, ela viu que os mveis eram antigos e maravilhosos, todos em larga escala e perfeitos dentro do imenso espao. Havia bastante lenha posicionada 
e pronta, dentro da gigantesca lareira, em antecipao do frio que poderia vir durante as noites, quando o vero desse lugar ao outono.
No entanto, a sala, magnfica e nica, no era nada comparada ao homem recebendo a famlia em sua alta cadeira gtica. Forte e grande, com espessos cabelos ruivos, 
ele observava a procisso entrar na sala com olhos azuis estreitos em um rosto largo e marcado por linhas prprias da idade.
Para Gennie, ele parecia um general ou um rei... ambos, talvez... uma figura de sculos passados, de algum lugar onde o monarca conduzia seu povo  batalha. Uma 
enorme mo tamborilava o brao de madeira da cadeira, enquanto a outra, segurava um copo com lquido pela metade. Parecia possuir poder suficiente para ordenar execues 
arbitrariamente. Os dedos de Gennie cocavam por um bloco e um lpis.
- Bem - disse ele numa voz profunda e alta, que fazia uma acusao com essa nica e pequena palavra.
Shelby foi a primeira a se aproximar do homem, bravamente, pensou Gennie, para lhe dar um beijo estalado na boca.
- Ol, vov.
Ele enrubesceu com isso e lutou contra o prazer que o ttulo lhe dava.
- Ento, voc decidiu me dar um momento de seu tempo.
- Antes, senti-me no dever de prestar minha homenagem ao mais novo MacGregor.
Como uma dica, Justin aproximou-se para colocar o pequeno Mac na curva do brao de Daniel. Gennie assistiu ao gigante poderoso se transformar em marshmallow.
- Aqui est o rapazinho - disse ele, estendendo o copo para Shelby, ento acariciando o queixinho do beb. Quando o beb agarrou seu dedo grosso, MacGregor envaideceu-se 
como um galo. - Forte feito um touro. - Sorriu tolamente para a sala em geral, ento parou os olhos em Grant. - Bem, Campbell, ento voc veio. Est vendo aqui - 
comeou, movimentando o beb no brao -, por que os MacGregors nunca poderiam ser conquistados? Linhagem forte.
- Sangue bom - murmurou Serena, tirando o beb do av orgulhoso.
- Sirva um drinque a Campbell - ordenou ele. - Agora, onde est a artista? - Ele vagou os olhos ao redor da sala, fixou-os em Gennie. Ela pensou ter visto surpresa, 
ocultada rapidamente, e, ento o divertimento substituiu a expresso, curvando-lhes os cantos da boca.
- Daniel MacGregor - disse Grant com formalidade -, Genvive Grandeau.
Um vislumbre de reconhecimento revelou-se no semblante de Daniel antes que ele se levantasse de sua cadeira incrivelmente alta e estendesse a mo. 
- Bem-vinda. 
A mo de Gennie foi apertada, depois coberta. Ela teve a impresso simultnea de fora, compaixo e teimosia. 
- Sua casa  absolutamente magnfica, sr. MacGregor disse ela, estudando-o de forma imparcial. - Combina com o senhor.
Ele deu uma gargalhada to sonora que poderia ter balanado as janelas.
- Sim. E h trs de suas pinturas penduradas na ala oeste. - Ele olhou brevemente para Grant, antes de voltar a fit-la. - Voc transmite a idade que tem, moa.
Ela lhe lanou um olhar intrigado, enquanto Grant engasgava com o usque. 
- Obrigada.
- Sirvam um drinque  artista - ordenou ele, ento gesticulou para que ela se sentasse na cadeira ao lado da sua. - Agora, conte-me por que voc est perdendo seu 
tempo com Campbell?
- Gennie  minha prima - disse Justin suavemente, sentando-se no sof ao lado do filho. - Do lado francs aristocrtico.
- Uma prima! - Os olhos de Daniel se acentuaram, ento uma expresso que s poderia ser descrita como prazer perspicaz estampou-se em seu rosto. - Sim, ns gostamos 
de manter as coisas em famlia. Grandeau... um nome realmente forte. Voc tem a aparncia de uma rainha, com um leve toque de feiticeira.
- Ele quis elogi-la com isso - explicou Serena quando entregou a Gennie um vermute num copo de cristal.
- J me disseram isso.- Gennie olhou para Grant por sobre a borda do copo. - Um de meus ancestrais teve um... encontro com uma cigana, o qual resultou em gmeos.
- Gennie tem um pirata em sua rvore familiar, tambm - murmurou Justin.
Daniel assentiu em aprovao.
- Sangue forte. Os Campbell precisam de toda a ajuda que puderem conseguir.
- Cuidado, MacGregor - avisou Shelby quando Grant lhe lanou um breve olhar fulminante.
Havia influncias ocultas ali para confundir um recm-chegado, mas no to sutis que Gennie no entendesse. Daniel estava tentando arranjar um noivado, pensou, e 
lutou contra uma risada. Ver o semblante irritado de Grant apenas tornou mais difcil para que ela mantivesse a compostura. O jogo era irresistvel.
- Os Grandeau podem seguir seus ancestrais at uma cortes protegida de Philip IV le Bel. - Ela percebeu o olhar divertido e de respeito de Shelby. No tempo que 
levou para o olhar das duas se encontrarem, o elo estava formado.
Embora estivesse apreciando os sinais sendo lanados ao redor da sala, Alan recordava-se muito bem de j ter estado na posio que Grant se encontrava atualmente.
- Por que ser que Caine est demorando tanto? - perguntou ele de modo casual, ciente de que o comentrio mudaria o foco de seu pai.
- Hah! - Daniel bebeu metade de seu drinque em um gole - O garoto est muito ocupado com a advocacia para dar  me um momento de ateno.
Gennie arqueou as sobrancelhas, e Serena cruzou as pernas.
- Minha me ainda est no hospital - explicou ela, um sorriso disfarado nos lbios. - Tenho certeza que mame ficar devastada se chegar antes de Caine.
- Ela se preocupa com as crianas - resmungou Daniel, torcendo o nariz. - Tento faz-la entender que eles tem suas prprias vidas, mas uma me  uma me.
Serena fez uma careta e falou alguma coisa inarticulada dentro do copo. Foi o bastante, todavia, para fazer o rosto de Daniel enrubescer. Antes que ele pudesse responder, 
o som da aldrava na madeira vibrou contra as paredes.
- Eu atendo - ofereceu Alan, sentindo que aquilo lhe daria um momento para avisar Caine do barmetro do pai.
Porque sentia certa ligao com Caine naquele momento, Grant voltou-se para Daniel numa tentativa de mudar o humor do homem:
- Gennie ficou fascinada pela casa - comeou ele. - Espera persuadi-lo a deix-la pintar a propriedade.
A reao de Daniel foi imediata. No diferente da reao que tivera com o neto em seus braos, envaideceu-se.
- Bem, devemos ser capazes de arranjar alguma coisa que seja boa para ns dois.
Um Grandeau da fortaleza MacGregor. Ele sabia o valor financeiro de uma pintura como aquela, sem mencionar o valor para seu orgulho. O legado para seus netos.
- Ns conversaremos - disse ele assentindo com veemncia no exato momento em que o ltimo dos MacGregors entrou na sala. Daniel olhou na direo do filho. - Hah!
Gennie viu um homem magro e alto, com um ar de lobo inteligente. Todos os MacGregors eram incrveis exemplos da espcie humana?, perguntou-se. Havia poder ali, o 
mesmo poder que ela sentira em Alan e Serena. Porque aquele poder no vinha inteiramente de Daniel, Gennie especulou sobre a me deles. Que tipo de mulher seria?
Ento, sua ateno foi voltada para a mulher que entrou com Caine. A irm de Justin. Gennie olhou para seu primo para v-lo fitando a irm com o cenho levemente 
franzido. E entendeu por qu. A tenso que Caine e Diana haviam levado para a sala era palpvel.
- Ficamos presos em Boston - explicou Caine tranqilamente, ignorando a carranca do pai e andando para ver seu sobrinho. As linhas duras do rosto dele se amaciaram 
quando ergueu os olhos para a irm. - Bom trabalho, Rena.
- Voc podia telefonar quando fosse se atrasar - reclamou Daniel. - Dessa forma, sua me no se preocuparia. 
Caine olhou ao redor da sala, notando que sua me estava ausente, ento ergueu uma sobrancelha irnica.
-  claro.
- Foi culpa minha - murmurou Diana com voz baixa. - Um compromisso de ltima hora.
- Lembra-se de Grant? - comeou Serena, esperando aliviar o clima tenso.
- Sim,  claro. - Diana conseguiu um sorriso que no alcanou seus enormes olhos escuros.
- E da convidada de Grant? - continuou Serena, desejando que pudesse ter alguns minutos a ss com Diana. - Que, por acaso,  sua prima, Genvive Grandeau. 
Diana enrijeceu instantaneamente. Tinha o semblante frio e sem expresso quando se virou para Gennie.
- Prima? - perguntou Caine curioso, movendo-se para ficar ao lado da esposa.
- Sim. - Gennie falou, querendo amenizar alguma coisa que no entendia. - Ns nos encontramos uma vez - continuou, oferecendo um sorriso -, quando ramos crianas, 
em uma festa de aniversrio, acho. Minha famlia estava em Boston, visitando os parentes.
- Eu me lembro - murmurou Diana.
Por mais que tentasse, Gennie no podia se recordar de nada que tinha feito na tola festa para merecer o olhar frio e distante que Diana lhe deu. Sua reao foi 
instintiva. Angulou o queixo de leve e arqueou as sobrancelhas. Com um ar imponente, deu um gole no vermute.
- Como Shelby apontou,  um mundo pequeno. 
Caine reconheceu a expresso de Diana, e embora aquilo o deixasse exasperado, passou um brao ao redor dos ombros da esposa.
- Bem-vinda, prima - disse ele para Gennie, dando-lhe um inesperado sorriso charmoso. Virou-se para Grant ento, e o sorriso tornou-se malicioso. - Eu realmente 
gostaria de falar com voc... sobre sapos.
Grant respondeu com um sorriso fcil.
- Quando quiser.
Antes que Gennie pudesse comear a entender aquilo, ou as risadas que se seguiram, uma mulher pequena de pele morena entrou na sala. Ali estava a outra ponta do 
poder. Gennie sentiu isso imediatamente enquanto a mulher tornava-se o centro das atenes. Havia muita fora nela, e com certeza fora ela que passara para o filho 
mais velho a aparncia sria e atraente. Carregava uma estranha dignidade, apesar dos cabelos levemente desalinhados e as roupas um pouco amassadas.
- Estou to feliz que voc veio - disse a Gennie quando foram apresentadas. As mos eram pequenas e capazes. E estavam frias, Gennie descobriu. - Lamento por no 
estar aqui quando vocs chegaram. Fiquei... presa no hospital.
Ela havia perdido um paciente. Sem saber como, Gennie sabia aquilo, na verdade tinha certeza. Instintivamente, cobriu as mos unidas das duas com a sua mo livre.
- A senhora tem uma famlia maravilhosa. Um lindo neto. 
Anna emitiu um sussurro que mal foi audvel. 
- Obrigada. - Ela moveu-se para beijar o rosto do marido. - Vamos jantar - sugeriu quando Daniel acariciou-lhe os cabelos. - Vocs devem estar mortos de fome agora.
O elenco de personagens estava completo, pensou Gennie quando se levantou para pegar a mo de Grant. Aquele seria um fim de semana muito interessante.


Dez

Era tarde quando Gennie reclinou-se numa banheira enorme, preenchida com gua quente e perfumada. Os MacGregors, desde Daniel at o pequeno Mac, no era um grupo 
que ia cedo para a cama. Ela gostou deles... seu jeito barulhento, seus contrastes, a unidade bvia e indesculpvel. E, com a exceo de Diana, sentira-se muito 
bem-vinda na famlia.
Pensando em Diana agora, Gennie franziu o cenho e j ensaboou a perna. Talvez Diana Blade MacGregor fosse uma pessoa fechada por natureza. No fora necessrio nenhum 
insight para ver que havia tenso entre Caine e a esposa, e que Diana estava mais fechada em si mesma por causa disso, porm Gennie sentia que havia alguma coisa 
mais pessoal na atitude de Diana em relao a ela.
Deixe-me em paz. O sinal tinha sido claro como cristal, e Gennie respondera de acordo. Nem todos eram inerentemente amigveis, nem todos tinham de gostar dela a 
primeira vista. Contudo, perturbava-a o fato de que Diana no fora nem amigvel nem particularmente hostil, apenas distante.
Afastando os pensamentos, puxou a corrente antiga para esvaziar a banheira. No dia seguinte, passaria algum tempo com seus novos primos, e faria tantos esboos quanto 
possvel da casa de MacGregor. Talvez, ela e Grant passeassem pelo terreno, ou dessem um mergulho na piscina, que, segundo ouvira dizer, ficava no fim de um dos 
corredores infinitos que faziam eco. 
Nunca tinha visto Grant to relaxado por um perodo de tempo to longo. Estranhamente, embora ainda fosse o homem arrogante e distante pelo qual se apaixonara com 
tanta relutncia, ele ficara  vontade com os numerosos e barulhentos MacGregors. Em uma noite, ela descobrira mais alguma coisa sobre ele. Grant gostava de pessoas, 
de estar cercado delas, conversando... contanto que tudo permanecesse em seus termos.
Gennie ouvira o fim da conversa que Grant estava tendo com Alan aps o jantar. Tinha sido sobre poltica, e obviamente em profundidade, o que a surpreendera. O que 
a espantara ainda mais, todavia, fora v-lo balanando o beb de Serena no joelho enquanto debatia com Caine sobre um controverso caso de tribunal acontecendo nas 
Cortes de Boston. Em seguida, ele tinha fatigado Shelby com uma discusso fervorosa sobre o significado social das novelas.
Meneando a cabea, Gennie se enxugou. Por que um homem com gostos e opinies to eclticas gostava de isolamento? Por que um homem obviamente  vontade numa situao 
social, expulsava os turistas? Um enigma. Gennie vestiu um robe de seda curto. Sim, ele era um enigma, mas saber disso e aceitar eram duas coisas inteiramente distintas. 
Quanto mais sabia sobre Grant, mais queria saber.
Pacincia, apenas mais um pouco de pacincia, disse a si mesma quando foi para o quarto anexo. O quarto era enorme, o papel de parede antigo e lindo. Havia um sof-cama 
ornado em um tom rico de rosa, e uma penteadeira entalhada com cupidos, a qual tinha o charme ostensivo do sculo XVIII, sob a toalha lindamente bordada  mo, que 
devia ser um dos trabalhos de Anna.
Agradavelmente cansada, Gennie se sentou no banco antigo na frente da penteadeira de espelho triplo e comeou a pentear os cabelos.
Quando Grant abriu a porta, achou que ela parecia uma princesa dos contos de fadas... em parte ingnua, em parte sedutora. Os olhos verdes encontraram os seus no 
espelho, e ela sorriu, acabando de dar a ltima escovada nos cabelos.
- Errou de quarto?
- Entrei no quarto certo. - Ele fechou a porta, depois passou o trinco.
- Verdade? - Batendo a escova contra a palma, Gennie arqueou uma sobrancelha. - Pensei que voc tivesse ficado com o quarto no fim do corredor.
- Os MacGregors esqueceram-se de pr uma coisa l. - Grant ficou parado onde estava por um momento, satisfeito apenas em olh-la.
- Oh? O qu?
- Voc. - Aproximando-se, Grant pegou a escova da mo dela. O aroma de banho preenchia o quarto. Olhando-a pelo espelho, comeou a escovar-lhe os cabelos. - Macios 
- murmurou. - Tudo em voc  macio e suave demais para resistir.
Ele sempre conseguia fazer a paixo de Gennie esquentar com a sua paixo, com as suas demandas. Mas quando era gentil, quando a tocava com carinho, ela se sentia 
indefesa. Os olhos de Gennie se arregalaram e nublaram, e permaneceram fixos nos dele.
- Voc quer resistir? - perguntou ela.
Havia um leve sorriso no rosto de Grant enquanto continuava escovando-lhe os cabelos, com longas e lentas carcias.
- Isso no faria a menor diferena, mas no, no quero resistir a voc, Genvive. O que quero fazer - ele seguiu o caminho da escova com os dedos -  toc-la, provar 
seu gosto, at que nada mais exista ao redor. Voc no  a minha primeira obsesso - murmurou com uma expresso estranha nos olhos. - Mas  a nica que fui capaz 
de tocar com as minhas mos, provar com a minha boca. Voc no  a nica mulher que eu amei. - Grant deixou a escova cair, de modo que suas mos ficassem livres 
para deslizar nos cabelos dela. - Mas  a nica mulher pela qual me apaixonei.
Ela sabia que ele no falaria nem mais nem menos que a verdade. As palavras a preencheram com um poder ascendente. Queria compartilhar isso com Grant, retribuir 
um pouco da maravilha que ele levara para a sua vida. Levantando-se, Gennie virou-se para encar-lo.
- Deixe-me fazer amor com voc - sussurrou ela. - Deixe-me tentar.
A doura do pedido mexeu com Grant mais do que ele achava ser possvel. Mas quando a alcanou, ela ps uma mo em seu peito.
- No. - Gennie deslizou as mos para o pescoo dele, os dedos abertos. - Deixe-me.
Cuidadosamente, observando-lhe o rosto, ela comeou a desabotoar a camisa masculina. Os olhos refletiam confiana, os dedos eram firmes, embora Grant soubesse que 
Gennie teria de confiar no instinto e no que ele tinha apenas comeado a ensin-la. Era possvel fazer amor com um homem como gostaria que ele fizesse amor com voc? 
Ela veria.
O desejo de Grant no poderia ser menor do que o seu, pensou Gennie enquanto deslizava os dedos ao longo da pele sedosa. Eles seriam muito diferentes? Com um som 
que era tanto de prazer quanto de aprovao, desceu as mos pelas costas largas, ento subiu de novo antes de liberar a camisa dos ombros fortes.
Ele era magro, quase magro demais, porm a pele era macia e firme sobre os ossos. E j estava esquentando sob o toque de suas mos. Inclinando-se para  frente, Gennie 
pressionou a boca no corao dele e sentiu as batidas rpidas e irregulares. Em carter experimental, usou a ponta da lngua para umedecer-lhe a pele. Ento, ouviu-o 
respirar fundo antes que os braos ao seu redor apertassem. 
- Gennie...
- No, eu s quero tocar voc por um tempo. - Ela traou diversos beijos sobre o peito dele e ouviu o som do corao se acelerando ainda mais.
Grant fechou os olhos enquanto os leves beijos molhados esquentavam-lhe a pele. Lutou contra a urgncia de arrast-la para cama, ou para o cho, e tentou encontrar 
o controle que Gennie parecia estar lhe pedindo. Os delicados dedos curiosos vagaram, com a misteriosa habilidade de encontrar e explorar fraquezas que Grant no 
linha conscincia que possua. Durante todo o tempo, ela murmurava, suspirava, prometia. Grant perguntou-se se era desse jeito que as pessoas calmamente perdiam 
a sanidade.
Quando ela deslizou os dedos lentamente para o boto de sua cala jeans, os msculos do estmago de Grant tremeram, depois se contraram. Gennie o ouviu gemer quando 
ele baixou o rosto para o topo de sua cabea. A garganta dela estava seca, as palmas midas quando abriu o boto de presso. Devido  incerteza e ao desejo de seduzir, 
demorou-se durante o processo.
A cueca de Grant escorregou para os quadris com suavidade, e Gennie achou aquilo incrivelmente fascinante. Tanto poder, pensou, tanta fora! Entretanto, podia faz-lo 
tremer.
- Deite-se comigo - sussurrou ela, ento inclinou a cabea para trs a fim de fitar os olhos opacos e escuros que continham puro desejo. Grant tomou-lhe a boca num 
beijo avassalador, como se estivesse sedento demais. Apesar dos sentidos de Gennie comearem a flutuar, o conhecimento do poder que estava exercendo sobre ele se 
expandiu. Sabia o que Grant queria dela, e lhe daria de boa vontade. Mas queria dar-lhe mais, muito mais. E o faria.
Com as mos de cada lado do rosto dele, afastou-o.
- Deite-se comigo - repetiu Gennie e moveu-se para a cama. Esperou que ele se aproximasse, ento o empurrou para baixo. O velho colcho rangeu quando ela se ajoelhou 
ao seu lado. -Adoro olhar para voc. - Tirando-lhe os cabelos das tmporas, substituiu-os por seus lbios.
E, ento, Gennie comeou a explorao, fazendo tudo com tanta lentido que causou uma dor fsica em Grant. Ele sentiu a maciez dos lbios dela, ouviu o farfalhar 
do tecido de seda do robe enquanto ela o seduzia vagarosamente, levando-o  loucura. Sua pele umedecia por onde a lngua dela traava crculos sensuais. Ao seu redor, 
infiltrando-se em cada respirao, estava o aroma do banho, feminino e sensual. Gennie suspirou, ento pousou os lbios nos dele, mordiscando-o e provocando at 
que Grant no ouvisse mais nada alm da vibrao de sua prpria cabea.
Os corpos de ambos se fundiram quando ela deitou-se por cima dele e comeou a torturar-lhe o pescoo com seus dentes e lngua. Grant tentou murmurar o nome dela, 
mas conseguiu apenas um gemido quando suas mos, sempre to seguras, tateavam para alcan-la.
A pele de Gennie estava to mida quanto a sua, e ela enlouqueceu quando deslizou sobre o corpo dele, cada vez mais para baixo, de modo que os lbios sensuais pudessem 
saborear e as mos apreciar. Gennie nunca conhecera algo to emocionante quanto o poder que liberdade e paixo unidas proporcio-navam. Um poder que tinha um aroma 
almiscarado, um segredo no qual ela mergulhava, um sabor que queria devorar. Quando sua lngua deslizou mais para baixo, teve o prazer estonteante de saber que seu 
homem estava totalmente entregue a ela.
Grant parecia no mais estar respirando, mas apenas gemendo. Gennie no tinha conscincia de que seus prprios suspiros de prazer se uniam aos dele. Como Grant era 
lindamente formado!, era tudo que podia pensar. E como era incrvel que aquele homem maravilhoso lhe pertencesse. Ela estava nua agora sem ter percebido que ele 
lhe tirara o robe. Sabia apenas que mos fortes massageavam-lhe os ombros, mos quentes, vidas que lhe tocavam os seios com uma espcie de louca adorao.
Quanto tempo se passou era impossvel de saber. Nenhum dos dois ouviu as badaladas do relgio antigo vinda de algum lugar da casa. Do lado de fora, um pssaro, talvez 
um rouxinol, cantava, parecendo suplicar em sua chamada por um amante. Algumas nuvens inofensivas afastavam-se da lua. Nenhum dos dois estava ciente de qualquer 
som, qualquer movimento fora da grande cama macia.
A boca de Gennie encontrou a dele, sedenta e desejosa. Respiraes quentes se fundiram, lnguas se entrelaaram. Mentes se tornaram nebulosas. Grant murmurou em 
sua boca... um apelo rouco. Mos fortes seguraram-lho os quadris como se ele estivesse caindo.
Gennie deslizou o corpo para baixo e o aceitou em seu interior, ento gemeu com a poderosa onda de excitao. Ela tremeu, o corpo arqueando-se para acomod-lo dentro 
de si, e iniciarem a jornada que os levaria ao maior dos parasos.
Grant tentou se segurar naquele ltimo fiapo de razo quando ela se derreteu contra seu corpo, rendida. Todavia, era tarde demais. Gennie tinha lhe tirado a sanidade. 
Tudo o que existia de animal nele lutava para ser libertado. Com um gemido quase primitivo, colocou-a deitada de costas e a possuiu como um louco. No momento em 
que Gennie pensou que estivesse exaurida, revitalizou, sendo preenchida pelo homem que amava. Seu corpo enlouqueceu, acompanhando o poder e o ritmo dele. Voando 
cada vez mais alto, cada vez mais rpido, de maneira intoxicante poderosa, eles escalaram at atingirem o clmax abenoado.
Saciados e felizes, com os corpos ainda unidos, a luz abajur ainda brilhando ao lado da cama, adormeceram.
Era um dos raros dias perfeitos. O ar estava ameno, soprava apenas uma brisa leve, e o sol estava quente e brilhante. Gennie tinha apenas beliscado alguma coisa 
no caf da manh, enquanto Grant comera pelos dois. Ele havia sado pela casa, falando vagamente sobre um jogo de pquer, deixando Gennie livre para levar seu bloco 
de desenho para fora. Todavia, o que aconteceu foi que ela teve pouco tempo de solido.
Primeiro, queria uma viso direta da casa, a mesma que podia ter qualquer pessoa que passasse pela estrada. Se Daniel havia planejado aquilo ou no... e ela achava 
que sim... era sensacional.
Gennie transps os arbustos de rosas espinhosas para se sentar no gramado perto de uma castanheira. Por um tempo, o lugar estava tranqilo, apenas com o som das 
gaivotas, pssaros diversos, e ondas contra a pedra. O esboo comeou com linhas irregulares corajosamente traadas, ento, incapaz de resistir, ela comeou a refin-las... 
dando-lhes formas, aperfeioando-as. Quase meia hora se passou antes que um movimento lhe chamasse a ateno. Shelby tinha sado por uma porta lateral enquanto Gennie 
se concentrava na torre, e j estava na metade do caminho do jardim desnivelado.
- Ol. Eu vou perturbar voc?
- No. - Gennie sorriu e colocou o bloco no colo. - Eu passarei dias desenhando aqui se algum no me parar.
- O lugar  fabuloso, no ? - Movimentando-se com uma graa que fez Gennie lembrar-se de Grant, Shelby sentou-se a seu lado. Estudou o esboo no colo de Gennie. 
Ento,  isso - murmurou ela, e tambm pensou em Grant. Quando criana, costumava ficar irritada por no ter a habilidade do irmo com um lpis ou um crayon. E quando 
haviam ficado mais velhos, a inveja de Shelby se transformara em orgulho... quase exclusivamente. - Voc e Grant tm muito em comum.
Satisfeita com a idia, Gennie olhou para seu prprio trabalho.
- Ele tem muito talento, no  mesmo?  claro que s vi uma caricatura improvisada, mas  to bvio! Pergunto-me... por que ele no est fazendo nada com isso?
Era uma sondagem direta, ambas sabiam disso. A declarao tambm disse a Shelby que Grant ainda no confiara seu segredo para a mulher ao lado dela. A mulher, Shelby 
tinha certeza absoluta, pela qual ele estava apaixonado, Impacincia guerreou com lealdade. Por que seu irmo estava sendo um tolo to teimoso? Mas a lealdade venceu.
- Grant faz basicamente o que lhe d prazer. Voc o conhece h muito tempo?
- No realmente. Apenas h algumas semanas. - Preguiosamente, Gennie arrancou um punhado de grama e torceu-o entre os dedos. - Meu carro quebrou durante uma tempestade 
na estrada que levava ao farol. - Ela riu quando uma imagem muito ntida da carranca de Grant lhe veio  mente. - Grant no ficou muito feliz em me encontrar  sua 
porta.
- Voc quer dizer que ele foi rude, grosseiro e impossvel - acrescentou Shelby, sorrindo.
- No mnimo.
- Graas a Deus, algumas coisas so persistentes. Ele est louco por voc.
- No sei para quem isso  mais chocante, se para ele ou para mim. Shelby... - No deveria bisbilhotar, pensou Gennie, mas descobriu que precisava saber de alguma 
coisa, qualquer coisa que lhe desse uma chave para o mundo interior de Grant. - Como ele era, quando criana?
Shelby olhou para as nuvens que se movimentavam de forma inofensiva no cu.
- Grant sempre gostou de ficar sozinho. Ocasionalmente, quando eu o perseguia, ele me tolerava. Sempre gostou de pessoas, embora olhe para elas de uma maneira inclinada. 
Do jeito dele - acrescentou ela, dando de ombros.
Shelby pensou na segurana que eles haviam tido quando crianas. As campanhas, a imprensa. E pensou brevemente que, com Alan, ela entrara diretamente no redemoinho. 
Com um pequeno suspiro que Gennie no entendeu, Shelby apoiou-se sobre os cotovelos.
- Ele possua um temperamento terrvel, uma opinio firme sobre o que era certo e o que era errado... para si mesmo e para a sociedade em geral, o que nem sempre 
eram as mesmas coisas. Todavia, na maior parte do tempo, Grant era fcil de conviver e amvel para um irmo mais velho, suponho.
Ela ainda estava olhando para o cu, e, enquanto ficava silenciosa por um momento, Gennie a observou. 
- Grant tem grande capacidade para amor e gentileza continuou Shelby. - Mas reparte isso de forma econmica e de seu prprio jeito. - Ela hesitou, ento, olhando 
para o semblante calmo e olhos inexpressivos de Gennie, sentiu que deveria lhe dar algo. - Ns perdemos o nosso pai. Grant tinha 17 anos, na fase entre ser um garoto 
e um homem. A perda me devastou, e demorei muito tempo para perceber que Grant tambm estava arrasado. Ambos estvamos l quando nosso pai foi morto.
Gennie fechou os olhos, pensando em Grant, lembrando-se de Angela. Aquilo era algo que podia entender muito bem. A culpa, a dor, o choque que nunca passava realmente.
- Como ele foi morto?
- Grant deveria lhe contar sobre isso - respondeu Shelby calmamente.
- Sim. - Gennie abriu os olhos. - Ele deveria. 
Querendo dispersar o clima tenso, e suas prprias memrias, Shelby tocou-lhe a mo.
- Voc  boa para ele. Pude ver isso de imediato. Considera-se uma pessoa paciente, Gennie?
- No tenho mais certeza.
- No seja paciente demais - aconselhou ela com um sorriso. - Grant precisa de algum que lhe d uma boa sacudida de vez em quando. Sabe, assim que conheci Alan, 
estava absolutamente determinada a no ter nada com ele.
- Isso me soa familiar. Ela riu.
- E ele estava absolutamente determinado a me fazer ter. - Shelby sorriu com a lembrana. - Ele foi paciente, mas no muito paciente. E no sou nem de perto to 
cruel quanto Grant.
Gennie riu, ento virou uma pgina do bloco para esboar Shelby.
- Como voc conheceu Alan?
- Oh, numa festa em Washington.
- Voc  de l?
- Eu moro em Georgetown... ns moramos em Georgetown - corrigiu ela. - Minha loja  l, tambm.
Gennie arqueou as sobrancelhas quando desenhou a linha sutil do nariz de Shelby.
- Que tipo de loja?
- Sou ceramista.
- Verdade? - Interessada, Gennie parou de desenhar. Voc molda peas em argila? Grant nunca mencionou
- Ele nunca menciona - disse Shelby secamente.
- H um vaso no quarto dele - lembrou Gennie. - Pintado de henna com flores selvagens entalhadas. Aquele trabalho  seu?
- Dei ao meu irmo de Natal alguns anos atrs. Eu no sabia o que ele tinha feito com o vaso.
- A pea fica lindamente refletida pela luz do sol - contou Gennie, notando que Shelby estava tanto surpresa quanto contente. - No h muito mais coisas no farol 
que ele se importe em limpar.
- Grant  negligente - disse Shelby de forma carinhosa. -Voc quer faz-lo mudar seu jeito de ser?
- Realmente, no.
- Fico feliz com isso. Embora eu detestasse que ele me ouvisse dizer, gosto de meu irmo exatamente como . - Ela estendeu os braos para o cu. - Agora vou perder 
alguns dlares para Justin. J jogou cartas com ele?
- Apenas uma vez. - Gennie sorriu. - Foi suficiente.
- Entendo o que voc quer dizer - murmurou Shelby e se levantou. - Mas geralmente consigo blefar com Daniel para fazer isso valer a pena.
Com um ltimo sorriso brilhante, ela se foi. Pensativa, Gennie olhou para seu esboo e refletiu sobre as poucas informaes que Shelby lhe dera.
- Ento, o rosto dela  como o de um sapo? - perguntou Caine quando encontrou Grant no corredor.
- A beleza est nos olhos do admirador - replicou Grant com facilidade.
Com um sorriso de apreciao, Caine apoiou-se contra uma das muitas passagens arcadas.
- Voc enlouqueceu papai. Todos ns recebemos um telefonema dele, dizendo que Campbell estava indo pelo caminho errado, e que era o nosso dever ajud-lo, j que, 
de certa forma, ele era parte da famlia. - O sorriso tornou-se cruel. - Parece que voc est se saindo muito bem sem ajuda.
Grant reconheceu aquilo com um assentimento da cabea.
- A ltima vez que estive aqui, Daniel estava tentando me envolver com uma garota chamada Judson. Eu no queria correr nenhum risco.
- Papai  firme em sua crena no casamento e na procriao. - O sorriso de Caine diminuiu quando pensou na esposa. - E interessante o fato de sua Gennie ser prima 
de Diana.
- Uma coincidncia - murmurou Grant, notando a expresso perturbada de Caine. - Eu no vi Diana esta manh.
- Nem eu - replicou Caine com ironia, ento deu de ombros. - Ns discordamos em um caso que ela decidiu aceitar. - O semblante preocupado estampou-se em seu rosto 
novamente. -  difcil estar casado e ter a mesma profisso, especialmente quando os dois vem a profisso por ngulos diferentes.
Grant pensou em si mesmo e Gennie. Duas pessoas podiam olhar a arte de pontos de vista mais opostos?
- Imagino que seja. Tive a impresso de que Gennie ;i deixou desconfortvel.
- Diana teve uma infncia difcil. - Enfiando as mos nos bolsos, Caine pareceu absorto. - Ela est comeando a se ajustar a isso. Sinto muito.
- Voc no precisa se desculpar comigo. E Gennie  perfeitamente capaz de cuidar de si mesma.
- Acho que vou procurar Diana. - Ele se recomps, ento, sorrindo, inclinou a cabea em direo aos degraus da torre. - Justin est com sorte no jogo, como sempre, 
se voc quiser arriscar.
Do lado de fora, Diana andou para a lateral da casa e para o jardim da frente antes de avistar Gennie. Seu primeiro instinto foi virar-se, mas Gennie olhou para 
cima. Os olhos das duas se encontraram. De maneira rgida, Diana atravessou o gramado, mas, diferente de Shelby, no se sentou.
- Bom dia.
Gennie lhe devolveu um olhar igualmente frio.
- Bom dia. As rosas esto lindas, no esto?
- Sim. Elas no vo durar muito mais tempo. - Diana ps as mos dentro dos bolsos de sua cala verde. - Voc vai pintar a casa?
- Eu pretendo. - Em um impulso, ela ergueu o bloco de desenho para a prima. - O que voc acha?
Diana pegou o bloco, estudou o esboo e viu todas as coisas que a tinham impressionado na primeira vez que vira a estrutura... a fora, a aura de conto de fadas, 
o charme encantador. Aquilo a emocionou. E a deixou desconfortvel. De alguma forma, o desenho formava um elo entre as duas, um elo que queria evitar.
- Voc  muito talentosa - murmurou ela. - Tia Adelaide sempre a elogiava.
Gennie no pde evitar uma risada.
- Tia Adelaide no saberia a diferena de um Rubens para um Rembrandt, apenas pensa que sabe. - Ela podia ter mordido a lngua. Aquela mulher, lembrou-se, tinha 
sido criada por Adelaide, e Gennie no tinha o direito de denegri-la para algum que poderia gostar da tia. - Voc a tem visto recentemente?
- No - respondeu Diana sem rodeios, e devolveu o desenho a Gennie.
Perturbada, Gennie sombreou os olhos e estudou Diana com cuidado. Casualmente, virou uma pgina do bloco, como tinha feito com Shelby, e comeou a desenh-la.
- Voc no gosta de mim.
- Eu no conheo voc - retornou Diana friamente.
- Verdade, o que torna o seu comportamento ainda mais confuso para mim. Pensei que voc fosse mais parecida com Justin.
Furiosa porque as palavras faladas com tanta facilidade a tinham ferido, Diana a fitou.
- Justin e eu somos diferentes porque tivemos vidas distintas. - Virando-se, Diana deu trs passos rpidos, antes de parar. Por que estava agindo como uma mulher 
ranzinza?, perguntou-se, ento colocou uma das mos sobre o estmago. Depois, endireitou os ombros e virou-se.
- Peo desculpas por ser rude, porque Justin gosta de voc.
- Oh, muito obrigada - murmurou Gennie secamente, embora estivesse comeando a sentir uma onda de compaixo pelo sofrimento que viu nos olhos de Diana. - Por que 
no me conta o motivo pelo qual sente que deve ser rude, para comear?
- Simplesmente no me sinto  vontade com o lado Grandeau da famlia.
- Essa  uma viso estreita para uma advogada - apontou Gennie. - E para uma mulher que s me viu uma vez, quando ns tnhamos o que... oito ou dez anos de idade?
- Voc  to certinha! - disse Diana antes que pudesse pensar. - Adelaide deve ter me dito centenas de vezes que eu deveria observar o seu comportamento e seguir 
o seu exemplo.
- Adelaide sempre foi uma mulher tola e arrogante - retornou Gennie.
Diana a encarou. Sim, sabia disso... agora... simplesmente no imaginava que nenhuma outra pessoa daquela parte da famlia soubesse.
- Voc conheceu todos l - continuou ela, embora estivesse comeando a se sentir uma tola. - E seus cabelos ficavam presos em uma fita que combinava com o vestido. 
Era de organdi verde-menta. Eu nem sabia o que era organdi.
Porque seus sentimentos de compaixo foram instantaneamente despertados, Gennie se levantou. No tocou em Diana, pois sabia que no seria bem-vinda.
- Ouvi dizer que voc era Comanche. Naquela festa, esperei a noite toda para v-la fazer uma dana de guerra. Fiquei terrivelmente desapontada quando voc no fez. 
Diana olhou-a outra vez, por uns trinta segundos. Sentiu uma vontade desesperadora de chorar, o que vinha lhe acontecendo com muita freqncia ultimamente. Em vez 
disso, pegou-se rindo.
- Eu gostaria que soubesse como... e que tivesse tido coragem de danar. E tia Adelaide teria desmaiado. - Ela parou, hesitou, ento estendeu uma das mos. - Estou 
feliz por t-la reencontrado... prima.
Gennie aceitou a mo, ento deu um passo  frente pressionou os lbios no rosto de Diana.
- Talvez, se voc nos der uma chance, vai descobrir? que alguns dos Grandeau so quase to humanos quanto os MacGregors.
Diana sorriu. O sentimento de famlia sempre mexia muito com ela.
- Sim, talvez.
Quando o sorriso de Diana desapareceu, Gennie seguiu-lhe a direo do olhar, e viu Caine parado entre a roseiras. A tenso retornou de imediato, mas no tinha nada 
a ver com ela.
- Preciso achar um novo ngulo para os meus esboos - murmurou Gennie.
Caine esperou at que Gennie estivesse a uma boa distncia antes de se aproximar da esposa.
- Voc parece cansada, Diana.
- Estou bem - respondeu ela muito rapidamente. -Pare de se preocupar comigo - acrescentou e virou-se.
Frustrado, Caine segurou-lhe o brao.
- Que coisa, voc est se desgastando por aquele caso e...
- Pare com isso! - gritou ela. - Sei o que estou fazendo.
- Talvez - disse Caine. - A questo , voc nunca pegou um caso de assassinato antes, e a acusao tem um caso clssico construdo.
-  uma pena que voc no tenha mais confiana em minha capacidade.
- No  isso. - Furioso, ele segurou-lhe os braos e a sacudiu. - Voc sabe que no  disso que se trata!
A voz de Caine era mais frustrada do que zangada agora, enquanto os olhos a estudavam, procurando os segredos que ela estava lhe escondendo.
- Pensei que ns estivssemos alm disso, mas voc obviamente est me escondendo alguma coisa. Eu quero saber o que , Diana. Quero saber o que est errado com voc!
- Eu estou grvida! - gritou ela, ento pressionou a mo na boca.
Atnito, Caine liberou-lhe os braos, e a encarou.
- Grvida? - Sobre a onda de choque, veio a onda de felicidade, to grande, to estonteante, que, por um momento, ele foi incapaz de se mover. - Diana! - Quando 
tentou toc-la, ela deu um passo atrs, de modo que a felicidade de Caine foi substituda por dor. Muito deliberadamente, ele enfiou as mos nos bolsos. - H quanto 
tempo voc sabe?
Ela engoliu em seco e esforou-se para manter a voz firme.
- Duas semanas.
Dessa vez, Caine virou-se para olhar as rosas selvagens, sem realmente v-las.
- Duas semanas - repetiu ele. - Voc no achou necessrio me contar?
- Eu no sabia o que fazer! -As palavras saram repletas de nervosismo e sentimentos. - Ns no tnhamos planejado... no ainda... e pensei que pudesse ser um engano, 
mas... - Ela parou, enquanto Caine continuava de costas.
- Voc foi ao mdico?
- Sim,  claro.
-  claro - repetiu ele com uma risada sem humor. - De quanto tempo voc est?
Diana umedeceu os lbios.
- Quase dois meses.
Dois meses, pensou Caine. H dois meses, o beb deles vinha crescendo sem que ele soubesse de nada.
- Voc fez alguns planos?
Planos?, pensou ela incrdula. Que planos poderia fazer?
- Eu no sei! - Ela ergueu as mos para o rosto. Estava descontrolada, e no era assim. Onde estava a sua lgica? - Que tipo de me eu serei? - perguntou quando 
os pensamentos ganharam voz. - No sei nada sobre crianas. Mal tive a chance de ser uma.
A dor o golpeou, muito aguda e muito real. Caine obrigou-se a se virar para encar-la.
- Diana, voc est me dizendo que no quer o beb? 
No quer?, pensou Diana freneticamente. O que ele queria dizer com no quer? J era real... ela quase podia senti-lo em seus braos. Aquilo a assustou terrivelmente.
-  parte de ns - murmurou Diana tolamente. - Como eu poderia no querer uma parte de ns?  o nosso beb. Estou carregando o seu beb, e j o amo tanto que isso 
me apavora.
- Oh, Diana! - Ele a tocou ento, gentilmente segurando-lhe o rosto entre as mos. - Voc deixou duas semanas passarem quando poderamos ter ficado apavorados juntos...
Ela deu um suspiro trmulo. Caine com medo? Ele nunca tinha medo.
- Voc est apavorado?
- Sim. - Ele beijou uma lgrima do roso dela. - Sim, estou. Alguns meses antes de Mac nascer, Justin contou a Alan e a mim como se sentia sobre tornar-se pai. - 
Sorrindo, Caine ergueu-lhe as duas mos e pressionou os lbios nas palmas. - Agora eu sei.
- Eu me senti to... paralisada. - Ela apertou-lhe os dedos. - Queria lhe contar, mas no tinha certeza como voc se sentiria. Aconteceu to rpido... ns nem terminamos 
a casa ainda, e pensei... Apenas no sabia qual seria a sua reao.
Caine levou as mos de ambos ainda unidas para o estmago de Diana.
- Eu amo voc - murmurou ele. - Vocs dois.
- Caine. - E seu nome foi abafado contra a boca dele.
- Tenho tanto a aprender em apenas sete meses!
- Ns temos muito que aprender em sete meses - corrigiu ele. - Por que no subimos? - Caine enterrou o rosto nos cabelos da esposa e inalou o aroma. - Mulheres grvidas 
devem ficar deitadas. - Ele ergueu a cabea para sorrir-lhe. - Freqentemente.
- Com maridos grvidos - brincou ela, rindo quando ele a pegou nos braos. Ia dar tudo certo, pensou Diana. Sua famlia seria simplesmente perfeita.
Gennie os observou desaparecer dentro da casa. Qualquer problema que tivesse acontecido entre eles, pensou com um sorriso, aparentemente estava resolvido.
- Que alvio!
Surpresa, Gennie virou-se para ver Serena e Justin atrs dela. Serena carregava o beb numa espcie de tira larga que ficava amarrada em seus seios. Intrigada com 
isso, Gennie espiou para ver Mac aconchegado contra o corpo a me, dormindo profundamente.
- Serena no conseguiu aproximar-se de Diana o bastante para bisbilhotar o que a estava perturbando - explicou Justin.
- Eu no bisbilhoto - retorquiu Serena, ento sorriu.
- Muito. Voc est esboando a casa. Posso ver?
Assentindo, Gennie entregou-lhe o bloco. Enquanto Serena estudava o desenho, Justin pegou a mo de Gennie.
- Como voc est?
Ela sabia exatamente o que ele estava perguntando. Da ltima vez que o vira, tinha sido no funeral de Angela. A visita fora breve, no intrusiva, e muito importante 
para ela. No tempo relativamente curto em que eles se conheciam, Justin se tornara uma parte vital da famlia de Gennie.
- Melhor - respondeu ela. - De verdade. Tive de me afastar da famlia por algum tempo... e da preocupao contnua deles. Isso tem ajudado. - Pensando em Grant, 
sorriu. - Muitas coisas tm ajudado.
- Voc est apaixonada por ele - afirmou Justin.
- Agora, quem est bisbilhotando? - demandou Serena.
- Eu estava fazendo uma observao - defendeu-se ele. -  totalmente diferente. Ele a faz feliz? - perguntou, ento puxou o cabelo da esposa. - Isso foi bisbilhotar 
-apontou.
Gennie riu e colocou o lpis atrs da orelha.
- Sim, ele me faz feliz... e me faz infeliz. Tudo isso faz parte, no  mesmo?
- Oh, sim. - Serena descansou a cabea contra o ombro do marido. Avistou Grant quando ele saiu pela porta da frente. Ento, colocou uma mo sobre o brao de Gennie. 
- Gennie, se ele for to lento como alguns homens so - comeou com um olhar significativo para Justin -, tenho uma moeda que vou lhe emprestar. - Com o olhar confuso 
de Gennie, Diana riu. - Pea-me, qualquer hora dessas.
Ela enganchou o brao no de Justin e saiu andando, sugerindo que eles fossem ver se algum estava usando a piscina. Gennie o ouviu murmurar alguma coisa que fez 
Serena dar uma deliciosa risadinha.
Famlia, pensou ela. Era maravilhoso ter tropeado na famlia daquela maneira. A sua famlia, e a famlia de Grant. Havia um elo ali que poderia aproxim-lo mais 
dela. Feliz, atravessou o gramado correndo para encontr-lo.
Grant a pegou quando Gennie atirou-se em seus braos sem flego.
- Do que se trata tudo isso?
- Eu amo voc! - confessou ela, rindo. - Precisa de outro motivo?
Ele apertou os braos ao seu redor. 
- No.



Onze

A vida de Gennie sempre tinha sido repleta de pessoas, de todos os estilos. Mas nunca conhecera ningum como os do cl MacGregor. Antes do trmino do fim de semana 
se aproximar, sentia como se os conhecessem por uma vida toda. Daniel era barulhento, mando e perspicaz... e to sensvel quando se tratava de sua famlia que ameaava 
derreter-se. Era bvio que todos o adoravam o bastante para deix-lo pensar que estava no comando das coisas,
Anna era calma e carinhosa como um banho de vero. E forte o bastante para manter a famlia unida em qualquer crise, Gennie sabia instintivamente. Com os toques 
mais gentis, conduzia o marido como queria. E Daniel, com todos os seus gritos e exploses, tinha conscincia disso.
Na segunda gerao, ela pensou em Caine e Serena, os mais parecidos. Volteis, extrovertidos, emocionais, possuam temperamento de membros da famlia real. Entretanto, 
quando especulou sobre Alan, pensou que aquele exterior calmo e srio que ele herdara de Anna cobria um tremendo poder... e um temperamento que poderia ser perverso 
quando provocado. Ele havia encontrado um bom par em Shelby Campbell.
Os MacGregors tinham escolhido parceiros contrastantes... Justin com seus segredos e silncios de jogador; Diana, reservada e emotiva; Shelby, extrovertida e inteligente. 
Eles formavam um grupo fascinante com seus temperamentos e tendncias.
No foi necessrio muito esforo para Gennie persuadi-los a se sentarem para um desenho familiar.
Apesar de todos terem concordado rapidamente, foi um outro problema acomod-los. Gennie os queria na sala de trono, alguns sentados, outros em p, e isso levou a 
uma vasta discusso de quem fazia o qu.
- Eu vou segurar o beb - anunciou Daniel, ento estreitou os olhos caso algum quisesse discutir o ponto. - Voc pode fazer uma outra pintura no prximo ano, moa 
- acrescentou para Gennie quando no houve oposio -, e eu estarei segurando dois bebs. - Ele sorriu para Diana, antes de voltar o olhar para Shelby. - Ou trs.
- Voc devia colocar papai sentado em sua cadeira-trono - emendou Alan rapidamente, dando a Gennie um de seus raros sorrisos. - Isso tornaria o enunciado mais claro.
- Exatamente. - Os olhos dela vagaram enquanto mantinha as feies srias. - E, Anna, sente-se ao lado dele. Talvez voc deva segurar seu bordado, porque parece 
muito natural.
- As esposas deveriam se sentar aos ps do marido - palpitou Caine suavemente. - Isso  natural.
Houve uma concordncia geral entre os homens e caretas das mulheres.
- Acho que vamos misturar um pouco isso... para propsitos estticos - disse Gennie sobre o rudo que se sucedeu. Com o senso de organizao e brevidade de um sargento 
treinado, comeou a arranj-los conforme seu gosto.
- Alan aqui... - Ela o pegou pelo brao e o colocou entre as cadeiras dos pais. - E Shelby - acrescentou, empurrando Shelby gentilmente para o lado do marido. - 
Caine, voc se senta no cho. - Ela puxou-lhe a mo, at que, sorrindo, ele obedeceu. - E Diana - Caine puxou a esposa para seu colo antes que Gennie pudesse terminar. 
Assim est bom. Justin, aqui com Rena. E Grant...
- Eu no... - comeou ele.
- Faa o que ela est dizendo, garoto. - Daniel falou para ele, depois diretamente para seu neto: - Tinha de ser Campbell para criar problemas.
Resmungando, Grant posicionou-se atrs da cadeira de Daniel e o olhou com uma carranca.
- Uma coisa boa quando um Campbell est em um retrato da famlia MacGregor.
- Dois Campbell - Shelby relembrou o irmo com entusiasmo. - E como Gennie vai conseguir desenhar e se sentar conosco ao mesmo tempo?
Mesmo quando Gennie a fitou em surpresa, a voz forte de Daniel soou:
- Ela vai se desenhar.  uma moa inteligente.
- Tudo bem - concordou ela, contente com o desafio e com sua incluso na cena da famlia. - Agora, relaxem, no vai demorar demasiadamente... e no  como uma fotografia, 
onde vocs devem ficar imveis. - Ela acomodou-se na ponta do sof e comeou, usando uma pequena moldura para suporte que levara consigo. - Um grupo muito colorido 
- falou, escolhendo um carvo vegetal em tom pastel da caixa. - Teremos de fazer isso em leo uma hora dessas.
- Sim, ns vamos querer um para a nossa galeria, no vamos, Anna? Um quadro bem grande. - Daniel sorriu com o pensamento, depois, recostou-se com o beb aninhado 
na curva do brao. - Ento, Alan vai precisar de seu retrato assim que estiver estabelecido na Casa Branca - acrescentou de modo complacente.
Enquanto Gennie esboava, Alan deu ao pai um sorriso doce.
-  um pouco prematuro para esta encomenda ainda. - Seu brao passou ao redor de Shelby e permaneceu l.
- Hah! - Daniel fez ccegas no queixo do neto.
- Voc sempre quis pintar, Gennie? -perguntou Anna, distraidamente dando um ponto no bordado.
- Suponho que sim. Pelo menos, no me lembro de querer alguma outra coisa.
- Caine queria ser mdico - comentou Serena com um sorriso inocente. - Pelo menos, era o que ele dizia a todas as garotinhas.
- Era uma aspirao natural - defendeu-se Caine, levantando uma das mos para o joelho da me, enquanto seu brao segurava Diana firmemente junto ao seu corpo.
- Grant usou uma abordagem diferente -lembrou Shelby. - Acho que ele tinha 14 anos quando convenceu Dee-Dee Brian a servir de modelo para ele... em um nu.
- Isso foi estritamente pelo propsito da arte - reagiu Grant quando Gennie lhe franziu o cenho. - E eu tinha 15 anos.
- Estudos da vida so uma parte essencial de qualquer curso de arte - disse Gennie, comeando a desenhar de novo. - Lembro-me de um modelo masculino em particular... 
- Ela parou quando os olhos de Grant se estreitaram. - Ah, essa expresso zangada  muito natural, Grant, tente no perd-la.
- Ento, voc desenha, certo, garoto? - Daniel enviou-lhe um olhar especulativo. Aquilo o interessava porque ainda no tinha conseguido descobrir, nem atravs de 
Grant nem de Shelby, o que ele fazia para viver.
- Dizem que sim.
- Um artista, eh?
- Eu no... pinto. - Grant falou, e encostou-se contra a cadeira de Daniel.
-  uma coisa boa quando um homem e uma mulher tem algum interesse em comum - comeou Daniel, aumentando o tom de voz. - Deixa um casamento mais forte.
- Voc nem imagina quantas vezes Daniel me viu operando - colocou Anna suavemente.
Ele bufou.
- Lavei alguns joelhos ensangentados na minha poca com esses trs.
- E houve a vez que Rena quebrou o nariz de Alan - apontou Caine.
- Deveria ter sido o seu - sua irm o relembrou.
- Isso no fez doer menos. - Alan desviou os olhos para a irm, enquanto sua esposa suspirava de forma antiptica.
- Por que Rena quebrou o nariz de Alan em vez do seu? - Diana quis saber.                                               
- Eu abaixei a cabea - replicou Caine.
Gennie deixou-os conversar livremente enquanto os desenhava. Um grupo interessante, pensou mais uma vez, observando-os discutir e, quase imperceptivelmente, se aproximarem. 
Grant esquivou-se de uma outra sondagem de Daniel, simplesmente no respondendo, ento fez um comentrio inteligente sobre a secretria de imprensa, que fez Alan 
cair na gargalhada.
No geral, refletiu Gennie enquanto escolhia uma outra cor pastel, Grant se encaixava com aquela famlia como se tivesse sado do mesmo pacote. Espirituoso, social, 
e amvel. Todavia, ela ainda podia v-lo sozinho em seu rochedo, resmungando com qualquer um que por acaso errasse o caminho e invadisse seu espao. Ele havia mudado 
para se adequar  situao, mas no perdera nada de si mesmo no processo. Era dcil porque escolhera ser, e ponto final.
Com uma ltima olhada para o que tinha feito, Gennie colocou a sua assinatura em um canto.
- Pronto! - declarou ela, e virou seu trabalho para frente do grupo. - Os MacGregors... e Companhia.
Eles a cercaram, rindo, cada um emitindo uma opinio diferente sobre a semelhana dos outros. Gennie sentiu uma certa mo em seu ombro e, sem olhar, sabia que era 
Grant.
-  lindo - murmurou ele, estudando o jeito como Gennie se desenhara ao seu lado. Abaixando-se, beijou-lhe a orelha. - Voc tambm  linda.
Gennie riu, e o preciso sentimento de pertencer permaneceu com ela por dias.

Setembro trouxe um outono glorioso, no qual as flores e vagens ainda cresciam, e as folhas das rvores tornavam-se vermelhas. Gennie pintou hora aps hora, descobrindo 
todos os cantinhos de Windy Point. A rotina de Grant tinha sido alterada to repentinamente, que ele nem notava. Trabalhava menos horas por dia, porm, mais intensamente. 
Pela primeira vez na vida, estava ansioso por companhia. Companhia de Gennie.
Ela pintava, ele desenhava. E, ento, eles se encontravam. Algumas noites eram passadas na grande cama com colcho de pena do chal, onde se aconchegavam no centro. 
Outras manhs, eles acordavam no farol com o chamado das gaivotas e o estouro das ondas. Ocasionalmente, Grant a surpreendia, aparecendo inesperadamente onde ela 
estava trabalhando, s vezes, com uma garrafa de vinho, ou com um saco de batatas fritas.
Um dia, ele lhe levara um punhado de flores selvagens. Gennie ficara to emocionada que tinha chorado sobre as flores, at que, frustrado, Grant a arrastara para 
o chal e fizera amor com ela.
Era uma poca pacfica para ambos. Dias quentes, noites frias, cu sem nuvens, e uma grande serenidade... ou talvez expectativa.
- Isso  perfeito! - gritou Gennie sobre o barulho do motor do barco que Grant navegava pelo mar. - Parece que poderamos ir at a Europa.
Ele riu e bagunou-lhe os cabelos.
- Se voc tivesse mencionado antes, eu teria enchido o tanque de gasolina.
- Oh, no seja prtico... imagine isso - insistiu ela. - Podamos ficar no mar por dias e dias.
- E noites. - Grant inclinou-se para pegar-lhe o lbulo da orelha entre os dentes. - Noites de lua cheia, infestada de tubares.
Gennie deu uma risadinha e deslizou a mo pelo peito dele.
- Quem iria proteger quem?
- Ns, escoceses, somos muito dures. Tubares provavelmente preferem pessoas mais delicadas. - Grant traou-lhe o contorno da orelha com a lngua. - Delicatesse 
francesa.
Com um tremor de prazer, ela descansou contra o corpo forte, e observou o barco avanar atravs das ondas.
O sol estava baixando, o vento soprava forte, cheio de sal e mar. Mas o calor permanecia. Eles deram a volta em uma das pequenas ilhas desertas e rochosas e assistiram 
s gaivotas voando no cu. A distncia, Gennie podia ver alguns dos barcos de lagostas voltando para o porto em Windy Point. As bias acsticas ressonavam com vigorosa 
preciso.
Talvez o vero nunca terminasse realmente, pensou ela, embora os dias estivessem se tornando mais curtos, e apesar de que tinham tido uma ameaa de geada naquela 
manh. Talvez pudessem navegar para sempre, sem nenhuma responsabilidade os chamando de volta, sem nenhuma misso os importunando. Pensou, ento, na exposio com 
a qual estava comprometida em novembro.
Nova York estava to longe, o cu acinzentado e as rvores nuas de novembro, to distantes! Por alguma razo, Gennie sentia que era de vital importncia concentrar-se 
no agora, no momento presente. Muitas coisas poderiam acontecer em dois meses. No tinha se apaixonado em apenas uma frao desse tempo?
Planejara estar em Nova Orleans por agora. Estaria quente e mido l. As ruas estariam congestionadas, o trnsito pesado. O sol penetraria em sua varanda, criando 
padres no cho. Ela sentiu uma ponta de saudade de casa. Adorava a cidade... seus ricos aromas, seu charme do mundo antigo misturado com a agitao do mundo moderno. 
Contudo, amava o lugar onde estava tambm... a amplitude absoluta, o penhasco irregular, e o mar infinito.
Grant estava l, e isso fazia toda a diferena. Ela poderia desistir de Nova Orleans, se esse fosse o desejo dele. Uma vida ali com Grant seria to fcil de construir! 
E filhos...
Gennie pensou na velha casa de fazenda perto do farol, vazia, entretanto esperando para ser habitada. Haveria espao para crianas nos grandes quartos arejados. 
Ela poderia ter um estdio no ltimo andar, e Grant teria o seu farol nos momentos que necessitasse de solido. Quando chegasse a hora de uma exibio, Gennie teria 
a mo de seu amor para segurar, e talvez todo aquele nervosismo finalmente desaparecesse. Ela plantaria flores... gernios altos e frondosos, amores-perfeitos de 
ptalas macias, narcisos que voltariam e se multiplicar em cada primavera. Durante as noites, poderia ouvir o mar e a respirao de Grant a seu lado.
- O que voc est fazendo? Adormecendo? - Ele inclinou-se para beijar-lhe o topo da cabea.
- Apenas sonhando - murmurou ela. Aqueles eram apenas sonhos ainda. - No quero que o vero acabe.
Grant sentiu um arrepio e a puxou para mais perto.
- Tem de acabar em algum momento. Eu gosto do mar no inverno tambm.
Gennie ainda estaria ali a seu lado ento?, perguntou-se Grant. Ele a queria, contudo, no sentia que pudesse segur-la. No sentia que pudesse ir com ela. Sua vida 
era to enraizada em sua necessidade de solido, que sabia que perderia parte de si mesmo caso se abrisse para isso. Gennie vivia sob refletores. Quanto ela perderia 
se ele lhe pedisse para desistir de tudo? Como poderia pedir? Por outro lado, o pensamento de viver sem ela era impossvel de aceitar.
Grant disse a si mesmo que nunca deveria ter deixado as coisas chegarem to longe. Disse a si mesmo que no devolveria um minuto do tempo que tivera com ela. O difcil 
conflito continuava atormentando-o. Deixaria Gennie ir ou a prenderia l? Recomearia uma vida nova ou suplicaria para que ela ficasse?
Quando virou o barco em direo  praia, viu o sol brilhar na gua. No, o vero nunca deveria terminar. Mas terminaria.
- Voc est to quieto! - comentou Gennie quando ele desligou o motor e deixou o barco deslizar para o cais.
- Eu estava pensando. - Ele desceu do barco para prender a corda, ento a alcanou. - Que no posso imaginar este lugar sem voc.
Gennie o fitou, quase perdendo o equilbrio no momento em que pisou no per.
- Aqui... est quase se tornando um lar para mim. 
Grant olhou para a mo que segurava... aquela mo de artista, linda e capaz.
- Conte-me sobre a sua casa em Nova Orleans - pediu ele assim que comearam a andar sobre as tbuas de madeira instveis.
- Fica no French Quarter. Posso ver Jackson Square da varanda, com os estandes de artistas em volta e os turistas c estudantes vagando por ali.  barulhento. - Ela 
riu, lembrando-se. - Meu estdio  a prova de som, mas, s vezes, deso a escada para ouvir o rudo das pessoas e a msica.
Eles escalaram as pedras speras, e no havia som, exceto o do mar e das gaivotas.
- s vezes,  noite, gosto de sair e dar uma volta, apenas para ouvir a msica saindo das portas. - Gennie inalou profundamente o ar salgado. - Tem cheiro de usque, 
Mississipi e condimentos.
- Voc sente saudade - afirmou Grant.
- Estou longe de casa h muito tempo. - Eles andaram juntos em direo ao farol. - Eu parti... ou talvez fugi... quase sete meses atrs. Havia muita coisa de Angela 
l, e eu no podia suportar. Estranho, consegui sobreviver um ano, embora eu tenha me certificado de trabalhar em excesso. Mas, ento, acordei uma manh e no podia 
suportar ficar ali, sabendo que ela no estava... nunca mais estaria. - Gennie suspirou. -Talvez tenha demorado todo esse tempo para o choque passar. - Quando chegou 
ao ponto onde eu tinha de me forar a dirigir pela cidade, entendi que precisava de alguma distncia.
- Voc ter de voltar e enfrentar - murmurou Grant de maneira direta.
- Eu j fiz isso. - Ela esperou at que ele abrisse a porta. - Enfrentar, quero dizer, embora eu ainda sinta terrivelmente a falta dela. Nova Orleans s ser to 
especial porque eu tinha tanto de minha irm l. Lugares podem nos prender, suponho. -Assim que eles entraram, Gennie sorriu-lhe. - Este aqui prende voc.
- Sim. - Grant pensou que podia sentir o inverno se aproximando, e abraou-a contra si. - O lugar me d o que necessito.
Os clios de Gennie baixaram, de modo que os olhos eram apenas fendas com a luz verde brilhante.
- Eu lhe dou o que voc necessita?
Ele a beijou com tanto desespero que Gennie tremeu... no pela fora, mas pela emoo que parecia estar explodindo de Grant sem aviso. Ela rendeu-se porque parecia 
ser a coisa certa para ambos. E, quando o fez, ele se afastou, lutando por controle. Gennie era to pequena... era difcil se lembrar disso quando a tinha em seus 
braos. E, Deus, precisava dela.
- Vamos subir - murmurou ele.
Gennie subiu em silncio, ciente de que, enquanto os toques e a voz de Grant eram gentis, o humor era voltil. Aquilo tanto a intrigou quanto a excitou. A tenso 
dele parecia crescer em grande escala enquanto iam para o quarto. Era como a primeira vez, refletiu ela, tremendo de ansiedade. Ou a ltima.
- Grant...
- No fale. - Ele a colocou na cama, ento, tirou-lhe os sapatos. Percebendo que suas mos queriam apressar-se, forou-as a agirem devagar e com suavidade. Sentando-se 
ao lado de Gennie, segurou-lhe os ombros, em seguida, abaixou-lhe as mos, enquanto tocava-lhe a boca com a sua.
O beijo foi leve, quase provocativo, mas ela podia sentir a paixo pulsante sob ele. O corpo de Grant estava tenso mesmo enquanto mordiscava-lhe o lbio inferior, 
e esfregava o polegar nos seus pulsos. Ele no estava com humor para ser gentil, entretanto esforava-se para ser. Gennie podia sentir o cheiro de mar na pele dele, 
o que lhe trouxe memrias daquele primeiro ato de amor tumultuoso no gramado, com a chuva, os raios e os troves. Era disso que Grant precisava agora. E ela descobriu, 
quando a pulsao acelerou sob os polegares msculos, que era disso que precisava, tambm.
Seu corpo no se derretia, mas parecia mover-se em espiral. O som no era um suspiro, mas um gemido quando Gennie o puxou para si e pressionou a boca aberta agressivamente 
contra a dele.
Ento, Grant passou a agir como um raio, jogando-a na cama com fria. As mos fortes enlouqueceram, procurando, encontrando, puxando-lhe as roupas como se no pudesse 
toc-la rpido o bastante. O controle desapareceu e, como uma reao em corrente, a de Gennie o seguiu, at que estivessem entrelaados em um abrao que falava sobre 
amor violento.
Explorando-se mutuamente, exigiam um do outro. Dedos pressionados, bocas vidas. Roupas foram arrancadas numa fria de impacincia para possuir, tomar. No era suficiente 
tocar, eles se apressaram para provar a pele mida e salgada do mar, e a sua paixo mtua.
Ambos sentindo um desejo avassalador, deram e receberam com avidez. E o que era tomado, voltava a ser preenchido, repetidamente, enquanto se amavam com uma energia 
que beirava o desespero. Dedos urgentes a exploravam. Uma boca vida o consumia. O comando no pertencia a nenhum dos dois, mas aos desejos primitivos que os dominava.
Respiraes aceleradas, peles que tremiam aos toques, corpos em chamas, o aroma do mar e do desejo... tudo isso nublou-lhes a mente para torn-los vtimas, assim 
como conquistadores. Os olhos de ambos se encontraram uma vez, e cada um viu a si mesmo preso na mente do outro. Estavam se movendo juntos, indo em direo ao delrio.
Mal tinha amanhecido quando Gennie acordou. A luz estava rosada e quente, mas havia uma camada fina de gelo na janela. Ela soube imediatamente que estava sozinha. 
Tocando os lenis a seu lado, encontrou-os frios. Seu corpo estava saciado por uma longa noite de amor intenso, mas sentou-se e chamou o nome dele. O simples fato 
de que Grant se levantara antes a preocupou... ela sempre acordava primeiro.
Pensando no humor dele na noite anterior, no tinha certeza se devia se sentir intrigada ou sorrir. A urgncia de Grant no se esgotara. Durante a noite inteira, 
ele a tinha procurado, e o ato de amor dos dois retivera o sabor selvagem e violento. Uma vez, quando as mos e boca de Grant a haviam explorado... por todos os 
lugares... Gennie pensou que ele parecia empenhado a implantar tudo que ela era em sua mente, como se fosse partir e levar apenas a memria de Gennie consigo.
Meneando a cabea, ela saiu da cama. Estava sendo tola, Grant no ia a lugar algum. Se tinha acordado cedo era porque no conseguira dormir e no quisera perturb-la. 
Como gostaria que ele a tivesse perturbado.
Grant est apenas l embaixo, disse a si mesma, indo para o corredor. Est sentado  mesa da cozinha, tomando caf e esperando por mim. Mas, no momento em que Gennie 
chegou  escada, ouviu o rdio, baixo e indistinto. Intrigada, olhou para cima. O som vinha de cima, no de baixo.
Estranho, pensou, no imaginara que ele usava o terceiro piso da casa. Grant nunca havia mencionado isso. Levada pela curiosidade, Gennie comeou a subir a escada 
circular. O rdio soando mais alto conforme se aproximava, embora o noticirio estivesse em tom baixo, e parecesse misteriosamente fora de lugar no farol silencioso. 
At aquele momento, ela no tinha percebido o quo completamente esquecera-se do mundo exterior. Mas, exceto por aquele fim de semana na casa dos MacGregors, seu 
vero fora insular, e concentrado somente em Grant.
Parou  porta de um quarto ensolarado. Era um estdio. Grant cultivara a luz do norte e espao. Instantaneamente, o olhar dela foi para as prateleiras de jornais 
e revistas, para a televiso, e um sof cncavo. Sem molduras para suporte, sem telas, mas era o estdio de um artista.
Grant estava de costas para ela, sentado  sua prancheta de desenho. Gennie sentiu o cheiro de... tinta, percebeu, e talvez um pouco de cola. O gabinete com tampo 
de vidro ao lado dele continha uma variedade de ferramentas organizadas.
Um arquiteto?, perguntou-se ela, confusa. No, aquilo no se encaixava, e certamente nenhum arquiteto resistiria a usar suas habilidades naquela casa de fazenda 
to prxima. Ele murmurava alguma coisa para si mesmo, inclinado sobre o trabalho. Gennie teria sorrido se no estivesse to intrigada. Quando Grant moveu a mo, 
ela o viu segurando um pincel de artista... de pele de marta e caro. E segurava-o com a facilidade de algum que possua longa prtica.
Porm, ele dissera que no pintava, lembrou-se Gennie, desnorteada. Grant no parecia ser... e por que um pintor precisaria de um compasso e de um T-quadrado? Uma 
pessoa no pintava olhando para uma parede, de qualquer forma, mas... o que ele estava fazendo?
Antes que ela pudesse falar, Grant levantou a cabea. No espelho diante dele, os olhos dos dois se encontraram.
Ele no tinha conseguido dormir. No fora capaz de ficar deitado ao lado de Gennie sem desej-la. De alguma maneira, durante a noite, convencera a si mesmo que eles 
teriam de se separar. E que no podia lidar com isso. Ela vivia em um outro mundo, mais do que em outra parte do pas. Glamour era parte da vida de Gennie... glamour, 
multides e reconhecimento. Simplicidade era parte de seu mundo... simplicidade, solido e anonimato. No havia como combinar aquelas coisas.
Grant se levantara no escuro, iludindo-se que podia trabalhar. Aps quase duas horas de frustrao, estava comeando a ter sucesso. Agora, ela estava l, em uma 
parte da ltima poro de si mesmo que ele se determinara a manter intocada. Quando Gennie partisse, queria ler, no mnimo, um santurio.
Intrigada demais para perceber a irritao dele, Gennie atravessou o quarto.
- O que voc est fazendo? - Ele no respondeu quando ela se colocou a seu lado e franziu o cenho para o papel atado  prancheta. Estava traado com linhas azuis 
claras e dividido em partes. Mesmo quando Gennie viu os desenhos de caneta e tinta tomando forma na primeira seo, no teve certeza para o que estava olhando.
No uma planta, certamente, pensou. Algum tipo de arte de comercial, talvez? Ento, reconheceu a figura.
- Oh! Histrias em quadrinhos. - Satisfeita com a descoberta, ela aproximou-se mais. - Nossa, vi essa histria em quadrinhos centenas de vezes. Eu adoro! - Gennie 
riu e jogou os cabelos para trs do ombro. - Voc  um autor de histrias em quadrinhos!
- Isso mesmo. - Grant no queria que ela ficasse feliz ou impressionada. Era simplesmente o que ele fazia, nada mais. E sabia que, se no a mandasse embora naquele 
dia, nunca mais seria capaz de faz-lo. Deliberadamente, largou o pincel.
- Ento,  assim que voc faz isso - continuou ela, encantada com a idia. - Estas linhas azuis que voc traa no papel so para perspectiva? Como consegue fazer 
uma coisa assim sete dias por semana?
Ele no queria que ela entendesse. Se Gennie entendesse, seria quase impossvel mand-la embora.
-  o meu trabalho - replicou ele simplesmente. - Estou ocupado, Gennie. Eu trabalho com prazos.
- Desculpe-me - disse ela automaticamente, ento percebeu o olhar frio e distante de Grant. Ocorreu-lhe de repente que ele havia escondido aquilo dela, aquela parte 
essencial da vida dele. No lhe contara nada. Mais do que isso, fizera questo de esconder. Aquilo magoava, descobriu enquanto seu prazer inicial desaparecia. - 
Por que voc no me contou?
Grant sabia que ela perguntaria, mas no estava mais certo se tinha a resposta verdadeira. Em vez disso, deu de ombros.
- O assunto no surgiu.
- No surgiu? - repetiu Gennie, encarando-o. - No, suponho que voc se certificou de no deixar surgir. Por qu?
Ele podia explicar que aquilo era um hbito enraizado? Podia dizer-lhe que a verdade essencial era que estava to acostumado a manter seu trabalho, e quase todo 
o resto, para si mesmo, que tinha feito isso sem pensar? Ento, continuara omitindo como um modo automtico de defesa? Se mantivesse aquela parte de sua vida para 
si mesmo, no teria de lhe dar tudo... porque dar tudo a Gennie o apavorava terrivelmente. No, era tarde demais para explicaes. Era hora de lembrar-se de sua 
regra de no se abrir para ningum.
- Por que eu deveria ter lhe contado? - murmurou ele. - Este  o meu trabalho, no tem nada a ver com voc.
A cor esvaiu-se dramaticamente do rosto de Gennie, mas, quando se virou para afastar-se do banco, Grant no viu.
- Nada a ver comigo - ecoou ela num sussurro. - Seu trabalho  importante para voc, no ?
-  claro que sim - replicou Grant. -  o que fao para viver.  o que sou.
- Sim, claro. - Gennie sentiu o frio percorr-la at que estava entorpecida por ele. - Compartilhei a sua cama, mus no posso compartilhar isso.
Irritado, ele virou-se para fit-la. A expresso magoada nos olhos de Gennie era a coisa mais difcil que j tinha encarado.
- O que uma coisa tem a ver com a outra? Que diferena faz que tipo de trabalho fao para viver?
- Eu no teria me importado com o que voc faz. No leria me importado se no fizesse absolutamente nada. Voc mentiu para mim.
- Eu nunca menti para voc! - gritou ele.
- Talvez eu no compreenda a linha tnue entre dissimulao e engano e desonestidade.
- Oua, meu trabalho  privado.  assim que quero que seja. -A explicao saiu sem que ele pudesse evitar, em tom zangado. - Fao isso porque adoro fazer, no porque 
preciso, no porque necessito de reconhecimento. Reconhecimento  a ltima coisa que quero - acrescentou enquanto seus olhos escureciam de raiva. - No dou palestras, 
no participo de workshops ou dou entrevistas  imprensa, porque no quero as pessoas respirando no meu pescoo. Escolho anonimato exatamente onde voc escolhe exposio, 
porque  assim que as coisas funcionam para mim. Esta  a minha arte e a minha vida. E pretendo mant-las assim.
- Eu entendo. - Gennie estava rgida pela dor, destruda pelo frio. Entendia o sofrimento bem o bastante para saber o que estava sentindo. - E me contar, ter compartilhado 
isso comigo, teria significado se expor. A verdade  que voc no confiou em mim. No confiou que eu pudesse guardar seu precioso segredo ou respeitar seu precioso 
estilo de vida.
- A verdade  que nossos estilos de vida so completamente opostos. - A dor o consumia. Estava afastando de si, podia sentir isso. E, mesmo enquanto a afastava, 
queria pux-la de volta. - No h como unir o que voc precisa e o que eu preciso e formar um todo disso. No tem nada a ver com confiana.
- Tudo sempre tem a ver com confiana - contradisse Gennie. Grant a olhava agora como a olhara da primeira vez... com raiva, um estranho isolado que no queria nada 
alm de ser deixado sozinho. Ela era a intrusa ali, como tinha sido, h muito tempo atrs, na noite da tempestade. Na poca, pelo menos, no o amava.
- Voc deveria ter entendido a palavra amor antes de us-la, Grant. Ou talvez ns dois devssemos ter entendido a concepo de mundo de cada um. - A voz dela estava 
firme de novo, firme demais, como s ficava quando se mantinha sob um controle rgido. - Para mim, significa confiana, compromisso e necessidade. Essas coisas no 
se aplicam a voc.
- Que coisa, no me diga como eu penso. Compromisso? - devolveu Grant, levantando-se e andando de um lado para o outro. - Que tipo de compromisso ns poderamos 
ter feito? Voc teria se casado comigo e se enterrado aqui? Ns dois sabemos que a imprensa a teria perseguido, mesmo se voc pudesse suportar o isolamento. Voc 
esperaria que eu vivesse em Nova Orleans at que meu trabalho se despedaasse e estivesse meio louco pura fugir?
Grant virou-se para ela, as costas para a janela leste, de modo que o sol nascente brilhasse ao seu redor.
- Quanto tempo demoraria antes que algum ficasse curioso o bastante para se meter na minha vida? Tenho motivos para me isolar, e no preciso justific-los.
- No, voc no precisa. -No choraria, disse Gennie a si mesma, porque uma vez que comeasse, nunca mais pararia. - Mas voc nunca saber a resposta para nenhuma 
dessas perguntas, saber? Porque nunca se importou em compartilh-las comigo. Voc no as dividiu, assim como no dividiu os motivos. Suponho que essa seja uma resposta 
suficiente.
Gennie virou-se e saiu do estdio, indo em direo  escada circular. No comeou a correr at que estivesse do lado de fora, no frio da manh.


Doze

Gennie olhou para as cartas e considerou. Um nove e um oito. Jogaria com segurana com 17, uma outra carta seria um risco tolo. A vida estava repleta de erros tolos, 
pensou, e sinalizou para o distribuidor de cartas. O quatro que tirou a fez sorrir com ironia. Sorte nas cartas...
O que estava fazendo sentada a uma mesa de blackjack s sete horas da manh de um domingo? Bem, refletiu, era certamente um jeito conveniente de passar o tempo. 
Mais produtivo do que ficar andando de um lado para o outro ou socando um travesseiro. J havia tentado as duas coisas. Entretanto, de alguma maneira, a onda de 
sorte que vinha experimentando pela ltima meia hora no melhorara seu humor. Perversamente, preferia ter perdido muito. Dessa forma, teria algum outro motivo para 
ficar deprimida.
Impaciente, pegou suas fichas e guardou os ganhos na bolsa. Talvez pudesse perd-los em uma mesa de dados mais tarde.

Havia pouca gente no cassino quela hora da manh. Uma senhora de idade muito pequena estava sentada num banco diante de uma mquina caa-nqueis, sistematicamente 
alimentando-a de moedas. De vez em quando, Gennie ouvia o barulho das moedas caindo na bandeja. Mais tarde, o enorme salo elegante estaria repleto de pessoas, ento 
Gennie poderia perder-se na fumaa e no barulho. Mas, por enquanto, foi para a parede de vidro e olhou para o mar.
Era por isso que tinha ido l, em vez de ir para casa como pretendera? Quando jogara sua mala e material de pintura no carro, seu nico pensamento fora voltar para 
Nova Orleans e recomear sua vida. Mas, ento, fizera um retorno mesmo antes de se dar conta disso. Todavia, agora que estava l h mais de duas semanas, no podia 
sair para andar naquela praia. Podia olhar para o mar, podia ouvi-lo. Mas no podia ir at a praia.
Por que estava se atormentando daquela maneira?, perguntou-se miservel-mente. Por que estava se colocando ao alcance do que sempre a lembraria de Grant? Porque, 
admitiu, independentemente do quanto tentava se convencer do contrrio, ainda no tinha aceitado o rompimento definitivo. Era to impossvel voltar para Grant quanto 
era andar at aquela gua azul-esverdeada. Ele a ' rejeitara, e a dor disso a deixava vazia.
Eu amo voc, mas...
No, Gennie no podia compreender isso. Amor significava que tudo era possvel. Amor significava tornar tudo possvel. Se aquele amor tivesse sido real, Grant teria 
entendido isso, tambm.
Ela estaria melhor se tivesse sido capaz de resistir  vontade de ler a histria de Macintosh no jornal. No teria visto aquela histria em quadrinhos ridcula e 
rude, na qual Vernica entrara na vida dele. No princpio, tinha rido, ento as lembranas a fizeram chorar. Que direito Grant tinha de us-la em seu trabalho quando 
no compartilhava a pessoa que era com ela? E continuava usando-a repetidamente, em dzias de jornais ao redor do pas, nos quais leitores estavam acompanhando o 
romance crescente de Macintosh... o seu envolvi-mento confuso... com a sexy e sedutora Vernica.
A histria era engraada, e os toques de stira e cinismo a tornavam ainda mais divertida. Era humana. Ele usara a tolice e a armadilha de se apaixonar e dera aos 
personagens o toque que todos os homens ou mulheres que j tinham se apaixonado um dia entenderiam. Cada vez que lia a histria em quadrinhos, Gennie podia reconhecer 
alguma coisa que eles haviam feito ou que ela falara, embora Grant tivesse um jeito de distorcer aquilo para um ngulo estranho. Com sua atrao por privacidade, 
Grant, de forma indireta, ainda compartilhava seu turbulento mundo emocional com o pblico.
Era um sofrimento ler aquilo todos os dias. Porm, dia aps dia, ela lia.
- Acordou cedo, Gennie?
Quando a mo tocou-lhe o ombro, ela virou-se para Justin.
- Sempre fui uma pessoa da manh - replicou Gennie, sorrindo. - Ganhei bastante nas suas mesas.
Ele retornou o sorriso, enquanto a estudava com olhos reservados. Gennie estava plida... ainda to plida quanto estivera no momento que tinha aparecido de repente 
no Hotel Comanche. Uma palidez que apenas acentuava as olheiras pela bvia falta de sono. E tinha um olhar ferido que Justin reconhecia, porque tambm estava profundamente 
apaixonado. Alguma coisa que acontecera entre ela e Grant deixara sua marca em Gennie.
- Que tal um caf da manh? - Sem esperar resposta, ele deslizou um brao pelos ombros dela, e comeou a conduzi-la para seu escritrio.
- No estou com muita fome, Justin - comeou Gennie.
- Voc no tem sentido fome h duas semanas. - Ele a guiou atravs do escritrio externo para o seu particular, ento apertou o boto do elevador. - Voc  a nica 
prima de que gosto, Genvive. Estou cansado de v-la se acabar diante de meus olhos.
- Eu no estou me acabando! - disse ela de forma indignada, ento encostou a cabea no brao dele. - No h nada pior do que ter algum deprimido  sua volta, sentindo 
pena de si mesmo, h?
- Uma chateao - concordou Justin levemente, enquanto a conduzia para sua cabine de elevador particular. - Quanto voc levou de mim l dentro?
Gennie levou um minuto para entender que ele tinha mudado de assunto.
- Oh, no sei... quinhentos ou seiscentos dlares.
- Vou pr o caf da manh na sua conta - brincou Justin quando as portas se abriram para a sute dele e de Serena. - A risada de Gennie o alegrou, assim como o abrao 
que ela lhe deu.
- Um tpico homem - declarou Serena quando entrou no quarto. - Passeando com uma linda mulher ao nascer do sol enquanto a esposa fica em casa trocando fraldas.
- Ela estava com Mac gorgolejando sobre seu ombro.
Justin sorriu para a esposa.
- Nada pior do que uma mulher ciumenta. Arqueando sobrancelhas elegantes, Serena se aproximou e colocou o beb nos braos de Justin.
- Sua vez - falou ela sorrindo, ento, sentou-se em  uma poltrona. - Um dentinho de Mac est nascendo - contou para Gennie. E ele no est muito bem-humorado com 
isso.
- Voc est - Justin disse a ela, enquanto seu filho comeava a babar no seu ombro.
Serena sorriu, colocou os ps em cima da poltrona e bocejou preguiosamente.
- Estou certa de que isso, tambm, vai passar. Vocs dois comeram?
- Acabei de convidar Gennie para tomar o caf da manh.
Serena viu o olhar srio do marido e entendeu. Convencer teria sido uma palavra mais adequada que convidar, imaginou.
- timo - disse ela simplesmente e pegou o telefone. 
- Uma das melhores coisas sobre morar em um hotel  o servio de quarto.
Enquanto Serena pedia caf da manh para trs, Gennie refletia. Gostava daquela sute... cheia de calor, cores e personalidade. Se algum dia tivera a atmosfera de 
um quarto de hotel, j perdera h muito tempo. O beb deu um gritinho de alegria no momento em que Justin se sentou no cho para brincar com ele. Em voz baixa e 
melodiosa, Serena falava ao telefone com a cozinha do hotel.
Se voc amasse o bastante, pensou Gennie, indo para a janela com vista para a praia, se queria o suficiente, podia fazer de qualquer lugar um lar. Rena e Justin 
haviam leito isso. Onde quer que tivessem decidido viver, com o estilo que fosse, eram uma famlia. Era bsico assim.
Ela sabia que eles trabalhavam juntos para cuidar do li lho, dirigir o cassino e o hotel. Formavam uma unidade. Havia dificuldades, Gennie sabia. Tinha de haver 
em qualquer relacionamento, principalmente entre duas pessoas de personalidades fortes. Mas superavam os problemas porque cada um estava disposto a ceder quando 
era necessrio.
Gennie no estivera disposta a ceder? Nova Orleans teria se tornado um lugar para visitar... para ver a famlia, matar as saudades se a necessidade aparecesse. Podia 
ter feito sua vida naquela costa do Maine... por ele, com ele. Estivera disposta a dar tudo isso, se Grant estivesse disposto a ceder em retorno. Talvez no fosse 
uma questo de dispor-se a ceder. Talvez Grant simplesmente no tivesse a capacidade de dar. Era isso que ela devia aceitar. Uma vez que aceitasse, poderia finalmente 
fechar a porta do passado.
- O oceano  maravilhoso, no ? - murmurou Serena atrs dela.
- Sim. - Gennie virou a cabea. - Tornei-me to acostumada a olhar para ele.  claro, sempre vivi com o rio.
-  para l que voc vai voltar? Gennie virou-se da janela.
- No final, suponho que sim.
-  a escolha errada, Gennie.
- Serena - disse Justin em tom de aviso, mas ela voltou-se para ele com olhos brilhando de raiva e a voz baixa com exasperao.
- Que coisa, Justin, ela est sofrendo terrivelmente! No h nada como um homem teimoso para fazer uma mulher sofrer, h, Gennie?
Com uma risadinha, Gennie passou uma das mos pelos cabelos.
- Suponho que no.
- Isso funciona dos dois lados - Justin a relembrou.
- E se o homem  muito obstinado - continuou Serena -, depende de a mulher dar-lhe um empurrozinho.
- Ele no me quis - disse Gennie apressada, ento parou. As palavras machucavam, mas podia pronunci-las. Talvez fosse hora de falar. - No realmente, ou, pelo menos, 
no o bastante. Grant no estava disposto a acreditar que podamos encontrar uma sada para os nossos problemas. Ele no compartilha nada comigo... como se estivesse 
determinado a no compartilhar. Aparentemente, ns nos aproximamos durante um curto perodo de tempo, apesar dos esforos dele para que isso no acontecesse. Grant 
no queria se apaixonar por mim, no quer depender de ningum.
Enquanto ela falava, Justin se levantou e levou Mac para um outro quarto. A msica suave do mbile soou. Ento Justin voltou, falando:
- Gennie, voc sabe sobre Grant e o pai de Shelby? 
Ela deu um longo suspiro antes de se sentar em uma poltrona.
- Sei que ele morreu quando Grant tinha aproximadamente 17 anos.
- Ele foi assassinado - corrigiu Justin, e observou o horror nublar os olhos dela. - Senador Robert Campbell. Voc era provavelmente criana, mas talvez se lembre.
Ela lembrava, vagamente. Os comentrios, a cobertura da televiso, o tribunal... e Grant estivera l. Shelby no lhe contara que ela e o irmo estavam presentes 
quando o pai morrera? Assassinado diante dos olhos dos filhos.
- Oh, meu Deus, deve ter sido horrvel para eles!
- Nem todas as cicatrizes se curam por completo - murmurou Justin, movendo uma mo distrada a seu lado, num gesto que a esposa entendeu. - Pelo que Alan me contou, 
Shelby carregou esse medo e sofrimento por muito tempo. No imagino que tenha sido diferente para Grant. s vezes - ele olhou para Serena -, voc teme se aproximar 
demais de uma pessoa pelo medo de perd-la.
Serena foi para o lado de Justin e pegou-lhe a mo.
- Voc no v? Ele escondeu isso de mim, tambm.
- Gennie apertou os braos da poltrona com fora. Sofria por Grant... pelo menino e pelo homem. - Ele no confiou em mim, no me achou capaz de compreender. Enquanto 
houver segredos, haver distncia.
- Voc no acredita que Grant a ama? - perguntou Serena gentilmente.
- No o bastante - replicou Gennie com um violento meneio da cabea. - Eu morreria precisando de mais.
- Shelby ligou ontem  noite. - Serena falou quando uma batida  porta anunciou o caf da manh. Enquanto Justin ia atender, ela gesticulou para que Gennie se movesse 
para a pequena mesa em frente  janela. - Grant surpreendeu a ela e a Alan com uma visita alguns dias atrs. -Ele...
- No - interrompeu Serena, sentando-se. - Ele est de volta ao Maine agora. Ela contou que o irmo a encheu de perguntas.  claro, Shelby no tinha as respostas 
at que falou comigo e descobriu que voc estava aqui. - Gennie olhou para o mar e no disse nada. - Ela me perguntou se voc estava seguindo Macintosh nos jornais. 
Levei duas horas para entender o motivo da pergunta.
Gennie virou-se com um olhar especulativo, ao qual Serena respondeu com suavidade.
- Talvez eu no esteja acompanhando voc - disse ela, automaticamente guardando o segredo de Grant.
Serena pegou o pote que o garom colocou sobre a mesa.
- Caf, Vernica?
Gennie deu uma risada de admirao e assentiu com um gesto de cabea.
- Voc  muito rpida, Rena.
- Adoro quebra-cabeas - corrigiu ela. - E as peas estavam todas l.
- Essa foi a nossa ltima discusso. - Gennie olhou para Justin quando ele se sentou. Aps acrescentar leite ao caf, ela apenas brincou com a asa da xcara. - Durante 
todo o tempo que passamos juntos, Grant nunca me contou o que fazia. Ento, quando, por acaso, eu descobri, ele ficou furioso... como se eu tivesse invadido sua 
privacidade. Eu estava to contente! Quando pensava que ele no fazia nada com o talento que possui, no podia entender. Ento, saber que Grant estava fazendo algo 
to inteligente... - Ela parou, meneando a cabea. - Ele no me deixa penetrar em seu mundo.
- Talvez voc no tenha pedido alto o bastante - sugeriu Serena.
- Se ele me rejeitar de novo, Rena, eu vou desmoronar. No  uma questo de orgulho realmente.  mais uma questo de fora.
- Eu j a vi doente dos nervos antes de uma exibio Justin a relembrou. - Mas voc sempre supera.
- Uma coisa  expor seus sentimentos para o pblico, c outra  arrisc-los com uma pessoa, sabendo que no sobrar nada se ele no quiser tais sentimentos. Tenho 
uma exibio em novembro - disse ela, brincando com os ovos no prato. -  nisso que preciso me concentrar agora.
- Talvez voc queira dar uma olhada nisso enquanto come. - Justin pegou o jornal que o garom levara, abrindo-o na seo de histrias em quadrinhos.
Gennie olhou para o jornal, no querendo ver, mas incapaz de resistir. Aps um momento, tirou-o da mo dele.
A edio de domingo era grande e brilhantemente colorida. Aquele Macintosh, todavia, parecia desmazelado e perdido. Em uma olhada, ela podia ver que a tonalidade 
era para indicar depresso e solido. Pensou que Grant sabia como imediatamente chamar a ateno dos leitores e guiar-lhes o humor.
Na primeira seo, Macintosh estava sentado sozinho, os cotovelos nos joelhos, o queixo enterrado nas mos.
Nenhuma palavra ou texto explicativo eram necessrios para projetar seu sofrimento. A compaixo dos leitores era instantaneamente despertada. Quem abandonara o pobre 
sujeito dessa vez?
Com uma batida  porta, ele murmurou... tinha de ser murmurado... "Entre". Mas no alterou sua posio quando Ivan, o imigrante russo, entrou usando seu usual traje 
fanaticamente americano... do oeste dessa vez, chapu de caubi e botas.
- Ei, Macintosh. Tenho dois ingressos para o jogo de basquete. Vamos ver as lderes de torcida.
Nenhuma resposta.
Ivan puxou uma cadeira e inclinou o chapu para trs.
- Voc pode comprar a cerveja,  o estilo de vida americano. Vamos com o seu carro.
Nenhuma resposta.
- Mas eu dirijo - disse Ivan alegremente, cutucando Macintosh com a ponta de sua bota.
- Oh, ol, Ivan. - Macintosh assumiu sua postura melanclica outra vez.
- Ei, homem, voc est com algum problema?
- Vernica me deixou.
Ivan cruzou uma perna sobre a outra e estava,  claro, balanando o p.
- Oh, srio? Por outro homem, huh?
- No.
- Por qu?
Macintosh nunca alterava a posio, e a prpria ausncia de ao esclarecia o ponto.
- Porque eu fui egosta, rude, arrogante, desonesto, estpido, e geralmente cruel.
Ivan olhou para a ponta da bota.
- Isso  tudo? -Sim.
- Mulheres! - disse Ivan dando de ombros. - Nunca esto satisfeitas.
Gennie leu a histria duas vezes, ento olhou para cima, como se estivesse se sentindo impotente. Sem uma palavra, Serena pegou-lhe o jornal da mo e leu. Rindo, 
largou a edio sobre a mesa.
- Quer a minha ajuda para fazer as malas?

Onde ela estava? Grant sabia que enlouqueceria se perguntasse isso a si mesmo mais uma vez.
Onde ela estava?
Do terrao de seu farol, podia ver a quilmetros de distncia. Mas no podia ver Gennie. O vento batia no seu rosto enquanto olhava para o mar e questionava-se sobre 
o que, em nome de Deus, iria fazer.
Esquec-la? Ocasionalmente podia esquecer-se de comer ou dormir, mas no conseguia esquecer Gennie. Infelizmente, sua memria dos ltimos dez minutos que haviam 
estado juntos estava clara demais. Como pudera ser to tolo? Oh, era fcil, pensou com desgosto. Tinha muita prtica nisso.
Se no tivesse passado aqueles dois dias amaldioando Gennie e a si mesmo, andando na praia em um minuto, trancando-se no estdio no seguinte, talvez no fosse tarde 
demais. Contudo, no momento em que percebera que havia partido o prprio corao, ela j partira. O chal fora fechado e a viva Lawrence no sabia de nada e no 
falara nada.
Grant tinha voado para Nova Orleans e procurado por ela feito um louco. O apartamento de Gennie estava vazio... os vizinhos no sabiam de nada. Mesmo quando conseguira 
falar com a av dela, ligando para todos os Grandeau da lista telefnica, no descobrira nada alm de que Gennie estava viajando.
Viajando, pensou. Sim, ela estava viajando... fugindo dele o mais rpido que podia. Oh, voc merece isso, Campbell, repreendeu-se. Voc merece que Gennie desaparea 
da sua vida sem olhar para trs.
Ele telefonara para os MacGregors... Felizmente Anna atendera em vez de Daniel. Eles no tinham notcias de Gennie. Nada! Ela podia estar em qualquer lugar. Em lugar 
algum. Se no fosse pela pintura que deixara para trs, Grant podia ter acreditado que ela havia sido um milagre, afinal de contas.
Gennie deixara a pintura para ele, lembrou-se, aquela que tinha terminado na tarde que eles se tornaram amantes. Mas no havia nenhum bilhete. Grant queria atir-lo 
no precipcio. Mas pendurou em seu quarto. Talvez fosse seu sinal de luto, porque toda vez que a olhava, sofria.
Mais cedo ou mais tarde, prometeu a si mesmo, a encontraria. O nome dela e a foto estariam no jornal. Ento, a perseguiria e a traria de volta.
Traz-la de volta, pensou, passando uma das mos pelos cabelos. Suplicaria, imploraria, se arrastaria, faria o que fosse necessrio para que Gennie lhe desse uma 
outra chance. Era culpa dela, concluiu com uma onda de raiva. Culpa dela que ele estava agindo como um manaco. No tinha uma noite decente de sono h duas semanas. 
E a solido que sempre prezara estava ameaando sufoc-lo. Se no a encontrasse logo, perderia o que restava de sua mente.
Furioso, afastou-se do balastre da varanda. Se no podia trabalhar, desceria at a praia. Talvez encontrasse alguma paz l.
Tudo parecia igual, pensou Gennie quando chegou ao fim da estrada estreita e curvilnea. Apesar de o vero ter finalmente se rendido ao outono, nada tinha realmente 
mudado. O mar continuava barulhento, batendo lentamente nas pedras. O farol ainda estava l, solitrio e forte. Tinha sido tolice sua acreditar que descobriria que 
alguma coisa importante, talvez essencial, tivesse sido alterada desde sua partida.
Grant no teria mudado, tambm. Respirando profundamente, Gennie desceu do carro. Mais do que tudo, no queria que Grant Campbell mudasse o que o tornava nico. 
Ela se apaixonara pelo exterior rstico, pela sensibilidade relutante... sim, at mesmo pela rudeza. Talvez fosse uma tola. No queria mud-lo. Tudo que queria era 
a sua confiana.
E se tivesse interpretado a histria em quadrinhos de maneira errada? E se ele a rejeitasse? No, no ia pensar nisso. Iria se concentrar em colocar um p diante 
do outro at que o encarasse novamente. Era hora de parar de ser covarde nos pontos mais importantes de sua vida.
Assim que tocou a maaneta da porta, Gennie parou. Ele no estava l. Sem saber como ou por que, estava absolutamente certa disso. O farol estava vazio. Olhando 
para trs, viu a caminhonete dele parada perto da casa de fazenda. Grant estaria no barco?, perguntou-se quando olhou para a lateral. O barco estava no cais, balanando 
suavemente com a mar baixa.
Ento, ela soube, e perguntou-se como no soubera desde o comeo. Sem hesitao, comeou a descer o rochedo.
Com as mos nos bolsos, e o vento balanando a jaqueta, Grant andava ao longo da praia. Ento aquilo era solido, pensou ele. Tinha vivido sozinho por anos sem conhecer 
o sentimento. Era mais uma coisa para culpar Gennie. Como era possvel que uma nica mulher pudesse mudar a essncia de sua vida?
Com um esforo calculado, sentiu raiva. Raiva no machucava. Quando a encontrasse... e, por Deus, a encontraria, Gennie teria que pagar por muita coisa. Sua vida 
estava indo exatamente como ele queria antes que ela a invadisse. Amor? Oh, Gennie podia falar sobre amor, e depois desaparecer apenas porque ele fora um tolo.
Ele no tinha pedido para precisar de Gennie. Ela insistira at que Grant enfraquecesse, ento o abandonara no minuto em que ele a magoara. Virando-se para o mar, 
fechou os olhos. Deus, como a magoara! Vira isso no rosto de Gennie, ouvira na sua voz. Como seria capaz de compens-la por isso um dia? Preferia ter visto raiva 
ou lgrimas ao sofrimento que colocara nos olhos dela.
Se voltasse para Nova Orleans... ela poderia estar l agora. Podia voltar e, se no a encontrasse, poderia esperar. Gennie teria de retornar mais cedo ou mais tarde. 
A cidade significava muito para ela. Que coisa! O que estava fazendo ali na praia, quando deveria estar em um avio indo para o sul?
Grant virou-se, e viu. Agora estava imaginando coisas.
Gennie observava-o com uma calma que no revelava ,is batidas de seu corao. Ele parecia to sozinho... no sozinho como gostava de ficar, mas solitrio. Talvez 
estivesse imaginando isso, porque queria acreditar que ele estivera pensando nela. Reunindo toda a coragem que possua, se aproximou.
- Eu quero saber o que voc quis dizer com isso. -Gennie enfiou a mo no bolso e tirou o recorte de jornal com a histria em quadrinhos de domingo.
Ele a olhou. Talvez estivesse vendo, ou at ouvindo coisas, mas... vagarosa-mente, estendeu o brao e tocou-lhe o rosto.
- Gennie?
Os joelhos dela amoleceram. Resolutamente, Gennie os firmou. No ia cair nos braos dele. Seria to fcil, mas no resolveria nada.
- Quero saber o que isso significa. - Ela ps o pedao de jornal na mo dele.
Oscilando, Grant olhou para o seu trabalho. No tinha sido fcil colocar aquilo no jornal to rapidamente. Precisara mexer todos os pauzinhos  sua disposio e 
trabalhar como um louco. Mas, se aquilo a levara de volta, tinha valido a pena.
- Significa o que diz - murmurou ele, fitando-a outra vez. - No h muita sutileza nessa tira em particular.
Gennie tirou-lhe o pedao de jornal da mo e colocou-o no bolso novamente. Era algo que pretendia guardar para sempre.
- Voc tem me usado em abundncia no seu trabalho recentemente. - Ela teve de inclinar a cabea a fim de manter os olhos no nvel dos dele. Grant achou que Gennie 
parecia mais regia do que nunca. Se abaixasse o polegar, poderia jog-lo para os lees. - No lhe ocorreu pedir permisso primeiro?
- Privilgio de artista. - Ele sentiu a gua espirrar em suas costas, molhando-lhe os cabelos, tambm. - Para onde voc foi? - ouviu-se exigindo saber. - Onde estava?
Gennie estreitou os olhos.
- Isso  problema meu, no ? 
- Oh, no. - Ele segurou-lhe os braos e a sacudiu. - Oh, no, no . Voc no vai me abandonar.
Gennie cerrou os dentes e esperou at que ele parasse de sacudi-la.
- Se a memria servir, voc me abandonou figurativamente antes que eu o abandonasse literalmente.
- Tudo bem! Agi como um tolo. Voc quer um pedido de desculpas? - gritou ele. - Eu lhe dou de qualquer tipo que quiser. Eu... - Grant parou, a respirao descontrolada. 
- Oh, Deus, mas antes...
E ele a beijou, os dedos enterrando nos ombros dela. O gemido profundo que emitiu era apenas mais um sinal de uma necessidade desesperadora. Ela estava l, era sua. 
Nunca mais a deixaria partir.
A mente de Grant comeou a clarear, de modo que seus prprios pensamentos o feriram. No era assim que queria fazer aquilo. Esse no era o jeito de compens-la pelo 
que lhe fizera... ou no fizera. E essa no era a maneira de mostrar-lhe o quanto queria faz-la feliz.
Com um esforo, Grant afastou-se e deixou as mos carem na lateral do corpo.
- Sinto muito - comeou com rigor. - Eu no pretendia machuc-la, no agora nem antes. Se voc entrar, podemos conversar.
O que era aquilo?, perguntou-se ela. Quem era aquele? Gennie entendia o homem que a sacudira, que gritara com ela, o homem que a puxara para seus braos, repleto 
de necessidade e fria. Mas no tinha idia de quem era aquele homem parado  sua frente, oferecendo um pedido de desculpas forado. Ela arqueou as sobrancelhas. 
No tinha viajado toda aquela distncia para falar com um estranho.
- O que est acontecendo com voc? - perguntou Gennie. - Eu o informarei quando voc me machucar. -Ela ps um dedo no peito dele. - E quando eu quiser um pedido 
de desculpas. Ns vamos conversar, tudo bem - acrescentou, inclinando a cabea para trs. - E vamos conversar aqui mesmo.
- Como voc quiser! - Em exasperao, Grant ergueu as mos. Como um homem podia rastejar adequadamente quando algum o estava agredindo?
- Vou lhe dizer o que quero! - Gennie gritou de volta. - Quero saber se voc pretende resolver a nossa situao ou esquivar-se em seu buraco. Voc  bom em se esconder. 
E se  isso que quer continuar fazendo, apenas fale.
- Eu no estou me escondendo - respondeu ele entre dentes. - Moro aqui porque gosto do lugar, porque posso trabalhar sem ter algum batendo  minha porta ou tocando 
o telefone a cada cinco minutos.
Ela lhe deu um longo olhar raivoso.
- No  sobre isso que estou falando, e voc sabe muito bem.
Sim, ele sabia. Frustrado, enfiou as mos nos bolsos para evitar sacudi-la de novo.
- Certo, escondi coisas de voc. Estou acostumado a manter as coisas s para mim,  um habito. E ento... e ento eu no lhe contei nada sobre a minha vida porque 
quanto mais eu me apaixonava por voc, mais apavorado ficava. Que droga, eu no queria depender de ningum para... - Ele parou, passando uma mo pelos cabelos.
- Para o qu?
- Para estar l quando eu precisasse - disse Grant com um longo suspiro. Onde aquilo estivera escondido?, perguntou-se, mais surpreso pelas suas prprias palavras 
do que Gennie estava. - Eu vou lhe contar sobre o meu pai.
Ela o tocou ento, os olhos se suavizando pela primeira vez.
- Justin me contou. - Grant ficou tenso de imediato e se virou. -Voc ia esconder isso de mim, tambm, Grant?
- Eu mesmo queria ter lhe contado - respondeu ele aps um momento. - Explicar... faz-la entender.
- Eu entendo - murmurou ela. - O bastante, pelo menos. Ns dois perdemos pessoas que amvamos muito e de quem dependamos de nosso prprio jeito. Parece-me que compensamos 
a perda de nosso prprio modo, tambm. Entendo perfeitamente como  ver uma pessoa que voc ama morrer de repente, diante de seus olhos.
Grant ouviu a voz embargada de emoo e virou-se. No poderia lidar com lgrimas agora, no quando estava contendo as suas prprias.
- No comece a chorar. Isso  algo que voc tem de pr de lado, nunca se desfazer, mas pr de lado. Eu pensei que tivesse feito isso, mas o sentimento voltou quando 
me envolvi com voc.
Gennie assentiu e engoliu em seco. Aquele no era o momento para lgrimas ou para mergulhar no passado.
- Voc quis que eu fosse embora.
- Talvez... sim. - Ele olhou alm dela para o topo do penhasco. - Achei que era a nica sada para ns. Talvez ainda seja, mas no posso conviver com isso.
Confusa, ela colocou uma das mos no brao dele.
- Por que voc acha que ficarmos separados pode ser ;t melhor coisa?
- Ns escolhemos viver em mundos totalmente diferentes, Gennie, e ambos estvamos contentes antes de nos conhecermos. Agora...
- Agora - disse ela, enervando-se de novo. - Agora, o qu? Voc continua to teimoso que no vai considerar um compromisso?
Ele a olhou inexpressivamente. Por que Gennie estava falando em compromisso quando ele estava prestes a abrir mo de tudo e partir com ela para qualquer lugar?
- Compromisso?
- Voc nem mesmo sabe o significado da palavra! Para algum to inteligente e esperto, tem a mente fechada de um tolo! - Furiosa, ela virou-se para partir.
- Espere. - Grant agarrou-lhe o brao to rapidamente que Gennie caiu contra ele. - Voc no est me ouvindo. Vou vender o terreno, doar, se voc quiser. Vamos morar 
em Nova Orleans. Que coisa, vou sair na primeira pgina do jornal declarando-me como o artista criador de Macintosh, se isso a fizer feliz. Podemos ter a nossa foto 
estampada em todas as revistas do pas.
-  isso que voc acha que quero? - Gennie pensara que ele j a deixara to furiosa quanto ela era capaz de ficar, uma dzia de vezes durante o relacionamento deles. 
Mas nada se comparava com aquilo. - Seu tolo egosta! No me importo se voc escreve suas histrias em quadrinhos em sangue no escuro. No me importo se posa para 
centenas de revistas ou grita com os paparazzi. Vender o terreno? - continuou ela, enquanto Grant tentava acompanhar. Por que, em nome de Deus, voc faria isso? 
Tudo  preto no branco para voc. Compromisso! - exclamou Gennie. - Significa dar e receber. Acha que me importo com o lugar em que moro?
- Eu no sei! - replicou ele com impacincia. - Tudo o que sei  que voc vivia de certa maneira... e estava feliz. Voc tem razes em Nova Orleans, famlia.
- Eu sempre terei razes e famlia em Nova Orleans, mas isso no significa que tenho de estar l doze meses por ano. - Ela passou as duas mos pelos cabelos, mantendo-os 
para trs um momento, enquanto se perguntava como um homem to inteligente podia ser to complicado. - E, sim, eu vivia de certa maneira, e posso viver de uma maneira 
diferente a partir de agora. Eu no poderia parar de ser artista por voc, porque pararia de ser eu. Farei uma exposio em novembro. Preciso das exposies e preciso 
que voc esteja comigo. Mas h outras coisas que posso lhe dar em retorno, se apenas me encontrasse na metade do caminho. Se me apaixonei por voc, por que agora 
eu iria querer que desistisse de tudo que ?
Ele a fitou, dizendo a si mesmo para manter a calma. Por que tudo que Gennie falava fazia tanto sentido, e tudo que ele dizia, nenhum?
- O que voc quer? - comeou ele, ento ergueu uma das mos antes que ela pudesse gritar. - Compromisso - terminou.
- Mais. - Gennie ergueu o queixo, mas os olhos estavam mais incertos do que arrogantes. - Preciso que voc confie em mim.
- Gennie. - Ele pegou-lhe a mo e uniu os dedos de ambos. - Eu confio.  isso que eu estava tentando lhe dizer.
- Voc no fez um bom trabalho para isso.
- No. - Ele a puxou para mais perto. - Deixe-me tentar de novo. - Grant a beijou, dizendo a si mesmo para ser gentil. Mas seus braos se apertaram ao redor dela, 
com fora, a boca tomando-a com avidez. A gua do mar espirrou nos dois enquanto permaneciam abraados. - Voc  todo o foco do meu mundo - murmurou ele. - Depois 
que voc partiu, eu enlouqueci. Voei para Nova Orleans e...
- Voc fez isso? - Perplexa, ela afastou-se para olh-lo. - Foi atrs de mim?
- Com vrios propsitos em mente - respondeu Grant.
- Primeiro, eu ia estrangul-la, depois eu ia rastejar, ento iria arrast-la de volta para c e tranc-la l em cima.
Sorrindo, Gennie descansou a cabea no peito dele
- E agora?
- Agora - ele a beijou -, ns nos comprometemos. Eu vou deixar voc viver.
- Bom comeo. - Com um suspiro, ela fechou os olhos. - Eu quero ver o mar no inverno.
Ele inclinou-lhe o rosto para o seu.
- Ns veremos.
- H mais uma coisa...
- Antes ou depois de eu fazer amor com voc? Rindo, ela se afastou.
-  melhor antes. J que voc ainda no mencionou casamento, isso fica por minha conta.
- Gennie...
- No, dessa vez, vamos fazer tudo do meu jeito. - Ela pegou a moeda que Serena tinha lhe dado antes que sasse do Comanche. - E, de certa forma,  um tipo de compromisso. 
Cara, ns nos casamos. Coroa, no nos casamos.
Grant segurou-lhe o pulso antes que ela pudesse jogar a moeda.
- Voc no vai fazer jogos comigo com uma coisa dessas, Genvive, a menos que esta seja uma moeda com "cara" dos dois lados.
Ela sorriu.
- Certamente .
A surpresa veio primeiro, depois o lindo sorriso de Grant.
- Jogue. Eu gosto de arriscar.
Nora Roberts - O Encanto da Luz
(Destinos 64)




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